domingo, junho 20, 2021

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Avati encontra a luz de sua vida (II)

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Aos poucos sua vida ia sumindo, enquanto abençoava seu lindo menininho que já não mais chorava

 

 

O curuminzinho acabara de sair do ventre de Anahi e ela o tomara em seus braços, antes mesmo que a mãe do corpo saísse. Estava a sós na taba. Quando os seus saíram para as suas lides, nem sinal havia de que desse à luz naquela tarde. Foi tudo tão rápido. Em poucas horas nascia seu lindo bebê. Logo em seguida ela viu o fogaréu. Imensa labareda a tomar conta de tudo. Não tinha ideia de como sair com o pequeno em seus braços e atingir, a tempo, a grande abertura da entrada da oca. Abrigou-o, como pode, junto a seu ventre, envolveu-o com um monte de panos que estavam a seu lado e encetou a caminhada, deixando um rio de sangue atrás dela. Foram poucos os passos. Caiu. Fulminada pelo ribombar de um trovão, imaginou que uma flecha incandescente atravessava seu corpo. Caiu ao chão, protegendo, de uma forma inaudita, o seu pequeno ser. Ainda virou-se na direção da grande língua de fogo a tempo de ver um vulto voar em meio a elas em direção ao céu. Aos poucos sua vida ia sumindo, enquanto abençoava seu lindo menininho que já não mais chorava. Parecia sorrir para ela. E ela, com aquele sorriso em sua mente, sorriu para o seu pequenino e encetou sua longa jornada pelas campinas eternas.

 

 

 

Horas depois, Abaeté tomou o pequeno ser em seus musculosos braços e o elevou aos céus, bradando as mais gratas palavras que conhecia em sua língua.

 

 

 

— Avati! Você será o nosso Avati, o ser encantado que nos guiará em nossos tempos de glória e de luz! Que Tupã o proteja, meu filho Avati!

 

 

 

 

 

Indaíra era criança, ainda, quando seu povo, que vivia no alto das serras distantes, de onde se avistava o mar, fora dizimada pela ânsia e maldade de um verdadeiro exército de bárbaros homens brancos que para lá se dirigiram na insana procura do ouro. Era filha de Caíque, heroico cacique que, por muitas luas já, conseguira sobreviver da sanha assassina de tantos que de seu pequeno território se aproximavam.

 

 

 

Mas os inimigos eram muitos. E chegavam com maior frequência, com suas flechas que cuspiam fogo. Foi assim que, aos poucos, sua grande nação foi minguando. A cada investida dos brancos que de suas terras se aproximavam, diminuía o número de seus guerreiros.

 

 

 

Em sua sabedoria, temendo ver a sua família dizimada também, implorou a seus velhos pais que encetassem uma longa viagem para as terras do sul e levassem com eles a única filha que, de sua estirpe, restava. A sua amada Indaíra.

 

 

 

O velho cacique Kaluanã, pai de Caíque, entregara a direção da tribo a seu filho mais velho quando percebeu que, aos poucos, sua visão se enfraquecia, que seus ouvidos já não mais distinguiam os sons da floresta, quando já não mais conseguia correr atrás da caça, tão necessária para saciar a fome dos seus.

 

 

 

Kaluanã juntou seus arcos e flechas. Fez uma grande trouxa onde escondeu algumas pedras verdes que brilhavam muito. Sua mulher, Thaynara, providenciou a carne tisnada ao sol, algumas frutas, raízes do mandiocal e o que mais conseguissem, em seus já velhos e frágeis ombros carregar. Partiram em rumo ao desconhecido. Precisavam preservar o mais precioso ser de suas vidas. Sua neta Indaíra. Filha de Caíque, o lendário cacique de uma tribo que habitava o alto das grandes encostas de onde se avistava o mar.

