quarta-feira, 6

de

julho

de

2022

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Antônio conhece Luiza

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Potira Tainá continuava a galopar pelas planícies e serras no lombo de seu corcel negro

Avati percebera que o tempo de seu povo naquele território estava chegando ao fim. Seus domínios diminuíam a cada lua. Diziam que as terras pertenciam ao Império. Novos donos por ali já começavam a se estabelecer. Portavam papéis cheios de selos e assinaturas de autoridades que lhes garantiam a posse das propriedades.

Avati ficou a cismar. Se aquelas pessoas que acabavam de chegar tinham aquela papelada toda dando-lhes o direito de usufruir das terras por que ele não? Falou com as pessoas que mandavam e pediu que colocassem uma parte das terras que ainda não tinham dono, oficialmente, fossem colocadas em nome de seus filhos —embora eles já tivessem tomado rumos desconhecidos— e outra em nome de sua neta Luiza dos Santos, nome pelo qual a menina fora batizada e registrada em cartório.

A tribo de Avati abrangia um vasto território que se estendia desde o rio Pien a leste e o São João a oeste; ao norte seus limites iam até o rio Iguaçu e muitas léguas para o sul do rio Negro terminando onde se iniciavam os caminhos que desciam pela serra até o mar.

Avati assegurou-se de que as terras do Barreiro, adjacentes ao sítio de Jorge e mais a parte situada ao sul do Rio Negro ficassem em nome de sua filha Potira Tainá. Feliz, agradeceu às autoridades e saiu com uma pilha de papéis carregados de assinaturas, selos e carimbados com metal sobre um vermelho e quente lacre. Em sua fé e ingenuidade estava convicto de que os territórios ali designados seriam de legítima propriedade de seus filhos.

Jorge olhou aqueles papéis e sorriu. Sabia que pelo menos a terra que era sua seria de sua filha e que ninguém nelas colocaria as mãos. Certificou-se também de que a parte do Barreiro ficasse legalmente em nome de Potira Tainá, ou melhor de Maria Rosa dos Santos nome que constava no livro tombo da igreja católica onde fora batizada. O resto… estaria nas mãos de futuros mandatários…

A menina Luíza vivia sua infância e adolescência no sítio com seu pai. Estudou em um bom colégio na cidade. Aprendeu todas as artes e ofícios inerentes às moças de então.  

Jorge não se casou. Continuou a levar sua vida entre amantes que mantinha em casas alugadas na cidade e outras pelos bordéis.

Potira Tainá continuava a galopar pelas planícies e serras no lombo de seu corcel negro. Passava como um raio pelos campos e pela cidade. Alguns agregados do sítio de Jorge viram-na muitas vezes passar rente ao quarto da pequena Luiza, sem no entanto, jamais por ali se deter.

Desfilava em seu cavalo pelas ruas da cidade. Às vezes pernoitava na oca de seus pais, mas a maior parte do tempo dormia na mata sob a luz das estrelas. Uma incógnita ficou no ar entre os que a conheceram. Teria sido a depressão causada após o parto o motivo que a fazia viver alucinadamente em meio à natureza?

Luiza tinha o maior carinho por seus avós e seu pai. No fundo sentia a falta da mãe ausente.

Jorge fizera da Lapa a cidade de seu coração. Entrosou-se em sua vida pública e social. Quando Luiza atingiu a idade de ser apresentada à sociedade levou-a aos saraus no Clube Lapeano. Mas o Teuto-Brasileiro, uma sociedade lírica e musical, formada pelos imigrantes alemães era mais de seu agrado. Uma afinadíssima banda animava os bailes. Uma banda ao estilo da Baviera, ao qual fora adicionado um instrumento sui generis, um violão bem brasileiro solado virtuosamente por um jovem austríaco.

A banda tocava uma valsa no momento em que Luiza entrava no salão apoiada nos braços de seu pai. O violonista teve que fazer malabarismos com as mãos sobre as cordas de seu instrumento para não perder o ritmo e o tom. Foi no instante mágico em que seus olhos encontraram os dela a bailar nos braços de Jorge. Mas o espetáculo não podia parar. E a banda a tocar passou mais uma meia hora até a hora do tão esperado intervalo.

O rapaz vienense chegara na Lapa há pouco tempo. Jorge já o conhecia de suas andanças pela cidade. Havia instalado uma padaria e já fazia sucesso com seus pães e tortas austríacas. Uma bela e ornamental placa de ferro encimava a entrada de seu pequeno estabelecimento. Uma placa confeccionada na serralheria de Jorge.

Como já se conheciam não titubeou em descer rapidamente as escadas do palco e correu cumprimentar o amigo. O irlandês, com um sorriso maroto, apresentou-o a filha.

— Mas ela não está destinada para jovens aventureiros, ouviu bem meu amigo Anton?

— Já pode me chamar de Antônio, amigo Jorge, já estou arraigado nesta terra. Sou tão brasileiro quanto você que aqui chegou talvez quando eu nasci lá em Viena.

