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Lembranças que o tempo pascoal nos traz

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O senhor coelho continua a esconder os ninhos com os ovinhos e derivados no pequeno espaço de meu jardim

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Estamos nos dias em que um roedor de branca plumagem se transforma no emissário encarregado de entregar em quase todos os lares de todos os cantos do mundo uma cestinha recheada com os mais variados chocolates em forma não apenas de ovos como dele também.

Não se consegue fugir desta secular tradição. Ontem corríamos atrás de um presente de Natal. E hoje já estamos na correria para encontrarmos os chocolates que alegrarão os nossos no domingo de Páscoa.

Imagens alternam-se em minha mente ao recordar a azáfama que havia em nossa casa quando são chegados estes dias que antecedem a santa semana.

No tempo em que a Aline, minha irmã mais velha, era criança, as histórias do místico personagem — que nas madrugadas do domingo em que se comemora a ressurreição de Jesus andava pelos jardins a esconder cestinhas de ovos de Páscoa — deveriam ser tão reais que ela chegou a vê-lo, em carne e osso, com suas grandes orelhas, a circular em torno de nossa casa. Pela vida ela jurava tê-lo visto. E eu acreditava em tudo o que ela nos contava. Crianças veem com os olhos de sua pureza.

Não tenho ideia alguma do desenrolar destas atividades em nossa casa quando era bem pequena ainda.  Tudo era feito às escondidas. Certamente, à noite, depois de sermos enfiados sob as cobertas para dormir.

Lembro-me, e bem, do silêncio sepulcral da Sexta-Feira Santa. Não se ouviam os apitos da serraria que ficava entre o rio e a linha férrea. O sino da estação não anunciava a chegada ou a partida dos trens. Ferroviários comunicavam-se por gestos pois nem os silvos das locomotivas se ouviam.

Era o tempo em que apenas os aparelhos de rádio levavam notícias e lazer aos nossos lares. E naquele santo dia apenas se ouviam orquestras sinfônicas apresentando melodias clássicas.

Quando eu era aluna interna no Sagrado Colégio a quinta-feira já era um dia santificado e nem aula tínhamos. Motivo de regozijo intenso pois já na quarta-feira de tarde rumávamos para nossas casas. E então eu não apenas via como até colaborava na pintura das casquinhas de ovos de galinha. E de patas também.

Imagine-se a quantidade de ovos consumida no restaurante da estação no período de um ano. Com todo o cuidado, gemas e claras deles eram retiradas. As cascas eram lavadas e depois de deixadas de borco para secar ficavam armazenadas em grandes latões.

Claro que antes de se iniciar a sua pintura, necessário era lavar tudo de novo. Lá em casa já havia todo um sistema para esta produção pascoal. As casquinhas eram colocadas em longas ripas cravejadas de pregos que eram espalhadas pelas mesas e outros móveis. Depois de limpas e secas passava-se uma camada bem caprichada de tinta a óleo. A parte fácil. A melhor parte. Porque então inventávamos as mais variadas nuances na mistura das cores fundamentais.

Depois que a tinta a óleo secava minha irmã Avany nelas colocava sua arte. Em tinta preta, com um finíssimo pincel desenhava silhuetas de coelhinhos nas mais variadas posições, bailarinas com vestidos rendados a dançar na ponta dos pés, todas as flores imagináveis e mais um sem número de objetos.

O mais triste era ver esta efêmera arte despedaçada ao chão.

O recheio das casquinhas sempre era a consagrada farofa de amendoim torrado com açúcar.

Mas não eram só de casquinhas recheadas com esta deliciosa farofa que enchiam os ninhos que o senhor coelho escondia nos recantos mais esdrúxulos de nosso jardim. Ah! Como aquele jardim era imenso nas manhãs dos domingos pascais de meu tempo de criança.

Também em nossas cestinhas havia um grande ovo e um coelho de chocolate sempre envoltos naquele papel que chamávamos de orinho, um papel aluminizado e colorido. O coelhinho, com fitas no pescoço e o ovo com elas em seu entorno. E mais alguns ovinhos e uma barra de chocolate.

Papel crepom em tons róseos, vermelhos e azuis devidamente trabalhados a fim de formar um turbilhão de laços em torno de uma grossa tira de papelão foram as primeiras cestinhas de Páscoa de meu tempo de criança. Mais tarde vieram as de vime tendo por base uma fina lâmina de madeira. E sempre com aquelas tirinhas finíssimas de papel de seda a formar um verdadeiro ninho.

No dia subsequente ao domingo pascoal tem início a chamada Oitava da Páscoa. E não havia aula no Sagrado Colégio. Era sempre uma segunda-feira em que eu faltei, religiosamente, em todos os anos em que estudei em Joinville e depois em Curitiba.

O trem era o nosso meio de transporte. Um dia de viagem para vir e outra para voltar. O tempo de folga em casa era curto, muito curto. Como não participar dos sagrados almoços pascais em família? O comboio de passageiros deixava a nossa vila — caso não atrasasse — às dez horas e quarenta minutos. E voltava para o local onde estudava no primeiro dia da Oitava de Páscoa. Continuava a seguir, claro, os preceitos litúrgicos ensinados em nosso Sagrado Colégio.

Os tempos mudaram. Já não se consegue mais fazer o almoço pascoal com toda a família em pleno domingo. Mesmo as distâncias sendo as mesmas o tempo de viagem resume-se a menos de um terço do que era no tempo dos trens. Mas todos precisam voltar a seus lares para já na segunda-feira retornarem aos locais de trabalho.

Tornou-se tradicional a ceia do sábado de Aleluia em que se reúne a família a fim de se comemorar a ressurreição de Jesus. O senhor coelho continua a esconder os ninhos com os ovinhos e derivados no pequeno espaço de meu jardim. Mas ele sempre consegue encontrar locais inimagináveis pelo comum dos mortais. Há ocasiões em que a ninhada passa o dia nas covas mais insuspeitadas.

O bom e o belo em tudo isto é a reunião de nossa grande família que a cada ano cresce mais com a vinda de novos rebentos para alegrar a vida.

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