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Herbert Bartz: de “alemão maluco” a herói

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Na condição de protetor dos solos, a saga do pioneiro do plantio direto!

 

 

José Mário Vipievski Júnior*

Jairo Marchesan**

 

A história de Herbert Bartz, guardadas as devidas proporções, nos faz lembrar a alegoria do mito da Caverna da obra de Platão, aquela parábola que aprendemos – principalmente nas aulas de filosofia -, que relata sobre um grupo de pessoas acorrentadas no interior de uma caverna, posicionadas de forma que seus olhares sempre ficassem voltados para uma parede ao fundo. Atrás dessas pessoas havia uma fogueira, a qual projetava sombras na parede para a qual os acorrentados olhavam; para essas pessoas, as sombras eram a única realidade que conheciam. Ocorre, que um dos acorrentados se libertou, saiu da caverna e conseguiu observar que existiam outros objetos, muitas outras condições e possibilidades além das sombras. Então, ele voltou para a caverna propondo novos conhecimentos aos seus companheiros acorrentados, tentando persuadi-los a levantarem-se e deixarem a caverna. Entretanto, as pessoas não acreditavam nele, imaginando-o louco por ter saído, e por isso recusaram-se a qualquer outro tipo de vida que não fosse aquela acorrentada no interior da caverna.

 

 

 

 

Herbert Bartz foi o homem que “levantou-se das correntes” e olhou o mundo “fora da caverna”, e com isso trouxe para o Brasil uma nova técnica de manejo do solo e de plantio agrícola, razão pela qual foi rotulado regionalmente de “alemão maluco”. No entanto, com o tempo, e, gradativamente, com muito esforço e perseverança, foi retirando um a um os agricultores “das correntes”, conduzindo-os “para fora da caverna”. Atualmente é considerado e lembrado como herói na proteção e preservação dos solos agrícolas, principalmente.

 

 

 

 

Herbert Bartz nasceu em 1937, no município de Rio do Sul (SC), seus pais eram de origem alemã e aos 2 anos de idade Bartz mudou-se para a Alemanha, acompanhando sua mãe para um tratamento de saúde. No ano de 1939 o pai de Herbert viajou para a Alemanha com o objetivo de buscar sua família e juntos retornarem ao Brasil. Porém, naquele ano, teve início a Segunda Guerra Mundial, impossibilitando assim o retorno.

 

 

 

A família viveu os horrores da guerra, com escassez de alimentos, remédios e recursos em geral. Eles estavam na cidade de Dresden, quando foi bombardeada em 1945; vivenciaram a dor, o sofrimento e a morte. Para piorar, o pai de Herbert foi convocado para combater junto ao exército alemão, sendo inclusive capturado pelos soviéticos, sendo libertado anos depois. Nesse interim, a mãe e os cinco filhos atravessaram grandes dificuldades, e um dos irmãos de Herbert faleceu.

 

 

 

 

Em 1960, a família consegue retornar ao Brasil, e assim todos passam a residir no município de Rolândia, interior do Estado do Paraná, trabalhando na agricultura que Herbert aprendeu na prática. Extremamente observador e sensível à natureza, percebia os prejuízos causados pela erosão e as várias toneladas de solo que anualmente eram perdidas. No ano de 1971, durante uma tempestade, Bartz saiu à noite com uma capa de chuva e lanterna, para observar os estragos no solo que a intensa chuva causava na lavoura recém-plantada. A imagem das sementes indo embora junto com o solo através dos sulcos escavados pela água foi determinante: algo precisava ser feito.

 

 

 

 

Financiou em dez vezes uma viagem aos Estados Unidos, para encontrar-se com o pesquisador Shirley Philips, da Universidade de Lexington, desenvolvedor de pesquisas sobre o plantio de milho sob palhadas de capim, sem arar, lavrar ou tombar a terra. Bartz viu ali “a luz” que procurava; o procedimento que evitava arar ou “virar a terra” traria vários benefícios ao solo. Manter a palhada da produção agrícola contribuía para evitar a erosão dos solos, gerava fertilidade, mantinha a umidade do mesmo e, além disso, a matéria orgânica acumulada no próprio solo propiciava o surgimento de minhocas e micro-organismos, devolvendo proteção e vida ao solo.

 

 

 

 

Voltou ao Brasil empolgado e disposto a colocar em prática a técnica recém apreendida. Sem equipamentos, nem máquinas, sem apoio político e social, Bartz era uma voz solitária tentando falar para a região e ao Brasil uma “nova linguagem” de uso e proteção aos solos, mas poucos estavam dispostos a ouvi-lo. O estranhamento à nova técnica de plantio sem revolvimento de solo foi tamanho, que a Polícia Federal realizou a apreensão da primeira colheita de soja produzida sobre a palhada; até hoje não se sabe exatamente o porquê.

 

 

 

 

Bartz era convicto em seu propósito de cuidar dos solos, e superando as dificuldades construiu maquinários, buscou parceiros, registrou tudo com fotos e informações, elaborou “slides” para apresentações e proferia palestras sobre a prática do Plantio Direto, ou seja, sem a tradicional técnica de arar ou lavrar a terra. Foi injustamente chamado na região de “alemão maluco”, porém não desistiu de seu objetivo. A sua persistência, beirando a teimosia, começou a render resultados agrícolas positivos quando conseguiu alguns aliados, como os produtores rurais Franke Dijkstra e Manoel Henrique Pereira.

