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maio

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2022

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Caminhos depois da ponte

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Uma escrita de coragem

Durante minha infância, lia compulsivamente o que estava a meu dispor na biblioteca da escola e ficava sempre imaginando como seriam os escritores, isto é, o processo de composição das obras, de onde surgiam as ideias, como eram suas rotinas e quais poderes possuíam para transformar pensamentos em publicações. Muito cedo fui fisgada pela arte, que me envolvia em uma atmosfera encantatória, e, assim, considerava os escritores seres mágicos. Porém, na adolescência e durante a faculdade, algumas admoestações de professores e algumas pesquisas acerca de biografias me desiludiram sobre o caráter angelical dos literatos, pois me inteirei da personalidade rude de alguns/algumas. Além disso, conheci certos escritores pessoalmente, que só corroboraram as teorias de que devemos separar autor e obra, e que a grande maioria deles são pouco sociáveis. Isso, afortunadamente, não me desmotivou como leitora, uma vez que me embrenhei cada vez mais nos caminhos livrescos.

Por outro lado, ao longo dos anos como estudante, professora e pesquisadora literária, o contato com as obras, acervos e vidas de alguns escritores reforçaram a sensibilidade que os cerca, como é o caso de Mario Quintana, que era quase um elfo, como o definiu Erico Verissimo. Menciono o poeta gaúcho porque ao ter a honra de confraternizar com a escritora canoinhense Adair Dittrich, e, logo, ler sua antologia “Caminhos depois da ponte”, a definição que me veio à mente foi: “Ela é a versão feminina de Mario Quintana!”

Não convivi com ele, tampouco o vi pessoalmente, mas a idealização que tenho, emoldurada a partir da leitura de suas obras, é personificada por Adair e seus escritos, a saber: um majestoso ímpeto de vida, de quem tem um olhar aguçado, ímpar e altamente sensível sobre os mais diversos assuntos, tendo a coragem de expô-los em seus incríveis textos. Ainda bem que ela ajudou a resgatar minha imagem pueril, a qual muitos tentaram destruir, de que os escritores são seres mágicos. Porque ambos conseguem ver o que passa desapercebido pela maioria e transformar em sequências linguísticas genuínas e provocantes – que causam reflexões – sem nunca perder o caráter angelical, sendo, ao mesmo tempo, pessoas atreladas às suas conjunturas.

 Soma-se a isso a longa carreira como médica, que, na juventude, trabalhou em um incipiente hospital, com escassos recursos, e o viu evoluir, onde travou contato com toda diversidade humana, sendo protagonista ou coadjuvante das mais belas e das mais horrendas histórias, de superações, curas, enfermidades, acidentes, entre várias outras, as quais são mote de alguns enredos.

Ainda elenco o fato dela ser uma mulher que viveu nos Anos de Chumbo e que sofreu perseguições por estar do lado dos que lutavam por igualdade. Adiciona-se seu amor às viagens e a bagagem cultural de quem díspares paisagens contemplou. E poderia enumerar vários outros atributos, atos e fatos que se amalgamam em seus escritos.

Se Mario Quintana é um elfo, Adair é uma fada que, com toques poéticos, narra o que de mais humano há, demasiadamente humano, na medida em que seus contos não são romantizados. Muito pelo contrário, o que confere alta qualidade literária a sua obra é o realismo que pulsa em cada palavra. Parece até que estamos diante do livro que preconiza um novo Movimento Literário: o Neorealismo dos anos vinte do século XXI.

Os contos de amor presentes em “Caminhos depois da ponte” em nada se assemelham aos enfadonhos “felizes para sempre”, porque a escritora é lúcida em mostrar que, embora haja sentimento, os seres podem ser incompatíveis. Há um leitmotiv que percorre suas páginas, a saber: amamos o amor, e quando ele se concretiza em interações entre um casal, na grande maioria das vezes, os percalços forçam ao rompimento.

Ademais, sua infância na vila de Marcílio Dias, sua origem, sua família, suas irmãs e irmãos, seus anos como aluna interna de colégio de freira, a Guerra do Contestado que assolou sua cidade, também são pano de fundo para suas composições literárias que, imbricando remembranças e liberdade criativa, brindam o leitor com enredos em que o clímax narrativo é digno de ser transporto para as telas do cinema.

Sua maneira de descrever minuciosamente os ambientes e as personagens muito se assemelha ao estilo do escritor francês Gustav Flaubert, cujos livros certamente foram lidos e relidos pela grande leitora que é. Quem o leu, provavelmente faz as inferências intertextuais quando se depara com excertos como este:

E então apareceu a patroa. Vomitando desdém e arrogância de dentro de um vestido de tafetá, de listas grossas, em roxo e branco, que descia até dois palmos abaixo do joelho. Um colar de pérolas, flagrantemente artificiais – naquela época as boas joias e adereços podiam ser usados abertamente, sem riscos -, com duas voltas a descer até abaixo da cintura. Sapatos de salto agulha, negros cabelos ondeados e presa ao lado uma rosa de veludo bordô. Enrodilhada em uma das mãos o colar e na outra uma longa e antipática piteira com uma cigarrilha acesa (DITTRICH, 2021, p.196).

O leitor poderá constatar que todas as narrativas são estonteantes. No entanto, por meu gosto pessoal, as que mais me comovem são as metalinguísticas, ou seja, as que têm como núcleo o próprio ato literário. É incrível saber que Adair sempre desejou escrever e, depois de jubilada de sua carreira médica, deu início a uma frutífera série de publicações, muito embora já escrevesse para vários periódicos. Dessa temática, “Um tesouro nas águas barrentas do arroio” é a mais enternecedora, porque fala do legado da escrita, da garota que amava livros e, por ser incompreendida, teve seu talento com as letras ceifado. Mesmo assim, deixou como herança, para nós, leitores, esse diamante. Cabe, a cada um, lapidá-lo!

Adair Dittrich está fazendo sua parte, nos presenteando com seus tesouros, e você, leitor, está apreciando? Deixará que a literatura o envolva e o transforme como fez comigo?

(DITTRICH, Adair. Caminhos depois da ponte. Canoinhas: UAW!, 2021).