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segunda-feira, 22

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O brilho de um olhar nas pedras junto ao mar

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A família de José escolhera viver nos Açores por força das circunstâncias

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O dia amanhecera deslumbrantemente belo nas praias da ilha encantada. Há meses Francisco e seu amigo José faziam planos para escalar o alto pico de cume nevado que de longe parecia acenar para eles.

O bisavô de Francisco fazia parte de uma das primeiras expedições portuguesas que do Algarve rumara para os Açores. Comandara a freguesia da Prainha do Galeão, na Ilha do Pico.

Francisco era um rapagão corpulento para a idade. Pescava, nadava, corria pelo areal da beira-mar, com um pequeno barril às costas, cheio de peixes frescos que levava cedinho para vender no mercado da praça principal.

A família de José escolhera viver nos Açores por força das circunstâncias. Seus antepassados muito sofreram com as perseguições religiosas ao tempo da Inquisição. Faziam parte dos chamados cristãos-novos, judeus sefarditas convertidos ao cristianismo.

Mal raiara o dia saíram com suas pesadas mochilas às costas. Caminharam por mais de quatro horas até chegarem nas faldas da montanha. Exaustos, acamparam. Encontraram uma fonte de água cristalina onde mataram a sede. Comeram o peixe com farinha preparado na véspera. Depois de descansados e saciados deram início à escalada. Não demorou muito para perceberem que a aventura não se concretizaria. O fustigante e gélido vento da altitude pegou-os desprevenidos. Nem a velha jaqueta surrada haviam levado. À beira-mar o calor do verão não lhes dava ideia do horripilante frio que agora sentiam. Às pressas encetaram a descida. Chegaram no vale quase ao anoitecer. Ainda andaram por mais de uma hora. Perder-se-iam na escuridão se tentassem continuar a caminhada até a vila. Acamparam debaixo de um frondoso cedro.

Na manhã seguinte, ao entrarem na cidade, encontraram um rebuliço danado. Pessoas a correrem em direção ao mar. Carretos carregados com mudanças. O que estaria acontecendo?

Em casa de José tudo estava normal. Todos em seu costumeiro trabalho.

— Ah! Filho — falou o seu Antônio Pereira — o nosso rei resolveu levar a nossa gente para o sul da América. Dizem que precisamos povoar aquele pedaço de terra antes que os espanhóis o façam.

 — Mas pai e o senhor está aqui quieto? Por que não vamos também?

— Meu filho José, não vou deixar o que aqui os meus que já se foram construíram para nós. Aqui é o nosso chão.

— Mas pai, aqui já tem gente demais. Logo não haverá terra para os que como eu ainda são jovens e um dia terão muitos filhos.

Deixou no ar suas últimas palavras e correu ao encontro de Francisco. Entrou em uma casa vazia. Percorreu o longo corredor e, finalmente, encontrou o amigo em seu quarto, nervoso, a arrumar seus poucos pertences.

— Parece-me que estás a preparar-te para uma longa viagem. Estás a sós em casa?

— Pois é, amigo José, não é que meus pais e meus irmãos estiveram na noite de ontem em uma reunião com uns emissários da corte e acreditaram nas balelas que contaram sobre umas terras férteis e um futuro promissor bem ao sul da América. Já arrumaram a mudança e estão a levar tudo para o barco em que este povo louco embarcará para uma viagem rumo ao outro lado do oceano.

— Pelo que percebi irás contra a tua vontade…

— É… a família da Maria Rosa não irá. Como vou viver sem os olhos dela que me fitam com tanta doçura a cada vez que nos encontramos na praça e nas nossas danças e folguedos?

— Ah! Francisco! Quisera eu que meus pais tivessem aceitado esta mudança. Estou louco para ir. Mas até parece que eles estão grudados neste chão. Por isto corri até aqui para ver se toparias fazer esta aventura junto comigo. Porque eu irei. Nem que seja contra a vontade dos meus.

— Pois eu irei contra a minha vontade. Mas não há como ficar sozinho. Se ao menos a família de minha amada fosse. Mas nem na vila eles se encontram. Foram para o casamento de uma prima de Rosinha lá na Vila Madalena. Nem dará tempo de dizer adeus a ela…

José retornou a sua casa. Ensaiou mais de mil palavras para convencer os seus de que partiria no primeiro navio com destino ao sul da América. Mas não tinha coragem. Amuado em um canto sonhava com a viagem. Nada comera depois de chegar em casa. Na hora do almoço nem mexera em seu prato. Precisava conseguir alguns dobrões de prata para levar consigo. Mas onde? Como? Assim repentinamente?

Mas sua mãe— sempre as mães — olhava-o de soslaio e parecia ler o que se passava na mente do garoto. Preparou suas roupas e no saco de viagem colocou várias moedas de prata. No jantar preparou-lhe o prato que ele mais gostava.

