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Raízes às margens do rio Canoinhas

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Nessa terra Pedro e Thereza criaram raízes. Foi o vínculo emocional por um rincão abençoado

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Em algum dia do ano de 1912, após percorrerem 112 quilômetros, os trilhos chegaram a um ermo local em meio à mata, a então Colônia São Bernardo. Uma incipiente madeireira ali começava a serrar as primeiras toras de imbuia e de pinheiros que eram derrubados em seu entorno.

Em Curitiba, Pedro Gobbi desincumbia-se da triste missão a que se propusera. Vender o sobrado onde, por alguns anos, vivera feliz com seu amor nas labutas diárias de uma trattoria e de sua cantina. Em um dos comboios em que, de maneira ainda irregular, trafegavam pelo trecho em construção, despachou a mobília.

Demoraria algum tempo ainda para que a Brazil Railway do Sindicato Farquhar iniciasse a construção da ferrovia em direção à futura estação de União, uma próspera vila que se desenvolvia em ambas as margens do rio Iguaçu.

A estação localizada na Colônia São Bernardo foi denominada Canoinhas, a sete quilômetros de distância da cidade de Santa Cruz de Canoinhas para onde se chegava por uma íngreme estrada.  

A primeira coisa que Pedro e Thereza fizeram foi construir um hotel. Localizava-se numa elevação logo acima e mais à direita da estação ferroviária. Era um grande edifício de madeira com muitos quartos, um grande salão de refeições e a parte mais importante, a cozinha.

Mas faltava o grande forno para assar os escolhidos lombos e pernis de suínos, galinhas recheadas, pães, cuques e bolos.

Era necessário levantar, com urgência, este precioso auxiliar da cozinha de mamma Thereza. Sendo de madeira o hotel, ele só poderia ser erigido na parte externa.

Onde encontrar tijolos resistentes ao fogo? Olarias apenas em locais distantes. Pedras eram raras na região. Mas, com sua persistência, ela as conseguiu. Com a ajuda de sua filha Nena, montaram um irresistível forno. Feito de pedras. A argamassa era o barro. Durou anos. Mesmo após demolido o hotel, o arcabouço do seu forno lá ainda se encontrava, no meio do vazio, altaneiro como um monumento a relembrar os heroicos feitos das duas desbravadoras.

Embora irregularmente, trens já circulavam pela via férrea. Em primeiro de abril de 1913, foi inaugurada a majestosa e bela ponte de ferro sobre o leito do rio Canoinhas, distante a menos de um quilômetro da estação.

Em quatro de outubro do mesmo ano, quando a estação de Canoinhas foi inaugurada, o Hotel Gobbi já se encontrava pronto e mobiliado para receber os primeiros hóspedes. Os passageiros nele pernoitavam e, no dia seguinte, em tróleis e/ou charretes de aluguel, dirigiam-se para a vila.

Estação de Marcílio Dias/Acervo de Fátima Santos

Os diretores da ferrovia designaram a estação de Canoinhas como um importante ponto de parada dos trens para reabastecimento de lenha, o combustível que movia as locomotivas a vapor, provendo-a também com uma grande caixa de água. Cronometraram o tempo que os comboios de passageiros levariam entre as estações de Mafra e Porto União e decidiram que ali também seria o ponto ideal de parada para as refeições.

Conversaram com Pedro e Thereza, pois seriam eles as pessoas mais indicadas para regerem os serviços do restaurante. Para que se tornassem os concessionários, a construção do prédio deveria ser por conta deles. Desde a planta, o material, a mão de obra e até o mobiliário e tudo o mais que um empreendimento de tal porte necessita para funcionar. Pedro dirigiu-se uma vez mais à Curitiba a fim de encomendar tanto o material como os utensílios para sua montagem.

Desenhou o esboço do prédio como em sua memória gravados estavam os de sua terra natal. Nem poderia pensar nas tradicionais e elegantes edificações erigidas com pedra como há tanto sonhara. Seguiu o estilo arquitetônico dos sobrados italianos. Mas teve de contentar-se com uma construção em madeira.

Mesmo com este material abundando na região, correu por várias serrarias até encontrar um produto resistente às intempéries e com uma rigidez suficiente para durar por várias gerações.

Desenhou a planta baixa e todas as faces da futura obra. Apresentou-a à chefia do tráfego, pois precisava ser aprovada pela rede ferroviária. Enquanto estava envolvido com todos estes preparativos, Thereza e sua filha Nena dedicavam-se ao hotel.

  Os trens não se detinham na estação o tempo suficiente para que os passageiros pudessem deslocar-se até o morro a fim de fazerem uma refeição ligeira.

