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Carta de um amor desesperado

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Avidamente folheava aquele tesouro literário à sua frente

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Seriam seus últimos dias naquela cidade fria. Fria e inóspita. Colocara seus pertences em grandes caixas que já enviara para o novo destino que a esperava. Com ela apenas a pequena mala de viagem. E os livros que resolvera doar para a biblioteca da escola vizinha.

Morava em um pequeno apartamento. Apenas um quarto com banheiro e saleta conjugada a uma cozinha. Sentou-se na única poltrona que lhe restava e começou a folhear o livro que aleatoriamente separara para ler na viagem. Era mais volumoso do que se lembrava. Algumas folhas datilografadas em fino papel saltaram para fora. Não se recordava de tê-las visto algum dia e nem de havê-las colocado ali. Folhas já amarelecidas pelo tempo. Tal como as do livro que agora avidamente folheava em busca de mais segredos.

Muitas mais encontrou em meio à velha brochura. Escritas com uma linda e uniforme caligrafia com fina caneta preta em folhas azuis, amarelas, rosas e verde de tonalidade esmaecida.

O livro pertencera à sua velha tia que morava em uma cidade distante. Cartas de amor. De um amor proibido. De um amor que se esvaneceu assim como aqueles papéis que já tinham sido coloridos.

Avidamente folheava aquele tesouro literário à sua frente. Precisava a tudo ler em uma sequência cronológica. Precisava seguir a rota de tempo do tempo em que a história se passara. Seu encanto aumentava a cada nova página lida. Estava diante de poemas em prosa entremeados por maravilhosas poesias.

Poemas em cartas de amor que teriam sido enviadas para Ariadne e assinadas por Athis. O mundo grego inundou sua mente. As clássicas tragédias dos tempos dos deuses, dos tempos das musas.

Sofregamente sorvia o néctar de flores jamais imaginadas em sua vida. Deslizava pelas frases. Embevecia-se com o perfume que das palavras recendia.

Quem escrevera? Para quem? Por que aqueles guardados.

Na manhã seguinte viajaria. Já tinha até uma pousada reservada no meio do caminho. Mas agora sua curiosidade em saber mais, muito mais em torno do que estava a ler fê-la pensar até em mudar de itinerário e cruzar o país. Precisava falar com sua velha tia.

Detinha-se muitas vezes nos trechos mais líricos. Relia-os com lágrimas nos olhos. Que paixão teria sido aquela. Tão forte e tão amarga. Tão maravilhosa e tão triste.

Na madrugada acordou com esta carta em suas mãos. Lembrava-se de que a lera em prantos ao imaginar em sua mente a ironia de um encantamento que se desfez em farrapos.

“Ariadne,  

perdoa-me por eu estar escrevendo nestas folhas, empoeiradas, ainda que verdes. São onze e pouco de uma noite quente, o que me enche de uma saudade louca de outros verões também sem reprise.  

… estavas comigo, as horas passando, um papo gostoso que às vezes só a aurora de um novo dia conseguia interromper… Eu sabia que aquela felicidade roubada aos poucos seria efêmera, como tudo o é por aqui. Só não sabia que eu mesma apressaria o seu fim.  

Foi há tanto tempo! … as imagens melhores conservam-se ainda nítidas apesar dessas falhas repetirem-se numa memória pontilhada de vazios.  

As coisas que acabas de escrever para mim, comparadas às daquele tempo, mostram as dimensões assombrosas do abismo que cavei sob meus próprios pés nesses anos todos. Foi uma derrota medonha diante da vida, dos sonhos, dos ideais. Mas, o pior, é que foi um desabar vergonhoso diante de nossa maravilhosa amizade.  

Nesta noite as recordações envolvem-me como densa neblina. E quase nada vejo senão essas infindáveis reprises de uma época que passou veloz demais. Colhe-se o que se planta. Quando nós nos conhecemos já estava bem próximo o meu tempo de colher tanta coisa ruim, minha amiga! E a minha colheita de erva daninha foi se fazendo, aos poucos, diante dos teus olhos surpresos, sem que eu te poupasse desse espetáculo deprimente.  

E, mesmo assim, tu me amaste; e eu te agradeço. Agradeço, ainda mais, pela força que tentaste me dar. Agradeço pelos meses e anos de espera sofrida por um milagre que, afinal, não aconteceu. Agradeço pelo calor transmitido de alma a alma, o que por longo tempo ainda me deixou a ilusão de um renascer.  

Foi tudo em vão, minha amiga! Meu Deus! Foi tudo um crime! Eu estava te destruindo! Eu estava te destruindo com o oco das palavras, com a mentira das promessas, com o imenso egoísmo que te queria sempre perto, em nome de uma ternura teórica e, depois, em nome de uma amizade que jamais se prolongou além de olhos nos olhos e de um aperto de mãos.

Estarás melhor longe de mim. Eu queria não ter essa influência. Eu queria que pudéssemos estraçalhar todos os elos dessa força estranha que nos prende como correntes de imperiosa e estranha força, assim como imãs ou descarga elétrica, o que nos vence e domina apesar da clareza com que nos sabemos desiguais.  

Eu queria que, pelo menos, uma de nós pudesse se libertar desse apego ilógico, injustificável, para que consigamos alguma serenidade para viver, ou sobreviver, ou subviver. Ou morrer, talvez.  

Eu quero qualquer desses caminhos curtos e tristes que me parecem únicos depois do que ofereces. Mas não quero o teu caminho para mim. Nele eu sempre estaria a retardar teu passo. Ou, então ficaria pelas beiras, vendo sumires ao longe, diante dos meus olhos.  

Podes fazer alguma coisa. Faze-o. Manda-me embora se acaso eu te procurar com outro feixe de palavras e promessas vazias. E serão palavras e promessas vazias, podes ter certeza. Assim sou eu! Poderia, agora, depois de todos esses anos, ter evoluído como querias. Poderia estar sendo a amiga maravilhosa que encheria as tuas horas de risos e paz e segurança.  

Poderia? … Não. Já não pude. Já não posso. Passou. Voou. Foi um sonho. Um “ruflar de asas entre os dedos”. Sumiu. Deixa que eu te veja uma vez ainda. Para responder às indagações que possas fazer. Para beijar-te, de manso, nas mãos, no rosto e sair. Não o sair como quem foge para as velhas andanças que já não terão o mesmo sabor.   

Porque levar-te-ei comigo.   

Até algum dia em alguma estrela;

Athis

Fechou o livro. Guardou com cuidados as velhas folhas. Tentou cerrar os olhos à espera do raiar do dia. Não conseguiu mais dormir. Sabia que precisava de um bom repouso antes de pegar a longa estrada. Com os olhos secos aguardou o amanhecer.

Em sua mente sua viagem já tomara outro destino. Dirigiu-se ao posto telefônico mais próximo. Era um tempo que a telefonia era de péssima qualidade. Uma hora depois ouvia a voz de sua tia no outro lado do mundo. Levaria talvez uns três dias para em seu carro lá chegar.

E partiu pela longa estrada rumo ao sul. Um longo, inusitado e instigante romance fervia em sua mente. Que lindo romance escreveria. Teria coragem para colocar em um livro a história de amor de Athis e Ariadne nos tempos de agora?

O crepúsculo do entardecer do terceiro dia encontrou-a chorar nos braços de uma tia que sorridente a recebia em sua sala aquecida ao fulgurante fogo de uma grande lareira.

O texto entre aspas foi escrito por Isis Maria Tack Baukat a pedido de uma amiga.

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