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Mais um pouco sobre a grande enchente de 1983

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Tragédias domésticas em meio às trágicas inundações

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Sucediam-se dias e dias a cada vez mais cinzentos, a cada vez mais acabrunhantes na fatídica enchente que não nos sai da memória, a enchente de 1983.

Imagens retornam com ímpeto a cada nova inundação que ocorre em nosso entorno.

Parecia-nos que as pessoas se encontravam no ponto máximo de ebulição. Ou por perderem o pouco que possuíam. Ou por julgarem que os voluntários ali se encontravam a fim de servi-los dia e noite, a qualquer hora, provendo-os não apenas das necessidades básicas, mas que lhes dessem todas as atenções que nunca haviam recebido na vida.

Em certa manhã de domingo — após haver atendido inúmeros pacientes em nosso improvisado Posto de Saúde instalado no Grupo Escolar Manoel da Silva Quadros, em Marcílio Dias — ousei, uma vez mais, vislumbrar o horizonte além lá do alto.

Aquele mar não me sai da memória. Ele ia além do que a nossa vista alcançava. Esparsas copas de araucárias eram ilhas em meio à imensidão das águas.

Fotos de Edson Meister cedidas por Zélia Meister para o blog Canoinhas Imagens

Estava eu a conversar com uma senhora que morava defronte ao Grupo Escolar — e que vinha dando de tudo de si para contribuir com uma vida melhor para aquele povo que muito perdera — quando fomos surpreendidas com um vozeirão descomunal que, em tom ameaçador, exigia um urgente atendimento para sua esposa. Arrogantemente afirmava que já estava ali há mais de meia hora e ninguém sequer perguntara o que eles queriam.

Eram tantas as pessoas a circular por ali entre os que no Grupo Escolar se encontravam alojados, voluntários e mesmo curiosos. Impossível adivinhar os motivos de alguém que acabava de subir a escadaria frontal.

Atendi a pobre senhora. A sós no consultório desatou a chorar. Não poderia sanar seu problema. Não eram dores físicas. As águas não haviam chegado em sua casa. Nada perdera naqueles dias. Há anos perdera a vontade de viver. Era a escrava que deveria obedecer a seu dono, o carrasco que lá fora, verbalmente, nos agredira. Não havia como separar-se do verdugo. Como criaria seus cinco filhos e mais o que já se encontrava a caminho? E nem um diazepínico eu poderia lhe dar. Palavras vãs, esperanças de um mundo melhor? Como? Ela não se iludia. Já se encontrava calejada. Corpo e alma.

Tragédias domésticas em meio às trágicas inundações.

Foto de Edson Meister cedidas por Zélia Meister para o blog Canoinhas Imagens

A ponte de ferro, sobre o rio Canoinhas — inaugurada em 1913 e por onde inúmeros comboios ferroviários haviam passado— encontrava-se lá, imponente e solitária desde a desativação dos trens.

Naquele ano seus dormentes ainda se encontravam em bom estado. Não se viam marcas de ferrugem em seu arcabouço. E foi por ela que trabalhadores puderam circular. Tornara-se o ponto de ligação entre os municípios de Três Barras e Canoinhas.

Meu irmão mais novo, Amaury, era o comandante do Batalhão de Bombeiros do Paraná. Em missão deslocava-se de helicóptero para União da Vitória. Fizeram um pouso em Três Barras. Só conseguiu falar com mamãe alguns minutos, por telefone. Estávamos a menos de 5 quilômetros de distância em linha reta. Mas era impossível sua vinda até a nossa casa. Deveria de imediato partir no cumprimento de seu dever.

Aconteceu que num daqueles dias um grande helicóptero pousou bem ao lado do armazém da estrada de ferro. Armazém que hoje abriga o Centro de Eventos do Complexo Turístico e Cultural de Marcílio Dias.

Foto de Edson Meister cedidas por Zélia Meister para o blog Canoinhas Imagens

Um helicóptero abarrotado de mantimentos de toda espécie, de roupas, de utensílios de cozinha e de medicamentos.