A fim de atendê-los, levantaram um pequeno quiosque à direita da plataforma, bem ao lado dos vagões. Para lá Thereza se dirigia com suas bacias e terrinas carregadas de pastéis, sanduíches, bolos e cuques. Em um pequeno fogareiro a querosene, deixava o leite e o café em banho-maria para que permanecessem sempre quentinhos.

Com a meticulosidade que era a sua característica, Pedro, com alguns auxiliares, levantou, em madeira de lei, o prédio que abrigaria o restaurante da estação de Canoinhas por toda a sua vida e muitos anos mais.

Pintaram-no com as cores tradicionais das estações de trem. Dois pavimentos com telhado alto e angulado. Pequenas janelas no sótão dando para a via férrea e outra grande ao lado. Nele armazenavam-se as grandes sacas de grãos, do indispensável trigo e dos demais produtos utilizados no dia a dia.  Altas janelas e portas na parte baixa.

Na frente, uma plataforma coberta feita com grossos troncos aplainados, com três largos degraus e que serviam de acesso ao prédio.

Havia um grande salão de refeições e uma espaçosa cozinha. Um fogão a lenha de três metros quadrados, com um forninho e uma pequena caldeira para manter a água sempre aquecida.

Com acesso para a cozinha, mais outra dependência com balcões onde seriam servidos café, leite, sanduíches, bolos, sonhos, pastéis e coxinhas de galinha. Ao lado, o bar com vinhos, aperitivos e cervejas.

Não havia água encanada. Cristalina, límpida e pura ela fluía de uma fonte nos fundos do prédio, vertendo como um moto perpétuo. Era armazenada em um poço totalmente revestido por tijolos vermelhos. Não eram necessárias nem cordas e nem roldana ou qualquer outro acessório para se puxar um recipiente com água. Bastava levar o balde à cristalina superfície e pegá-lo cheio do límpido líquido que era depois colocado em um filtro de barro.

Em um anexo, nos fundos, foi levantado um grande forno onde Thereza se deliciaria com seus assados.

Ao lado, um fogão menor, onde, entre outras coisas, torrava-se o café que depois era moído em um pilão de imbuia maciça.

Durou um longo tempo a construção do prédio. Aos poucos foram adquirindo os indispensáveis móveis e utensílios. Começariam a servir as refeições somente depois que tudo estivesse de acordo com o planejado por Pedro e Thereza.

Quando ficou pronto, foi aquela festa. Amigos italianos vieram de Curitiba. Da vila de Três Barras, funcionários da empresa americana que lá começara a serrar madeiras. Ferroviários de estações vizinhas. Todos queriam ter o supremo deleite de saborear o encantado ravióli preparado por Dona Thereza.

Pedro e seus amigos italianos deleitavam o público quando entoavam famosos trechos das óperas de Verdi, como o Coro dos Ferreiros, de “Il Trovatore”, e Va Pensiero ou Coro dos Escravos Hebreus, de “Nabucco”, além de algumas populares canzonetas italianas.

Além de servirem refeições aos passageiros do trem, em muitas noites a azáfama continuava com jantares para os mais variados grupos de pessoas.

Sempre havia também outros fregueses que aguardavam junto à porta dos fundos com suas latinhas esperando Dona Thereza para lhe desejar boa noite. Eram pessoas esfarrapadas, andarilhos que foram despejados de suas terras pelas hordas de jagunços a serviço do Sindicato Farquhar. Seres quase invisíveis que pareciam mover-se entre os vãos das paredes. Ali chegavam somente após perceberem que o movimento findara. Se acaso nada sobrasse, a sensível Thereza corria ao fogão a fim de preparar ao menos uma panela de sopa para os seus fregueses da porta dos fundos de todas as noites.

Com o restaurante atendendo os passageiros dos trens da manhã e da tarde, e o Hotel Gobbi em pleno funcionamento, foram contratadas várias pessoas da Colônia São Bernardo para ajudar tanto na elaboração das refeições, como no serviço de limpeza.

Todos os prédios do conjunto arquitetônico da então denominada estação Canoinhas, atual Marcílio Dias, tiveram sua construção no decorrer da Guerra dos Fanáticos, hoje conhecida como Guerra do Contestado.

Nessa terra Pedro e Thereza criaram raízes. Foi o vínculo emocional por um rincão abençoado. Foi ali que a sua Neninha conheceu Adolpho com quem se casou. Foi ali que nasceram e cresceram os netos de um casal de italianos que um dia ousou sonhar com uma vida melhor e embarcou no porto de Gênova em um navio que tinha por destino a América.

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