terça-feira, 26

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outubro

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2021

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Variações em torno de um poema

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Parecia a todos que ela vivia feliz

As variações

Quem a via pelos salões e pelas praças, sempre rodeada de amigos, jamais entenderia as crises alucinatórias que vergastavam o íntimo mais íntimo de sua alma.

Tinha todos os predicados possíveis que lhe confeririam uma vida feliz. Um rosto esculpido pelos anjos com olhos negros faiscantes como negras são as noites sem lua. Um rosto emoldurado por longos cabelos escuros que em cascatas onduladas caiam pelos ombros. Ao andar balançava suas curvas como se fosse bailarina de balé.

Vivia com seus pais em uma casa muito grande em meio a um verdejante parque coalhado de árvores e flores. Nada lhe faltava. Um séquito de criados que de tudo cuidavam em todas as horas do dia.

Reunia amigos em festas de fim de semana que terminavam só depois que o sol brilhava bem acima da linha do horizonte. Parecia a todos que ela vivia feliz. Parecia a todos que tinha uma principesca vida. Apenas parecia. Sendo muito inteligente e culta, tentava, de todas as formas esconder ao mundo que a rodeava as angústias que corroíam sua alma. Tinha medo de se envolver com um amor. Porque sabia que de dentro de seu íntimo tudo poderia ir pelos ares naqueles ínfimos segundos em que os demônios aflorassem.

Jamais se descuidara dos estudos. Não era muito afeita aos negócios da família. Mas, por um instinto de segurança tudo aprendera sobre as empresas que já tinham sido de seus bisavós.

Chegou o triste dia em que ficou só. O jatinho em que viajavam seus pais enfrentou uma súbita tempestade e chocou-se contra as montanhas na Serra do Mar.

A velha ama, sua fiel escudeira desde que viera ao mundo continuava a olhar por ela em todos os segundos. Percebia logo as mutações que em seu cérebro ocorriam. E antes que a explosão viesse tratava de levá-la para os seus aposentos e, da maneira mais sútil continuava a atender os convidados de suas festas.

  Chegou o dia, no entanto, em que ela deveria enfrentar a vida a sós. Ninguém jamais substituiria as únicas três pessoas que a entendiam desde sempre. O coração da velha ama cansou de bater e sorrindo ela foi embora.

Uma solidão rodeada de pessoas. Voltava para casa de tarde, depois das agitadas rondas pelas empresas. Jogava-se em um sofá. A nova governanta tentava incutir-lhe ânimo. Preparavam-lhe o jantar. Sentava-se a mesa e só beliscava. Apenas as taças de vinho pareciam apagar as convulsões que corroíam sua alma.

Havia dias de um sol reluzente em que sorria e esbanjava simpatia por todos os lados. Pedia à governanta que providenciasse músicos, coquetéis e tudo o que fosse necessário para uma grande festa. Acontecia que seus baixos tomavam conta dela num repente. Não foi uma única vez que ela enxotou todos os convidados e amigos. Começava mandá-los embora, a arremessar taças e copos contra as paredes, pratos contra os lustres. No dia seguinte seus altos retornavam e na maior lucidez assumia os seus encargos, sorrindo e adulando a todos.

Em um dia de fulgurante sol —porque de fulgurantes sóis são sempre estes dias— o amor bateu violentamente em seu coração. Ela não conseguia entender aquela paixão. Não conseguia mais passar um só dia sem vê-lo, sem ouvir sua voz. Imaginava que o mundo agora seria outro. Que todas as suas angústias eram apenas a falta de um amor verdadeiro em sua vida.

Tudo parecia flutuar. Flanava pela casa, pelos escritórios, conseguia fazer até o que menos gostava que era administrar as empresas que agora eram suas.

Foram tempos de euforia. As crises estavam sepultadas. Jogou para o espaço a medicação que tomava e as visitas ao psicanalista também. Dentro dela apenas uma voz ela ouvia. A voz do seu amor. Que para ela era o porto mais seguro que encontrara em sua vida. Este amor resumia e englobava todos os tratamentos que desde sempre vinha realizando.