Nosso amigo Arnaldo Mews e mais outros abnegados voluntários para lá acorreram com um caminhão e logo fizeram a baldeação de toda aquela mercadoria para o Grupo Escolar. Tínhamos agora com o que alimentar, vestir e abrigar a todos os desabrigados locais e outros mais.

A notícia não tardou a chegar ao centro municipal das operações. Fomos obrigados a entregar o conteúdo transportado pelo helicóptero para ser distribuído pela chefia. E só então um caminhão traria de volta o que à nossa vila fosse destinado.

Quando as águas baixaram um pouco, retornei às minhas atividades no hospital.

Foto de Edson Meister cedidas por Zélia Meister para o blog Canoinhas Imagens

E foi então que histórias e mais histórias chegavam aos nossos ouvidos.

O rio Canoinhas extrapolara para muito além de suas margens. Não mais se viam as balaustradas laterais da ponte sobre o rio Canoinhas situada na BR 280 e que faz a divisa entre o nosso município e Três Barras.

O Exército entrara em ação e construíra uma ponte de madeira de grande extensão ligando as margens secas da rodovia. Guardas localizados em pontos estratégicos orientavam os motoristas. Apenas pequenos veículos, sem carga, poderiam passar.

Mas sempre existem os que sabem mais que os melhores engenheiros. Um grande caminhão era visto a avançar em grande velocidade. O guarda dirigiu-se ao meio da pista fazendo sinal para parar. Até parou. Ouviu os conselhos. Pensava-se que estaria dando ré para, em local oportuno, realizar o contorno e retornar até a BR 116. Pensava-se.

O que o ilustre caminhoneiro fez foi dar a ré até um ponto adequado, engatar uma marcha forte e em alta velocidade imaginara chegar ao outro lado burlando o guarda.

Peso vezes velocidade resultaram em um grande caminhão a destruir a improvisada ponte e afundar com suas toneladas de carga.

E existem também os que nem se sabe do que vivem, pois que ao trabalho nunca foram chegados. Encontravam-se na vida que pediram a Deus. Não precisavam suar para receberem o sagrado pão de todos os dias e o agasalho que os aquecesse naquele inverno. E ainda tinham um bom colchão onde esticar o corpo.

— Que continuem as chuvas, pois…

Foto de Edson Meister cedidas por Zélia Meister para o blog Canoinhas Imagens

E, dizia-se, conheciam as mandingas e as rezas para pedir aos santos da chuva para que as águas não cessassem de cair. Uma delas era colocar a imagem do santo amarrado e de cabeça para baixo em um pote com água.

Certo dia o governador dignou-se a vir para Canoinhas. Para ver de perto a situação. Esperanças de verbas destinadas a reconstruir o que destruído fora.

Grande reunião na sede central do Canoinhas Tênis Clube. Presentes prefeitos de várias cidades deste nosso inundado Planalto Norte, presidentes de associações de classe e de algumas entidades beneficentes.

Foi então que soubemos da imensidão da tragédia que atingira o município de Rio Negrinho. Lá se encontrava o seu prefeito. Que havia perdido sua casa e tudo o que nela havia. Era também um desabrigado e afirmou-nos estar trajado com uma roupa doada.

Como seria normal, o presidente do Hospital Santa Cruz também ocupou o microfone para solicitar ajuda governamental.

Entre meias-palavras e evasivas ouviu-se que Três Barras havia levantado um hospital em uma semana e que o Santa Cruz nem em um ano dera conta de construir uma ala.

O exército construíra, em caráter emergencial, um hospital de campanha no município vizinho. 

E o Hospital Santa Cruz carregara nas costas todo o volume de pessoas acometidas pelas mais variadas doenças que nos acometem em tempos normais e naqueles tristes dias todas as demais advindas em consequência da enchente.

Foi o inverno mórbido mais triste que vi em minha vida.

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