sexta-feira, 1

de

julho

de

2022

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Entre a liberdade e o amor

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Em instantes ali estava a própria Iara, a rainha das águas, a deusa das águas, em vestes carnais

Jorge concordou com as palavras do velho índio. O que ele mais queria naquele momento era ter Potira Tainá a seu lado.

Falaram-lhe que seria um cerimonial bem simples.

Emissários em velozes corcéis deslocaram-se até as barrancas do rio Paraná a fim de avisar os outros filhos de Avati e outros membros da tribo que para aquelas bandas haviam migrado. Era importante a presença de todos. Tratava-se do cerimonial das bodas da filha do cacique.

 O algo simples durou vários dias. Só ao final do terceiro dia as flores foram colocadas na cabeça dos noivos.

Finalmente ele pode levá-la para viver em sua casa. Foram dias de puro enlevo para ambos. Mas algo havia para deixar Jorge preocupado. Ela se recusava a cobrir seu corpo como as mulheres brancas. Continuava com as tradicionais tangas e penas que usavam seus antepassados. Não conseguia entender a dificuldade em mudar a forma livre como vivera até então. Mil elucubrações turbilhonavam sua mente. Dentro do casarão só trabalhavam mulheres. Mas… e fora? Empregados de olhares voluptuosos estariam prontos para o ataque caso a vissem. As fainas no sítio exigiam sua presença. Tinha assuntos a resolver na vila.

Certa manhã, ao sair para fora pela porta dos fundos, deparou-se com um indígena que portava em uma as mãos uma lança e na outra um fuzil. Ao perceber o espanto do dono da casa foi logo se explicando.

— Estamos aqui eu e mais um companheiro que se põe de sentinela lá na frente pra proteger a princesa de nossa tribo. Viemos a mando do chefe, cacique Avati. Nós sabemos que ela corre riscos assim sozinha no meio dos brancos. E vosmicê precisa cuidar de sua vida. Não se preocupe seu moço. Nós estamos aqui dia e noite para cuidar dela.

Foi então que Jorge entendeu aqueles pios de ave noturna a intervalos regulares depois que a escuridão tomava conta do mundo. Sorriu e agradeceu. Mais tranquilo foi para a vila.

A esse tempo tratava-se da emancipação da Vila Nova do Príncipe. Jorge considerava-se já um nativo da terra que o acolhera e participava ativamente das negociações. Procuravam um novo nome para a cidade e o município que seria criado. Muitos já conheciam o local como Lapa devido a uma rocha em forma de abrigo, igual a uma gruta localizada nos arredores da vila.  

Certificando-se de que Potira Tainá estaria bem cuidada dirigiu-se feliz para a cidade. A primeira coisa que fez foi comprar tecidos variados e procurar uma costureira. Encomendou logo uma coleção. Roupas para usar em casa, para sair a passear de charrete, para comparecer a eventos sociais, a festas e bailes. E calçados também. Encomendou ao sapateiro amigo botinas pretas, brancas, marrons, de couro brilhante, algumas mais finas outras mais rústicas. Pediu urgência a todos. Ao entardecer voltou para casa já com uma grande caixa de papelão contendo um maravilhoso traje vermelho que a cobriria desde o pescoço até os pés. Com todos os acessórios, como espartilhos, calçolas e longas meias como aconselhara Madame Marie Louise, a conceituada modista francesa que vestia todas as mulheres finas da região. E mais uma linda botina branca com saltinho e fechamento em ilhoses.

Procurou-a pela casa toda e não a encontrou. Também deu por falta dos índios sentinelas. Perguntou à governanta da casa que disse nada saber. Que a moça nem sequer almoçara em casa. Não demorou muito Potira Tainá entra feliz pela porta dos fundos. Seus negros cabelos molhados deixando a água a escorrer pelo corpo quase desnudo. O choque ao vê-la transformou-se em êxtase.

— Fui banhar-me na cachoeira do regato que corre nos fundos do sítio. Eu sempre fiz isto em todos os dias quando estava em minha aldeia. Faz-me falta sentir aquela água a passar pelo meu corpo. Vosmicê também precisa fazer isto. Deixa o mundo mais leve, mais limpo, mais perfumado.

Realmente Jorge percebera a frescura de seu corpo desde a primeira vez em que dela conseguiu se aproximar. Explicou-lhe que banhar-se nos rios era costume dos índios. Poderiam ficar ao lado do fogo e da fumaça, lidar nas plantações de milho e mandioca, procurar a caça nos confins das matas, lidar com o sangue dos animais, mas estavam sempre limpos. A água era parte intrínseca de suas vidas. Mesmo nos dias mais gélidos dos invernos mais rigorosos.

Jorge abraçou-a e levou-a ao quarto. Em enlevos e carícias ali permaneceram por horas. E só então ele lhe deu os presentes que trouxera da cidade.

Ela achou tudo muito lindo. O longo vestido vermelho cheio de rendas e babados fê-la parecer-se uma tenda. Para agradá-lo pediu à governanta que a ajudasse a vesti-lo. Nem ideia fazia da maneira de colocar aquelas armaduras apertadas em seu corpo.