— Filho, venha comer o seu jantar de despedida. No barco que levará vocês para longe não encontrará uma comida assim feita com tanto carinho por quem mais lhe ama na vida.

José caiu em prantos ao envolver sua mãe num longo e forte abraço.

 Na semana seguinte pequenas embarcações, repletas de pessoas, deixavam o cais da Freguesia da Prainha do Galeão em direção ao grande navio a vela ancorado ao longe, na barra. Em uma delas um feliz José, sorrindo com lágrimas nos olhos, acenava para o seus que na beira ficaram.

E Francisco, em desespero, quase perde o último bote. Encontrava-se no fim da fila do embarque. Ao longe alguém, a correr, abanava um lenço. Era sua amada Maria Rosa. Correu ao seu encontro. E jogaram-se um nos braços do outro. E um longo beijo, o primeiro beijo deles na vida, selou a despedida.

— Maria Rosa, minha Rosinha, espere por mim. Voltarei rico para buscar-te.

— Francisco, meu amor… Tenho uma surpresa para você. Minha família também irá para o sul da América. Talvez no próximo navio. Talvez no próximo mês. Dizem que vamos para uma tal de ilha encantada. Para a vila de Nossa Senhora do Desterro.

O jovem, a nado, feliz, alcançou o pequeno bote que o levou ao navio.

Quase dois meses de viagem através de um proceloso mar. José trabalhava arduamente ao lado dos marinheiros. Com seu corpo franzino fazia malabarismos nos mastros a enrolar e desenrolar as velas. Ao desembarcar ao norte da ilha que fora batizada de Santa Catarina apresentava já um físico de atleta com face e braços amorenados. Nem só de procelas e tormentas foram aqueles dias. Fases de calmaria com sol abrasador também fizeram com que a viagem durasse mais que o previsto.

A família de Francisco, que sempre lidara com um variado comércio, instalou-se de imediato no norte da ilha com um bem montado armazém.

José, no início, vivia do trabalho junto aos pescadores. Perambulava por toda a ilha. Um dia encontrou um oleiro a amassar um barro especial que colocava sobre uma armação de madeira para formar os retangulares tijolos que secavam ao sol. Aprendeu de imediato o ofício de oleiro. Logo montou sua própria olaria. Mas… algo faltava em sua vida. Olhava para as moças ao redor e não encontrava olhos brilhantes que lhe tocassem o coração.

Certo dia tomou uma canoa e remou em direção ao continente. Desembarcou em uma praia muito especial com grandes pedras em meio ao mar e as areias. Nelas as ondas batiam sem parar. Miríades de arcos-íris revezavam-se sem cessar. Tão embevecido se encontrava que nem notou a chegada de uma porção de gente. Ao levantar o olhar encontrou os olhos mais lindos de quantos na vida já vira. Seu coração disparou e um frenesi dele tomou conta. Ela tinha a tez acobreada. De penas e plumas coloridas era o seu traje. Penas e plumas adornavam sua cabeça. E o sorriso dela? Sorriso de rosto inteiro. Puro magnetismo. Foi então que o homem que estava ao lado dela e que parecia ser o chefe do grupo dirigiu-se a José.

— O moço aqui parece gostar da nossa Itaguaçu! — Falou apontando para as pedras espalhadas pela praia e pelo mar.

— Não só pelas pedras, senhor…

—Já percebi, moço! Eu sou o chefe, o cacique desta gente que vive por aqui e pai desta jovem que está sorrindo pra vosmicê.

Desde então José passou a viver no continente. Na praia das pedras junto ao mar. E ali continuou a fazer seus tijolos de barro. Construiu sua casa de adobe. Aprendeu a viver com as coisas que a natureza oferece e passou a vida embevecido a olhar para os negros olhos da índia que fizera seu coração sair do eixo.

Passados trinta dias de sua chegada ao norte da ilha de Santa Catarina Francisco ia até o cais e ficava a olhar para o horizonte. Muitos barcos a vela ele avistava ao longe. Mas em nenhum deles Maria Rosa se encontrava. Passavam-se os meses e ele continuava em sua solitária vigia. Até que um dia uma carta dela chegou às suas mãos. O navio aportara em Santos. Ficara ao largo, em quarentena porque havia pessoas com doença contagiosa a bordo. Depois seus pais resolveram estabelecer-se por lá mesmo.

Francisco não teve dúvidas. Juntou suas economias e em um belo dia desembarcou em Santos. Já comprara a passagem de volta para duas pessoas. E com sua amada a seu lado para a ilha encantada retornou.

**Este texto encontra-se inserido na Coletânea Internacional “Dos Açores à Santa Catarina” da Associação das Jornalistas e Escritoras do Brasil – Coordenadoria de Santa Catarina — ALEBSC, em comemoração ao 275º aniversário da chegada dos Açorianos em Santa Catarina.

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