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Na enchente de 1913

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No decorrer de todo aquele tumulto nasceu um guri de escorridos cabelos escuros e olhos da cor de um límpido céu

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Nos tempos da grande enchente de mil e novecentos e treze que assolou toda a região do planalto norte de Santa Catarina Mariazinha vivia com sua família em um terreno a pouca distância do rio Negro.

Era uma linda garota de tez amorenada e esverdeados olhos. Um verde aguado, herança de um castelhano que nas terras de São Pedro do Rio Grande enamorara-se de sua bisavó índia.

Fora daquelas bandas do sul do continente que os antepassados de Mariazinha tinham vindo em busca de outra vida.

Chegaram felizes e da terra fértil do vale fizeram sua morada, semearam a boa semente trazida nos alforjes que suas mulas, molengamente, transportaram no decorrer de toda aquela longa travessia através de serras, sertões e rios desde o distante sul mais sul do país.

Com um pequeno arado puxado por uma junta de bois que trouxeram consigo lavraram um pequeno trecho.

Derrubaram algumas árvores e com seus finos troncos construíram o rancho que serviu de moradia e outros para albergar os seus animais, suas sementes, e, no futuro, o produto de sua lavoura.

A poucos metros do rancho um pequeno quintal de onde logo colheram as hortaliças e as verduras para seu sustento.

Não demorou para que as espigas de milho tingissem de dourado o verde ao redor. E que o feijão lhes desse o sustento necessário para enfrentar a dureza de sua labuta e o intenso frio.

Para a distante vila levavam em seu carroção carregado com quase tudo o que produziam. Lá adquiriam o pouco de que precisavam para viver.

Um amigo do pai de Mariazinha, seu Maneco, morador de um sítio vizinho convidou-os para uma festa de São João que seria realizada na casa de outro sitiante, não muito longe dali.

Seu Lupicínio não era dono de um pequeno sítio. mas de uma gleba já de bom tamanho. Para pagar promessas feitas num passado não muito distante em todos os anos, na noite dedicada a São João Batista realizava uma festa muito especial.

Uma enorme fogueira, feita com troncos das araucárias, os tradicionais foguetes que iluminavam os céus das frias e azuladas noites de junho, as iguarias preparadas com requinte para agradar todos os paladares, o churrasco, a forte aguardente para alegrar os convivas e o que jamais poderia faltar, a limonada para as mulheres.

E enquanto tudo era preparado cuias de chimarrão corriam de mão em mão.

Seu Ananias, o pai de Mariazinha ficou em dúvida, pois não tinham trajes adequados para uma festa tão especial e, ainda mais, no sítio de uma pessoa tão abastada.

Dada a insistência do vizinho ficou de pensar e falar com a esposa e os filhos. Mariazinha ficou eufórica. Enfim poderia usar sua bela saia de chita vermelha pintalgada de florezinhas de todas as cores.  E a blusa branca, de mangas bufantes e rendadas com preto cadarço que corria desde a cintura até a parte superior do busto. Ela mesmo o costurara. A saia carregada de pregas e babados quase a arrastar pelo chão deixava à mostra apenas uma pequena botinha preta.

Dona Eudóxia, Mariazinha e seus irmãos estavam entusiasmados com a ideia de, finalmente, deixarem pás e cortadeiras, enxadas e ancinhos de lado.

Enfeitaram-se e enfeitaram o carroção e os cavalos e na noite da véspera de São João partiram para a grande festa no sítio de seu Lupicínio.

Não havia anoitecido de todo ainda quando, de longe, já se avistavam o clarão da estonteante fogueira e os raios de luz emanados pelos barulhentos foguetes.

Mariazinha, embevecida com o que via e com o que ouvia, não reparou no moço loiro que, ao lado do anfitrião, veio recebê-los.

O rapaz não saía do lado dela. Até que, de um modo meio desajeitado, chegou a seu lado e em um português meio estranho, cheio de erres, convidou-a para dançar. Mas os passos dele nada tinham a ver com a música e o ritmo que os gaiteiros e violeiros tocavam. Mariazinha aprendera desde cedo as danças campeiras e passou a ensinar-lhe os passos da quadrilha, do bugio, da chula, da mazurca e da chimarrita.

Os passos eram rápidos e, mesmo, com todo aquele frio, já estavam a suar. Foi então que o moço loiro convidou-a para olharem a fogueira mais de perto. Sentaram-se sobre pelegos ali estendidos. O rapaz disse-lhe que se chamava Robert e que todos o conheciam por Bob e que trabalhava em uma empresa madeireira americana que ficava ao lado da vila mais próxima.

Em seu português meio arrevesado foi contando de sua vida para ela. E ela em seu português campeiro contou sua história. Nunca se aproximara de homem algum, pois era vigiada dia e noite por seus seis troncudos irmãos e seu pai.

A noite estava linda. Com um luar de tirar o fôlego. Com minúsculas brasas a colorir o céu em desenhos paralisantes.

Passaram mais de uma hora conversar sobre o diverso mundo em que até então viviam.

Bob, embevecido com o mundo que o rodeava, aquelas melodias ao longe, a cristalina voz da rapariga a seu lado, toma as mãos dela entre as suas e emocionado beija-as.

Ao tentar passar as mãos em suas negras madeixas e beijá-las ouve, bem a seu lado, um pigarro inconfundível. Era seu chefe a adverti-lo que era hora de irem embora.

O susto dos dois jovens foi indescritível. E Bob teve que obedecer.