— Bom, amigo Antônio, esta é minha filha Luiza, minha única filha. Só assaltando a minha fortaleza alguém poderá tirá-la de perto de mim.

— Muito prazer, senhorita Luiza! Antônio Dittrich, seu criado —apresentou-se o moço fazendo uma mesura diante da jovem, colocando-se às suas ordens.

Depois deu-lhe a mão. Mãos que ficaram juntas por segundos a mais que um simples cumprimento requeria.

A banda retornava ao palco. Os dançarinos estavam ansiosos para rodopiar de novo no salão. Jorge tomara uma mesa a um canto. Estava a tomar sua cerveja enquanto Luiza mal tocava no copo de uma bebida doce e borbulhante a que chamavam gasosa. Foram muitos os rapazes que à mesa deles se aproximavam com o intuito de convidá-la para dançar.

— Desculpe, meu amigo, mas filha não sabe dançar — já cortando as esperanças de futuros pretendentes à mão da moça. Sutilmente afastara as demais cadeiras para longe.

Antônio não via hora de dar uma escapulida. Incentivou o maestro da banda a tocar uma daquelas marchas marciais onde o violão não tem vez. Foi atendido com um piscar de olhos do regente.

Acercou-se da mesa onde se encontravam Luiza e seu pai e sem a menor cerimônia puxou uma cadeira no extremo do salão e ao lado deles a colocou. Em seguida correu ao bar. Voltou com duas canecas de cerveja e mais um grande copo com refresco de hortelã.

O interessante foi que Jorge não o afastou dali. A conversa durou apenas o tempo em que a marcha marcial era executada pelos instrumentos de sopro. Logo Antônio teve que retornar ao seu violão, pois o baile continuava.

Jorge resolveu que era chegada a hora de ir para casa. Deu o braço a Luiza, deixaram o Clube e na charretinha foram para o sítio do Barreiro.

Na manhã seguinte, quando Maria das Dores abriu a porta dos fundos encontrou um grande embrulho e um buquê de flores ao qual estava anexado um colorido cartão.

A governanta voltou esbaforida para dentro. Não aguentava mais esperar que o dono da casa fosse até a copa para tomar o café da manhã e entregar-lhe o estranho embrulho.

Ao chegar ali Jorge viu as frescas flores já dentro de um vaso com água e a seu lado aquele embrulho. Sorriu ao ler o cartão.

 Senhor Jorge espero que o senhor e sua filha apreciem esta Apfelstrudel que fiz especialmente para vocês. Com os cumprimentos de seu criado

Antônio

Mostrou-o para a filha que o leu toda emocionada. De imediato ela tomou as flores com seus cabos molhados, colocou-as sobre o coração e as beijou. Emocionada, em suspiro deixou escapar

— Ah! Papai! Estou apaixonada. Aquele moço é tão lindo e toca divinamente o violão.

Disse que nem tinha fome e nem queria tomar o café que fumegava no bule. Mas comeu quase sozinha toda a torta de maçã.

— Não é verdade, papai que esta é a torta mais saborosa e macia que comemos na vida? O senhor diz que sente tanta saudade daqueles doces irlandeses que sua mãe fazia, mas tenho certeza de que esta torta de maçã é muito melhor.

Jorge apenas ria. Abraçou carinhosamente a filha.

— Não se envolva assim tão rapidamente com um desconhecido. Um rapaz que veio da Áustria, sem família. Vamos aguardar. Um passinho de cada vez.

— Mas papai um jovem que toca divinamente um violão, que faz uma torta tão deliciosa e traz flores frescas na madrugada não pode ser um aventureiro.

Jorge apenas pigarreou e voltou ao seu café e ao seu jornal. Nisto soltou um grito.

— Foi proclamada a República. O Brasil já não é mais um império. O que farão com o nosso Imperador Dom Pedro 2º? E com a Princesa Isabel? Era visto que não aceitariam a liberação dos escravos. Como em minha terra. Os ingleses não aceitarão jamais a independência da Irlanda. O espírito dominador dos próprios aristocratas esperava ter sempre empregados à sua disposição achando que pão e um catre pagavam e muito bem pelos serviços prestados.

Após o café Jorge foi à cidade. Precisava ir ao banco e ultimar a venda de bois para um importante matadouro. Os comparadores escolhiam e marcavam as reses que lhes interessavam. Apenas uma rês era levada ao matadouro e a carne deveria ser logo vendida e consumida. Demorariam alguns anos ainda para que uma fábrica de gelo aparecesse na região quando então estes produtos perecíveis poderiam ser armazenados por mais alguns dias.

Jorge estava a caminhar na calçada quando percebeu Antônio no outro lado da rua a acenar-lhe. Fingiu que não o viu e continuou seu caminho. Mas o moço não se deu por vencido. Com suas longas pernas logo o alcançou. Tentou entabular uma conversa e apenas monossílabos recebeu como resposta.

O orgulho irlandês não deixava Jorge demonstrar algo mais ao velho amigo. Era obrigado a fazer de conta que Luiza nem vira o presente da madrugada. Agradeceu a gentiliza e seguiu seu caminho.

Continua…