Embevecido Jorge olhava-a enquanto tomavam o café da manhã. Foi o tempo de sair para os seus afazeres e ela logo pedia socorro para a moça que fazia a limpeza dos aposentos e começou a arrancar tudo. Em breve já estava a galopar pelos campos, em pelo, no lombo de seu corcel negro. Passava o dia nas matas. Era tempo de muitas árvores ficarem cobertas de frutos silvestres. E assim ela passava as horas do dia. Muitas vezes voltava para casa com vários pássaros ou mesmo outros animais que abatera com suas flechas certeiras. Mas na hora em que Jorge retornava ela já se encontrava pronta para recebê-lo com as roupas que tanto odiava. Ao mesmo tempo achava delicioso o ritual de sentir as suas mãos a despi-la.

Certa manhã, logo que Jorge saiu em direção à cidade, Potira Tainá desvencilhou-se uma vez mais de suas pomposas vestes, montou em seu cavalo e em alta velocidade dirigiu-se até a sua taba. Procurou pelas velhas índias para quem, desde pequena, contava todas as suas mazelas físicas e emocionais.

— Mas isto a menina precisa contar para sua mãe — afirmou uma das anciãs.

— Mas são vocês que precisam encontrar um jeito de fazer o meu sangue voltar a sair todas as luas de dentro de mim. Não aguento mais estas agruras. Ele quer que eu coma todas aquelas coisas que eles comem de manhã e minhas entranhas não aguentam. Logo que ele sai eu tenho que botar tudo pra fora de vez. E não passo bem o dia todo.

— Tudo isto que minha filha sente é um curuminzinho de cabelos cor de fogo que logo vai chegar para alegrar nossa família. —falou Indaíra, sua mãe, a sorrir.

— Isso nunca, minha mãe.  Na hora em que as índias dão à luz a filhos de brancos vão cavalgar nas planícies eternas. E eu só irei para lá quando o meu corcel negro tropeçar em algum tronco caído na mata e no tombo eu quebrar meu pescoço. As anciãs da taba sabem como fazer para eu me livrar desta cria.

Não adiantaram conselhos. As velhas índias jamais fariam qualquer coisa para a filha do cacique perder o fruto de seu amor. Poderiam ser castigadas por Tupã.

Potira Tainá voltou para o sítio num desespero total. Sua liberdade para sempre perdida. Ficar presa em casa a cuidar de uma criança. E talvez outros mais viessem…

De acordo com as tradições ela deveria continuar a viver com o homem que escolhera. Tentando fazê-la voltar à razão seu pai foi procurá-la.

— Filha! Vosmicê escolheu ele. Vosmicê sabia que depois que dormisse com um homem viriam os filhos. Aqui é a segurança do futuro, minha filha. Os brancos a cada dia avançam mais em nosso território. Logo nem um palmo mais de terra restará para nós por aqui. Para levantarmos nossas ocas precisamos partir para outros mundos na direção onde o sol se põe. Mas alguns emissários já voltaram para nos trazer piores notícias. Para termos algum tempo de vida na floresta assim como viveram os nossos ancestrais só caminhando léguas e léguas por luas e luas não só no rumo do sol que se põe mas também seguindo as estrelas que apontam para o norte. Filha, fique com o homem que escolheu para viver. Espere este filho nascer. Ele será o elo que faltava para vosmicê pará de andá por aí em riba deste cavalo, como quem procura as venturança que nesta terra não existem.

Potira Tainá atirou-se nos braços do pai tomada de um choro convulso. Avati acariciou seus cabelos como fazia quando ela era pequena e vinha chorar em seus braços. Já entardecia. Os pássaros já começavam a voltar para seus ninhos quando Avati, desconsolado, retomou o rumo de sua taba.

A jovem índia não tirava da cabeça as palavras de seu pai. Jamais conseguiria adaptar-se à cultura dos brancos.

— Eles que vieram de fora é que deveriam se adaptar ao nosso modo de viver, comer o que nós comemos, vestir o que nós vestimos. Caçar animais na mata apenas para suprir as necessidades de nosso estômago.

Mil pensamentos atordoavam-na. Depois de muito cavalgar pelas matas e campos descansou no límpido regato e banhou-se na cachoeira. O sol incidindo sobre a borbulhante coluna líquida que a envolvia desenhava fantásticas luzes iridescentes no contorno de seu corpo nu. Como se fora uma mística bailarina elevava seus braços e ficava a envolver o aquoso cristal que escorria do alto. Acompanhava a dança das águas e ficava a mover-se dentro delas como se executasse um balé transcendental. Parecia um transe jamais imaginado. Em instantes ali estava a própria Iara, a rainha das águas, a deusa das águas, em vestes carnais a deslumbrar com sua volúpia o mundo encantado dos seres da floresta.

Em dias de maior desespero alucinada e freneticamente galopava no lombo de seu corcel em busca de alívio para a febre que consumia seu inquieto espirito. Tentava loucuras inimagináveis. Obrigava seu cavalo a transpor altos e largos obstáculos numa vã tentativa para que a mãe do corpo* fosse afetada e seu rebento em sangue e coágulos se transformasse e escorresse para fora de suas entranhas. Mas nada acontecia. Lançava aos ares impropérios a Iara por tê-la abandonado.

—Eu não vim a este mundo para ficar presa a uma oca de índios, que dirá a uma gaiola de brancos. Eu amo o meu homem cor de leite e cabelos como o fogo. Não viverei sem ele. Mas não quero outro serzinho ao nosso lado. Ele nunca mais vai me amar como me ama.

* Útero