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O presidente que sai reúne as condições de liderar a direita ou outros o farão?

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Walter Marcos Knaesel Birkner*

Coluna publicada originalmente em 2022. Os colunistas estão em férias e retornam em fevereiro

O melhor discurso do presidente Jair Bolsonaro foi o de reconhecimento do resultado nas urnas. Não pela liturgia em si, nem por tudo que foi dito, mas pela sensata leitura de um texto previamente redigido e corrigido, além da bendita concisão. E por mais um detalhe: o anúncio do ressurgimento da direita. A pergunta é: o presidente que sai reúne as condições de liderar esse movimento ou outros o farão?

É interessante reconhecer que, com toda a sua biografia vinculada ao apoio ao regime político de exceção de 1964-84, o presidente não defendeu censura à imprensa, nem às redes sociais – mas ainda precisamos falar sobre elas, diga-se, sobre o seu sistema de esgoto. Também jurou continuar cumprindo a Constituição e não interessa se fez figa, o importante foi o que disse e serve de exemplo aos seus séquitos e a certos juízes.

Referiu-se às manifestações populares de revolta com o resultado, sugerindo que “os nossos métodos não podem ser os da esquerda, que sempre prejudicaram a população (e, noves fora) o direito de ir e vir”. Cá pra nós: balbúrdia não é mais exclusividade da esquerda e o presidente sempre foi um incitador. Se tivesse mantido seu perfil, teria ido às ruas, a gosto de seus fiéis. Pra decepção deles, o incendiário virou bombeiro, graças a Deus.

Bem no fim, importa que o presidente tenha reprovado os métodos agressivos de parte de seus apoiadores nas ruas. Ele sabe bem que, além de tudo, isso não faz bem à economia, nossa galinha dos ovos de ouro. Deveria, da mesma maneira, reprovar parte de seus séquitos nos tubos subterrâneos de dejeções das redes sociais. Mas isso já seria esperar demais de quem flerta com eles, assim como muita gente boa por aí.

Contudo, o que disse de mais útil foi que “a direita surgiu de verdade em nosso País”. Nesse importante aspecto dos valores, Bolsonaro encarnou, e com naturalidade, o espírito do homem comum. Não me refiro aos reacionários, sejam os autoritários, os mentirosos ou os tolos que neles acreditam. Me refiro ao homem e à mulher comuns, com seus valores, preocupações e ambições tradicionais.

Esse grupo é heterogêneo, mas comunga o fato de não se identificar com as preocupações da esquerda, tipo, identitarismo, meio ambiente, universidade pública, pau no capitalismo, pau no Ocidente e por aí. Em geral, preferem um sertanejão a um papo cabeça. Não nutrem ódio, apenas indignação e resiliência. Se preocupam mais com a economia, reprovam de verdade o mau uso do dinheiro público e têm sempre um pé no acelerador e outro no freio.

É verdade que, em nome da moral, às vezes condenam a corrupção, a mentira e a incompetência de um lado e, por influência dos mentirosos, são curiosamente coniventes com o outro lado. Aí, Zé Ramalho, vida de gado: se decidem numa escolha bifurcada entre o ruim e o pior como se inexistissem outras opções. Isso acontece dos dois lados. Bom: mas estou falando de quem votou no presidente e ainda poderia esperar algo dele, porque a vida continua.

A incógnita é se o presidente que sai tem disposição de liderar esse processo. O fato é que hesitou e, com isso, revelou provável inaptidão em fazê-lo. Seu silêncio após o resultado das urnas sinaliza uma personalidade que não sabe perder e que talvez não demonstre a resiliência necessária que se exige na disputa política. Seu carisma entre os conservadores é uma qualidade, mas tem um preço: não desapontar quem dele espera.

O fato é que o presidente perdeu uma oportunidade ímpar de reagir rapidamente e demonstrar autoconfiança e disposição para o trabalho duro e de estrada longa. Poderia ter se comprometido rapidamente em liderar o movimento conservador a partir de 2 de janeiro do ano que vem. Deixou uma brecha que, na política, não leva muitos dias pra ser fechada e já tem gente muito disposta a ocupá-la.

Isso é bom. Com o devido respeito aos seus apoiadores, o presidente cometeu muitos erros de conduta e lhe custaram caro – pra ficar só nele. Pode-se reconhecer-lhe o mérito de canalizar uma reação popular conservadora, não é pouca coisa. Sabe lá, o homem comum, o que dele esperar, mas há desapontamento no ar.

Talvez seu melhor espólio venha a ser o de abrir portas a novas lideranças conservadoras. E, quem sabe, de soslaio, tenha despertado mais juízo em quem vai governar nos próximos anos. Assim como nas recentíssimas eleições do Congresso estadunidense, aqui também surgirão novos nomes. Com perfil técnico, sem o mesmo carisma populista, sem o mesmo barulho, mas dispostos a convencer o eleitorado de que, aliado a capacidade técnica e gerencial, se some a palavra número um do legítimo conservador: moderação.

* Walter Marcos Knaesel Birkner é sociólogo

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