Em um dia sombrio do qual pouco, muito pouco, ela recorda, o seu amor veio lhe dizer que ficaria por algum tempo longe dela. Mas logo que se firmasse viveriam juntos para sempre. Recebera uma irrecusável proposta de emprego. O sonho de sua vida. Ficaram a conversar por longas horas. A governanta deixara tudo organizado sobre a mesa de jantar. Chamou-os. Ao fundo, as músicas que ela mais gostava. Permaneceu sentada no sofá. Muda. Nem tocara na segunda taça do Asti espumante que ele servira. Tentava fazer com que ela o ouvisse. A comida esfriaria. As cores sumiram do rosto dela. Uma lívida estátua ao lado.

Num átimo de segundo o mármore em que tinha se transformado cria vida e a voz gutural que saiu através de suas cordas vocais pareciam trovões a revolver a terra. Sua face retorceu-se de uma forma que ele jamais vira ou pensara ser possível existir.

A governanta acorreu para ver o que estaria acontecendo. Os demais criados também.

Chamaram o médico que a tratara desde a adolescência. A muito custo conseguiram segurá-la e aplicar-lhe injeções sedativas que a acalmaram.

Ele estava horrorizado. Mas não saiu de perto dela. Passou a noite ali. O dia seguinte foi longo. Ela não acordava. Ou não queria mais acordar. Ele precisava providenciar os documentos e a sua mudança de vida. Retornou à noite. Ela não o recebeu. Nem nas noites seguintes. Não queria mais vê-lo. E ele foi atrás de seus sonhos sem ela.

Passaram-se dias. Aos poucos ela aceitou falar com um velho amigo. Que ficara ao lado dela a ouvir as suas lamúrias. Levou-a para as montanhas onde ele tinha uma cabana às margens de um translúcido lago. Aconselhou-a a lá ficar por algum tempo. Em meio aos ciprestes e araucárias. Ouvindo as vozes da mata e o murmurar das águas. E mais nenhum ruído que a viesse perturbar.

Foi então que o seu eu poeta aflorou de vez em sua vida. Chorava todos os dias. Não aceitava seus baixos que destruíam seu mundo. Seus baixos que a fizeram perder o amor que ao longo dos anos estava a procurar pelos espaços e pela terra. Por que não aceitou ir embora com ele? Por que imaginou que ele estaria indo embora para se encontrar com outra mulher? Ele passava os dias trabalhando e as noites com ela. Por que então aquele ciúme sem nexo? Ela sabia que não fora uma cena de ciúme. Ela sabia que o tempo dos altos havia passado e que apenas o fato de se imaginar longe dele fez com que todos os seus demônios aflorassem. Por mais que tentasse não conseguia lembrar como tudo acontecera.

Mirando as águas ora calmas, ora turbulentas, ouvindo o vento a assobiar por entre as árvores e o canto da sabiá que anunciava as estações do ano que ela mais amava, seu espírito vagava feliz.

Os momentos felizes vividos com ele eram, aos poucos, pinçados do fundo do lago das suas reminiscências. O amor transmitira luz à sua vida. Lágrimas vertiam sem cessar quando o brilho da lua cheia inflamava sua memória. A escuridão em que vivera transformou-se no clarear dos crepúsculos. Com os olhos turvos sonhava em rever o horizonte de seu rosto, sentar-se à sombra de seu corpo. Sabia que outros céus e outros olhos poderiam estar à sua espera. Sabia que saciaria sua sede em outras fontes e que adormeceria e fugiria das tormentas de sua alma abrigando-se sob o teto de outras cabeleiras.

Mas ela tinha certeza de que nas noites em que a luminescência de um plenilúnio inflamasse o mais fundo de seu eu ela choraria a imaginar-se no berço dos braços do perdido amor onde tentaria saciar a sede de seus tempos nas águas que brotariam dos molhados olhos dele.

E foi assim que em sua mente este poema vicejou.


O Poema

Guardaste longa,

longamente em tuas mãos

o rosto negro de uma caminheira

como se o clareasses

já há algum crepúsculo.



Dentre as tuas mãos

vi deitar-se o sol

nas baías dos teus olhos.



Quando reverei meu país,

o horizonte puro do teu rosto?



Quando me sentarei de novo à mesa

de teu seio de sombra?



Penumbra é o ninho

das intenções mais doces.



Verei outros céus

e outros olhos…

Beberei na fonte de outras bocas,

sedenta.

Dormirei ao abrigo das tormentas

sob o teto de outras cabeleiras.



Mas toda noite

em que o brilho da lua cheia

me inflamar a memória,

chorarei o país natal dos teus abraços

e a chuva dos teus olhos

sobre a sede dos meus tempos.

*Poema escrito por Isis Maria Baukat em fevereiro/1980