sexta-feira, 17

de

setembro

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2021

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Um amor impossível na cidade azul

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Havia tempo de sobra para um giro estrada afora a fim de sentir o vento, ainda tépido, de uma noite de fim de verão na cidade azul

 

Era um entardecer de fim de verão na cidade azul. Cidade que já tinha tantos nomes para designá-la. Mas Beatriz gostava de chamá-la de Cidade Azul. Influência dos versos da poetisa Helena Kolody que se ufanava daqueles estonteantes céus que faziam brilhar até as calçadas enegrecidas.

 

Beatriz estava já quase no final de seu curso de Direito. Ser uma grande defensora das causas trabalhistas era o seu sonho. Viera de uma cidade do interior. De uma família de poucas posses. Conseguira um emprego como redatora em um dos jornais diários que circulavam na capital das araucárias. Corria o dia inteiro. Pouco tempo tinha para as suas refeições que na maior parte das vezes resumia-se a um sanduíche frio com um café minguado entre as suas andanças pela cidade. Tudo era longe e os horários dos ônibus jamais combinavam com os horários de suas aulas, de seus afazeres.

 

 

 

Era uma tarde de verão na cidade azul. Uma grande loja de eletrodomésticos expandia seus negócios e inaugurava, bem no centro, uma nova sede. Que tomava toda uma galeria entre as duas ruas mais importantes.

 

 

A solenidade contava até com a presença do governador e do Arcebispo, além de outras autoridades de escol. O colega de redação de Beatriz, que normalmente cobria estes eventos, estava com problemas de saúde. Pediram que ela fosse lá para que o jornal não perdesse a oportunidade de garantir uma bela página de patrocínio.

 

 

 

Era jovem ainda. Esbelta. Alta. Um lindo rosto e um sorriso encantador. Arrumou-se no salão de seu cabelereiro amigo e lá foi, em cima dos saltos cobrir a solenidade. Enquanto o fotógrafo clicava sem parar a sua Rolleiflex. Beatriz ia anotando as impressões do magnata que era o proprietário e dos demais convidados presentes.

 

 

—Eu também quero ser entrevistado por você! —Uma voz que já conhecia há muito soou às suas costas.

 

Virou-se e encontrou um sorridente amigo a lhe oferecer uma gelada taça de manhattan. A cada passo que ela dava para conversar com mais alguém aquela sombra a seu lado.

 

 

Terminou o seu drinque. Largou a taça na bandeja do garçom. Despedia-se do empresário e estava já tomando o caminho da rua quando sente alguém tocando seu braço. Era ele. Queria levá-la para casa.

 

 

—Obrigada, não se preocupe. Eu moro tão pertinho daqui que indo a pé levarei menos tempo.

 

—Sei que você adora carro esporte. Você até comentou que algum dia ainda teria um igual àquele da heroína de “Bonjour Tristesse”, o famoso livro de Françoise Sagan.

 

 

 

—Ah! Sim! o Jaguar. Creio que prateado!

 

 

 

—Pois então! Chegou a hora de experimentá-lo. Estou com ele estacionado ali na esquina. Vamos?

 

 

Era cedo ainda. Havia tempo de sobra para um giro estrada afora a fim de sentir o vento, ainda tépido, de uma noite de fim de verão na cidade azul.

 

 

 

Sorrindo e relembrando os tempos em que se conheceram, tomaram a estrada que levava até as margens de um rio Iguaçu ainda em seu minguado espernear, alguns quilômetros apenas de sua nascente. Pararam na entrada de um restaurante que servia refeições no carro. Não, ela não estava com fome. Já beliscara vários canapés na recepção. Ele pediu um uísque com gelo para ambos. Que veio em bela bandeja com amendoins para acompanhar. De dentro do restaurante vinha uma música suave. Gostosa de se ouvir. Mas as horas corriam e ela precisava ir embora. Nunca perdera a hora de ir para a aula de manhã. Deixou-a na frente do prédio onde morava.

 

 

 

No dia seguinte quando ela saía, à tardinha, da redação do jornal, lá estava ele à sua espera. Sorriram. E voaram com o jaguar prateado pela estrada afora.

 

 

Ele morava com sua esposa e seus filhos na casa de seus pais. Que já eram bem velhinhos.