 

 

 

Estavam já há dias mata adentro. Obstáculos nas travessias de pequenos regatos. Necessidade de contornar rios mais caudalosos. Tortuosos caminhos em torno de penhascos. Íngremes escaladas quando assim a jornada exigia. Pressentiram, mais que ouviram, que alguém, em velocidade, na distância, vinha em seu encalço.

 

 

 

Indaíra, ainda menina, com seu olhar arguto reconheceu o jovem que corria ao encontro deles. Tratava-se de Yakecan, filho mais novo de um dos mais aguerridos guerreiros da tribo de Caíque.

 

 

 

Quase sem fôlego o jovem chegou perto deles. Para lhes trazer a mais triste das notícias e lhes pedir para, com eles, continuar a jornada em direção ao sul. Toda a nação fora dizimada. Não sobrara ninguém. Ele nem sabia contar como se salvara. Minutos antes do embate final, no qual os índios remanescentes foram cercados com flechas que cuspiam fogo, por todos os lados, ele havia sido encarregado de buscar água em uma fonte distante. Ao longe ouviu o pipocar dos fogos, que rugiam sem cessar, e o clarão que iluminava toda a mata. Pensou em reunir-se ao seu povo. Até chegou bem perto. Viu, com tristeza, o incêndio a consumir as poucas ocas que ainda restavam daquela que fora uma das mais pujantes tribos que habitavam o alto mais alto das serras de Piratininga.

 

 

 

 

Tentou, a sós, fazer a última saudação aos mortos. Não conseguia. Seu jovem organismo recusou-se a ali permanecer. Juntou o que seus braços podiam carregar, do pouco que ali restou para comer. Colocou suas flechas e seus arcos nos ombros e encetou a dolorosa procura do caminho que Kaluanã, Thaynara e Indaíra haviam tomado. Não foi difícil encontrar os rastos. Mesmo não viajando à noite sabia que logo os encontraria. Porque os três estariam andando, vagarosamente, pelas escarpadas trilhas.

 

 

 

Em uma tarde fria e nevoenta os quatro viandantes, exaustos já após luas e mais luas de peregrinação em meio à floresta fechada, perceberam ter chegado perto de um rio não muito caudaloso, mas bem mais largo que aqueles que haviam ultrapassado desde a sua saída dos planaltos de Piratininga.

 

 

 

 

 

Acompanharam o rio que fluía, lindamente, em direção talvez àquela água grande e azul que por uma vida vislumbravam do alto das serras onde viviam.

 

 

 

 

Ao longe uma fumaça no céu lhes dizia estarem próximos de uma vila, de um povoado. Amedrontados, a pensar que estariam no rumo de habitações de gente igual aos algozes que dizimaram seu povo, estacaram, de súbito. O velho Kaluanã pediu a Yakecan, que se arrastasse, como silenciosa serpente, o mais próximo possível.

 

 

 

 

Não demorou muito a retornar com as melhores notícias que poderiam esperar. Não apenas vira e ouvira como até criou coragem e foi conversar com as pessoas que nas roças em torno da oca do cacique Anori colhiam mandioca.

 

 

 

 

Foram recebidos com alguma ressalva, de início.

 

 

 

 

— Nobre cacique irmão Anori, eis-nos aqui a implorar um local para descansarmos nossos cansados corpos e uma cuia de água para saciar a nossa sede.

 

 

 

Kaluanã fez então um relato minucioso, que durou mais de uma hora, conforme os costumes indígenas. Foram convidados a ali permanecer por tanto tempo quanto quisessem.

 

 

 

 

E assim os quatro andarilhos foram acolhidos por toda a tribo do cacique Anori.

 

 

 

 

Já lá se encontravam há muitos anos quando Sami retornou de sua atribulada aventura, apoiado por duas muletas e pelo amigo Aníbal.

 

 

 

 

 

 

O velho Kaluanã, ao sentir que suas forças se esvaiam, a cada dia mais, que sua saúde abalada por tantas agruras, pediu ao chefe Anori que continuasse abrigando sua mulher Thaynara e sua neta Indaíra e que acolhesse entre os seus guerreiros o jovem que tanto os ajudara naquela longa jornada desde o planalto de Piratininga.