 

 

 

 

Em um debate ocorrido na década de 1980, Bartz tentava demonstrar que era possível descompactar o solo sem a utilização do arado, realizando a rotação de culturas agrícolas, cujas raízes das plantas são o principal fator de descompactação do solo. A resistência era grande, e um dos participantes afirmou que Herbert estava enganado, e isso fez Hertert responder: “Eu sei resolver o problema da compactação quando ela atinge o solo, mas não sei o que fazer quando atinge o cérebro humano”!

 

 

 

 

Posteriormente, os defensores do Plantio Direito conseguiram apoio junto a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), e a Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (EMATER), bem como parcerias de pesquisadores e universidades, e assim o sonho do Plantio Direito tornou-se realidade. Gradativamente, o número de agricultores a fazer uso da nova técnica foi aumentando, e, no ano de 1992, foi fundada a Federação Brasileira de Plantio Direto, resultando da união de Associações e entidades ligadas ao Sistema de Plantio Direto. A referida Federação realiza encontros nacionais sobre o Plantio Direto na palha, consolidando cada vez mais a prática.

 

 

 

 

O Plantio Direto reduziu significativamente a perda de solo, evitou os processos erosivos e o carreamento de materiais para os corpos hídricos, possibilitou a realização de uma segunda safra, pois o plantio realizado imediatamente após a colheita otimiza o tempo, mantém o solo fértil e com poder de absorção de água, requisito primordial para os tempos de escassez de chuvas. Mesmo depois de se tornar uma prática consolidada, Bartz prosseguiu dando aulas e palestras sobre os benefícios do Plantio Direto. Costumava brincar que as coisas se inverteram: agora “o maluco” é aquele agricultor que não faz o Plantio Direto.

 

 

 

No ano de 2018 essa fascinante história foi registrada para a posteridade, com o lançamento do livro O Brasil Possível – A Biografia de Herbert Bartz, escrito por Wilhan Santin. Em 2019 a referida história foi adaptada para um livro infantil, “O Mistério do Ribeirão Vermelho”, que conta, de forma lúdica, a saga do Plantio Direto.

 

 

 

 

O Sistema de Plantio Direto foi a maior conquista dos últimos tempos no que se refere ao manejo de solos, pois reduziu determinados impactos ambientais e aumentou a produtividade, porém, isso não lhe isenta de uma análise crítica. Junto com o Plantio Direto tivemos um aumento significativo do uso de agrotóxicos, sobretudo após o surgimento e utilização dos grãos transgênicos. O uso de agrotóxicos gera consequências negativas ambientais, como a contaminação do meio ambiente, principalmente solo e água, e a existência de plantas que desenvolveram resistências aos agrotóxicos, desencadeando um desequilíbrio ambiental além do impacto negativo à saúde humana e à eliminação da biodiversidade.

 

 

 

 

Isso não significa que o Plantio Direto tenha uma face negativa, pelo contrário, continua sendo de extrema importância, porém, precisa ser consorciado com outras técnicas que possibilitem o controle das chamadas ervas daninhas, sem a dependência exclusiva do uso de agrotóxicos. Produzir através do sistema de Plantio Direto sem o uso de agrotóxicos é um dos desafios tecnológicos da agricultura brasileira. Os conhecimentos produzidos pela agroecologia nos mostram que é possível, ainda que não seja algo simples, em razão da dependência que o atual modelo tem do uso dos agrotóxicos, associada à resistência de muitos produtores e à legislação bastante permissiva quanto ao uso dos mesmos.

 

 

 

 

Em 29 de janeiro de 2021, aos 83 anos, o senhor Herbert Bartz faleceu, deixando um legado de grande importância social, econômica e, principalmente, ambiental, demonstrando que é perfeitamente possível equilibrar as práticas agrícolas com a proteção do solo e das águas. Além disso, deixou um exemplo de perseverança e dedicação. Ele não se deixou abater, mesmo quando estava desacreditado e foi chamado de “maluco”. Ousou sair do senso comum, “levantar-se das correntes e aventurar-se para fora da caverna”, e, com isso, transformou todo um modo de produzir, alavancando o país no cenário do agronegócio.

 

 

 

 

Assim como Bartz superou as resistências e dificuldades de seu tempo, e implementou um novo modelo de plantio, agora é a nossa vez de fazermos o mesmo, superar as resistências, “descompactar” alguns cérebros e produzir através de um Sistema de Plantio Direto Agroecológico. Que seja esse o seu legado: que não deixemos nunca nossos cérebros “compactarem”. Aplausos para Herbert Bartz! O pai do Plantio Direto! Um dos maiores e melhores cuidadores dos solos e das águas!

 

 

 

 

*José Mário Vipievski Júnior é discente do Programa de Mestrado em Desenvolvimento Regional da Universidade do Contestado (UnC). da Universidade do Contestado (UnC)

E-mail: [email protected]

 

**Dr. Jairo Marchesan é docente do Programa de Mestrado e Doutorado em Desenvolvimento Regional e do Programa de Mestrado Profissional em Engenharia Civil, Sanitária e Ambiental da Universidade do Contestado (UnC)

E-mail: [email protected]