 

 

 

Tinham sido professores dela na faculdade. E naquela casa por algum tempo ela morou.

 

 

Foi num dia de inverno chuvoso. Daquelas garoas finas, frias e chatas que só quem mora no planalto conhece bem. A última aula tinha sido com a famosa professora, exímia mestra do direito criminal. Todos os alunos saíram. Menos Beatriz, que na última carteira deixou-se ficar, com lágrimas nos olhos, cotovelos sobre os joelhos e o rosto entre as mãos.

 

 

 

Parecia que nem se tinha dado conta de que a aula havia findado. A mestra chegou-se até ela. Com todo o carinho de que sua alma era possuída conseguiu desenterrar os problemas da aluna.

 

 

 

Aos poucos Beatriz foi contando suas agruras. Morava em um bairro afastado, na casa de uma velha conhecida de seus pais. Ela pagava a pensão ajudando nos serviços da casa. Há uma semana dona Séphora falecera. Tinha um filho só. Que morava em São Paulo. Que já estava vendendo a casa. E despejou não só a ela mas outras moças que lá moravam também.

 

 

—Será que a senhora não sabe de alguém que tenha um quarto vago em casa e que eu possa pagar a pensão com meu serviço?

 

 

 

A mestra não apenas a levou para a sua casa, como pediu ao filho que fosse buscar os pertences de Beatriz. Foi assim que ela conheceu o sorridente Diógenes.

 

 

A casa era grande. Um dos casarões antigos que por muitos anos ainda se viam pelas ruas da cidade azul. A parte superior, por onde se chegava através de uma escada semicircular, comportava seis quartos de dormir além das salas de visitas, de estar, de jantar, cozinha, despensa e banheiros.

 

 

A parte inferior não era bem um porão. Apenas três degraus abaixo do nível da rua. Era o local do grande escritório onde o casal de professores advogados, por décadas, exercera a sua profissão. Uma biblioteca vastíssima. Alguns quartos, banheiros, a grande área de serviço. Que naquele tempo ainda era composta de vários tanques. Não havia ainda máquinas de lavar e secar.

 

 

 

E foi em um daqueles quartos que Beatriz foi acomodada. Ela estava encantada. Tinha a seu dispor aqueles livros todos para estudar e para ler. Uma bela escrivaninha para escrever. Confortáveis poltronas para se esbaldar. Jamais sonhara com um paraíso assim.
Diógenes era advogado. Como seus pais. Montou um escritório moderno em um novo edifício em uma rua não muito distante. E era dono também de uma empresa de lubrificantes automotivos que faziam muito sucesso. Com tantos afazeres ele pouco parava em casa. Estava sempre presente com a família no horário do almoço. Levava os filhos ao colégio. E só voltava ao lar de madrugada. Entrava pela porta do escritório. Encontrava Beatriz acomodada na poltrona a estudar. Parecia estar sempre meio alto já com os uísques que dizia ter tomado com os amigos. E com o indicador sobre os lábios fazia o sinal de silêncio para ela e subia para os seus aposentos.

 

 

Quantas vezes a esposa a inquiria para saber a que horas ele teria voltado para casa. Beatriz sempre disfarçou. Dizia ter o sono pesado e que nada ouvia. A velha professora agradecia aquela mentira com seus meigos olhos.

 

 

 

Lembrando a ela todas estas passagens estava ele naquela noite enluarada, de fim de verão na cidade azul, enquanto o jaguar deslizava pela rodovia que levava ao sul.

 

 

Foi num repente, assim, quando as placas sinalizavam o fim do asfalto que Diógenes freou rapidamente, em estratégica manobra, um verdadeiro cavalo de pau.

 

 

Não havia cinto de segurança naqueles idos da década de 50 do século passado e ela caiu sobre seu ombro direito. Foi um átimo. Uma fração de segundo. E ele a envolveu em seus braços. O beijo que os uniu selou o início de um tumultuado amor, de uma estonteante paixão. Foi o instante mágico em que ela entendeu ter enterrado para sempre o grande romance que tinha sido o primeiro de sua vida e que a envolvera por tantos anos já.
Mas esta história teve muitas nuances. Uma verdadeira meada de fios enrodilhados e cheios de nós. Que aos poucos Beatriz me contava.