Na semana seguinte Mariazinha estava a lavar a roupa no tanque, ao lado da casa, quando ouviu o tropel de um cavalo vindo em direção a ela. Dele apeou um sorridente Bob que a abraçou com ternura, cheio de saudade e lhe entregou uma rosa vermelha em botão. Mariazinha derramava lágrimas de emoção no ombro dele.

Desde aquela noite em que ela o conhecera não parara mais de nele pensar. Estava apaixonada.

E o moço loiro passou a visitar o sítio dos gaúchos em todos os domingos. A família o recebia educadamente, mas com reservas.

Em uma tarde em que o seu Ananias precisou ir até a vila, dona Eudóxia envolvida com sua horta e os manos de Mariazinha em distante local envolvidos em derrubar mais árvores a fim de aumentar os ranchos aparecem, de súbito, Bob e seu cavalo.

O saudoso abraço foi longo e o beijo que se seguiu selou um amor há tanto tempo encoberto em meio à solenidade das visitas.

Levou-a consigo até uma sanga não tão longe da casa. Sentaram-se à beira da água que cantava a seu lado em meio aos seixos rolados.

Dominados pela paixão não perceberam o sol já no poente.

As visitas de Bob ao sítio de seu Ananias tornavam-se agora quase diárias. Queria casar de imediato com Mariazinha. Seu Ananias e os irmãos foram contra. Mesmo Bob afirmando que jamais retornaria à sua terra natal a não ser para rever os seus. E junto com Mariazinha e o filho que logo nasceria.

Foi nesta hora que um jagunço contratado pela famigerada serraria chegou ao rancho da família de Ananias e ordena a Bob, com a mão no gatilho de um rifle, que de lá se retirasse imediatamente. Ordens do patrão, pois o rapaz louro já estava comprometido, desde o nascimento, a casar-se com a filha do magnata proprietário de um aglomerado de madeireiras.

            Cabisbaixo Bob, de um salto, montou em seu cavalo e seguiu em direção aos escritórios da companhia.

Mostraram-lhe uma passagem, só de ida, em navio que partiria do porto de Santos dentro de quinze dias. Disseram-lhe que a companhia não toleraria aquele romance escabroso com a filha de um caboclo. E daquele momento em diante não era mais funcionário da empresa madeireira.

Acuado, Bob partiu. E deixou Mariazinha em prantos, mas firmemente decidida a continuar com a vida que vicejava em seu ventre, apesar de todas as ameaças tanto de seu pai e de seus irmãos, como da chefia da madeireira para que ela fosse submetida a um processo cirúrgico para expulsar de seu ventre aquele serzinho gerado com tanto amor.

O médico da madeireira recusou-se a realizar o ignominioso procedimento. Não demoraria muito para Mariazinha dar à luz.

Foi nesse tempo em que se esperava a criança nascer que um bando de jagunços a serviço da grande serraria apareceu, em madrugada nevoenta, no sítio de Ananias. E fizeram aquilo que estavam treinados a fazer. Expulsaram a família. Incendiaram tudo. Mataram os animais. Ananias e os filhos até tentaram falar algo, a defender seu patrimônio. Nada adiantou. Foram degolados. No decorrer de todo aquele tumulto nasceu um guri de escorridos cabelos escuros e olhos da cor de um límpido céu querendo conhecer o mundo.

Há mais de um mês chovia torrencialmente em toda a região. As águas não paravam de subir alagando campos e plantações. Quando se olhava do alto de um morro via-se um imenso mar que se alongava até o horizonte distante. A água chegava à distância de uns 20 metros das recentes linhas férreas construídas e quase na porta traseira do rancho de Ananias.

Mariazinha, ao perceber o tumulto no pátio defronte à sua casa, toma seu filho em um dos braços, uma trouxa de panos, um pouco de feijão, carne seca e farinha, joga-se dentro de uma canoa que estava ali, bem pertinho e, com força remou pelo terreno alagado, sob estrondos de trovões e debaixo de um verdadeiro dilúvio até alcançar o leito do rio Negro.

Movida pelo instinto de salvar sua vida e a de seu filho continuou rio acima. Sabia que se remasse ao contrário poderia encontrar seus perseguidores. Ao contrário, subindo o rio tinha certeza de que encontraria algum povoado. Remou então contra a corrente até encontrar a foz de outro rio que no Negro desaguava. Remou avidamente, sem parar durante o dia e ao aproximar-se a noite encostava na margem e procurava alguma choça abandonada para se refugiar.

Um belo dia chega a uma espécie de porto onde havia uma pequena serraria. Seguiu em direção às luzes até que o bote encalhou. Estava quase diante de uma grande porteira e mais além viu a linha do trem e algumas construções com lampiões acesos nas portas.

Ficou amedrontada. Imaginou ter se perdido na escuridão da noite e retornado para perto de seus algozes. Mas algo diferente a fez sair da canoa e dirigiu-se até uma construção de madeira meio parecida com as que os imigrantes italianos levantavam nas terras do sul, segundo relatos de seus avós.

Arriscou ir até lá. Uma bondosa senhora recolheu-a e logo, mesmo antes de lhe perguntar qualquer coisa, ofereceu-lhe um fumegante prato de sopa. Entregou-lhe roupas secas. Nada lhe perguntou. Levou-a depois para um hotel que ficava logo acima do barranco que havia atrás da estação.

Foi assim que Mariazinha e seu filhinho Bob chegaram à Colônia São Bernardo, na estação então conhecida pelo nome de Canoinhas.

Foi assim que Mariazinha conheceu a bondade de uma senhora italiana chamada Thereza, dona do restaurante da estação ferroviária.

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