quarta-feira, junho 23, 2021

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Ainda o meu primeiro dia de internato

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Curiosidade transpirando à flor da pele na espera angustiosa de um recreio que só viria após o jantar

 
 
 
 

 
 

Por que sair de minha pequena e aconchegante vila, deixar minha família, o calor de meu lar, para, ainda criança, jogar-me na aventura de uma vida vivida nas vinte e quatro horas de um dia sob um estranho teto, circunscrita às quatro paredes do internato de um colégio cinzento?

 

 

 

É uma pergunta que me faço muitas vezes. O que me levou a optar por continuar estudando? Querer seguir o caminho dos irmãos mais velhos? Porque uma lembrança muito certa e coerente eu tenho. Não fui empurrada para o colégio. Nunca me obrigaram a seguir aquele caminho. Era o ciclo natural das coisas. Em nossa pequena escola de Marcílio Dias os estudos terminavam, naquela época, apenas no terceiro ao primário.

 

 

 

 

Então lá fui eu para o internato pelas mãos de minha mãe. Que me acompanhou em toda a rotina daquela primeira tarde, daquele meu primeiro dia. Que arrumou com todo o desvelo e carinho o enxoval da menina em seus devidos lugares. Mas, Madre Albertina, a superiora e Irmã Maristella, uma das supervisoras das internas, delicadamente, já foram alertando que quem deveria arrumar suas coisas seria a própria aluna.

 

 

 

E de lá do alto do dormitório voltamos ao ponto inicial, à porta de entrada, ao pequeno saguão de recepção onde minha mãe me abraçou, me beijou, desceu as escadarias de madeira e saiu pela tarde ensolarada, rua afora, rumo à estação ferroviária a fim de tomar o trem que a levaria de volta para Marcílio Dias onde a rotina da azáfama diária a esperava no Restaurante.

 

 

 

 

Foi só quando as portas se fecharam que eu percebi a realidade de um outro mundo a se abrir a minha frente. Voltamos sobre nossos passos. Fomos até a sala de estudos onde algumas guloseimas que minha mãe trouxera para mim foram devida e sumariamente guardadas em um armário especial. E que seriam entregues, pela Mestra responsável pelo internato, nos dias subsequentes, em doses homeopáticas.

 

 

 

 

Não havia em que pensar. Curiosidade transpirando à flor da pele na espera angustiosa de um recreio que só viria após o jantar. Um recreio onde eu iria conhecer as demais meninas que, no decorrer de toda aquela tarde, entrando estavam naquele colégio, através da mesma grande porta, atravessando o mesmo imenso corredor com ladrilhos em xadrez preto e branco e chegando naquela mesma sala de estudos.

 

 

 

Logo bate o sino das cinco horas da tarde. Mas ele não nos chamava para o chá. Chamava-nos para o jantar e em silenciosa (!) fila fomos rumo ao refeitório, passando antes pela aconchegante capela para a oração da Ave-Maria.

 

 

 

Ao jantar, a primeira e difícil surpresa. Necessário era comer tudo. Em silêncio ainda. Não era permitido deixar uma migalha sequer no prato. E o aroma e sabor em nada se pareciam com aqueles com os quais eu estava acostumada há dez anos já.

 

 

 

Findo o jantar, rumo ao pátio e à algazarra generalizada. Era chegada a hora do grande recreio. Jogos na cancha de esportes, na cancha de voleibol, peteca e o que mais se conseguisse inventar. Mas, o mais importante foi o esperado papo com as novas colegas e novas amigas.

 

 

 

Às sete horas da noite o sino nos convida para o recolhimento e para o grande silêncio grave. Primeiro seguimos todas para a sala de estudos, onde, nessa primeira noite a própria superiora, Madre Albertina, fez a sua primeira preleção às internas, praticamente delineando todo um regimento do internato, que, à risca, deveria ser seguido.

 

 

 

 

E depois ainda um boa noite às Irmãs que ali estavam seguido do sagrado pedido de “à bênção”, com todo o ritual do beija-mão e em verdadeira procissão silenciosa subimos as escadas rumo ao nosso cantinho no dormitório das pequenas para aquela primeira noite e primeiros sonhos no internato do Instituto de Educação “Sagrado Coração de Jesus” de Canoinhas.

 

 

 

 

*Publicado originalmente em 2014 e relembrado agora por ocasião dos 100 anos do Colégio Sagrado Coração de Jesus

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