 

 

 

 

Anori reuniu os anciões da tribo. Fez uma longa palestra. Teceu loas ao nobre hóspede que há muitas luas viera a ter com eles, em dramática fuga, para não serem, de todo exterminados por bárbaros brancos que aos seus haviam dizimado nos planaltos de Piratininga. Lembrou-lhes que o filho de Kaluanã já chefiava aquela grande nação indígena. Que morrera bravamente, junto a seus guerreiros, tentando defender seu último reduto. Que Indaíra, a linda jovem que os acompanhara naquela caminhada em meio a íngremes serras e densas matas era a legítima herdeira de todas aquelas terras que se estendiam desde o mar até bem além dos planaltos que ficavam ao norte. Suas palavras foram entendidas por todos e quando Anori pediu que o acompanhassem na cerimônia para unir o sangue dele ao de Kaluanã recebeu aprovação unânime.

 

 

 

 

Foi nesta celebração que Indaíra passou a ser filha de Anori e irmã de sangue de Sami.

 

 

 

 

Algumas luas mais tarde as fúnebres cantigas eram ouvidas pelos seres encantados da floresta. E as cerimônias fúnebres na taba de Anori duraram os tradicionais três dias para homenagear o velho guerreiro cacique Kaluanã.

 

 

 

 

Não foi por muitas luas que a velha índia Thaynara chorou a morte de seu companheiro. A dor que roía sua alma era tão grande que seu pobre coração, cansado já de ver tanta tristeza, acabou por bater desmesuradamente, por um tempo tão longo, que logo parou. Indaíra sentiu a amargura aflorar-lhe a alma ao se ver só, sem os seus, sendo abrigada por estranhos que viviam tão distante da terra que fora sua.

 

 

 

 

Mas o coração daquela gente sempre foi muito grande. Continuaram a reverenciá-la como a chefe de uma grande nação indígena. Mesmo que daquela nação nada mais se soubesse. Recebeu todas as homenagens da tribo que a adotara.

 

 

 

 

Indaíra aprendera, desde os tempos que se lembra de sua infância, nas terras distantes, que o dom mais precioso que se tem é o de agradecer por qualquer coisa que se receba. E retribuía, atendendo e ajudando aos doentes, aos inválidos e aos velhos, tudo o que havia recebido.

 

 

 

 

Foi assim que começou a acompanhar Sami até a beira do rio. Ajudava-o em tudo. Pedira a Yakecan que talhasse para ela um banquinho com os restos de uma grande árvore que as intempéries puseram ao chão. Neste banquinho Sami descansava no caminho entre a taba e as barrancas do rio. Neste banquinho Sami sentava-se para ruminar suas angustiosas lembranças.

 

 

 

Indaíra contava-lhe todas as histórias possíveis, histórias de lendários seres que cruzavam as matas e os céus para ajudar os homens a viver melhor e mais felizes. Até que um dia conseguiu fazê-lo sorrir.

 

 

 

 

Nas margens do outro lado do rio um jovem índio que estava, distraidamente, a pescar, sentiu como se um raio fulminante passasse por seu coração, no instante em que levanta seu olhar e vê, num repente, aquela imagem deslumbrante a sorrir.

 

 

 

Atira-se, de súbito, nas águas correntosas do rio e em fortes braçadas alcança, em poucos segundos a outra margem. Inopinadamente surge, sorrindo para Indaíra que, sem explicação alguma para ele sorri também.

 

 

 

 

Parecia-lhes que as aves chilreavam com outros sons, que as flores começavam a ter coloridos mais intensos enquanto, emudecidos, não paravam de se fitar e de sorrir.

 

 

 

 

E foi assim que Avati encontrou a luz de sua vida.

 

 

 

(Continua.)

(Mais um trecho de um livro em andamento.)

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