terça-feira, 5

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julho

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2022

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Político como ídolo, omissão e voto interesseiro explicam como chegamos aqui

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“O preço que os homens de bem pagam pela indiferença aos assuntos políticos é ser governado pelos maus”

-Frase atribuída ao filósofo Platão

Nas últimas semanas, o município de Canoinhas foi surpreendido com aquele que talvez tenha sido o maior escândalo político de sua história – em mais uma das fases da operação Et pater filium, o MPSC revelou uma série de esquemas ilícitos envolvendo as duas principais figuras do executivo municipal (o prefeito Beto Passos e seu vice, Renato Pike) e uma série de asseclas que, mediante fraudes em contratos e licitações, agiam em prol de um único objetivo: lucrar e levar uma boa vida às custas do dinheiro público – dinheiro este que, ressalte-se, deveria estar sendo empregado no desenvolvimento da cidade, na saúde, educação, infraestrutura, etc.

Toda esta imundície que agora começa a ser revelada causou, como era de se esperar, espanto e indignação na imensa maioria dos munícipes; entretanto, é importante que se mencione, Beto e Pike não chegaram onde chegaram por obra do mero acaso, pelo contrário, foram eleitos democraticamente por uma parcela significativa da população local, que, por alguma razão, considerou ambos como os mais “aptos” a gerir o município. É precisamente neste ponto que eu gostaria de chegar: na nossa participação dentro dessa história toda. Muito mais que chamar a atenção para a sujeira dos eventos e canalhice de seus protagonistas (já amplamente noticiada), pretendo aqui voltar os olhos para o grau de responsabilidade envolta em nossas escolhas enquanto eleitores e cidadãos.

Isso porque não podemos mais nos darmos ao luxo de considerar a política como algo secundário ou menor em nossas vidas. Se os escândalos da operação Et Pater filium nos ensinam algo para além da mera revolta, é que uma participação política ativa e crítica é determinante para inibirmos os canalhas, malandros e gatunos dos espaços da administração pública.

Para tanto, haveremos de extirpar alguns vícios e erros que contaminam o exercício da política, e que são aqueles que abrem margem para que estes sujeitos vis e nada republicanos adentrem nas instituições que vão coordenar nossa sociedade. O primeiro destes erros e, possivelmente, um dos mais graves nos dias atuais, é o do político como ídolo. Vota-se neste ou naquele porque é simpático, fala bem, é do povo, abraça todo mundo, é “meu amigo”, entre outros motivos semelhantes. Através disso, cai-se no campo da afeição e idolatria. Nada pior em política, na qual o pé atrás e a dimensão crítica com qualquer indivíduo que apareça é condição substancial, primeiramente para um voto consciente, e, seguidamente, para a vigilância e cobrança que se fazem necessários após as eleições.

O segundo erro que destaco é o da omissão política, o qual, em muitos casos, mistura-se com o ódio político. Este erro se faz presente justamente naqueles cidadãos que, após verem tantas notícias sobre corrupção no espaço da coisa pública, confundem o agente político corrupto com a política em si. Para este sujeito, política e corrupção são sinônimos, de tal sorte que ele passa a nutrir pela mesma (a política) o mais profundo descrédito. Desse modo, ele passa a votar em qualquer um (afinal, são todos iguais), em branco ou nulo, ou então, em outsiders, que, no mais das vezes, não entendem nada de gestão pública, e que, sob o emblema da novidade, dão continuidade aos esquemas desonestos que costumeiramente se outorga a velha política. Aquele que age dessa forma, no fim das contas, cria uma armadilha para si mesmo, já que sua participação omissa ou movida pelo ódio, acaba por ser combustível para as práticas que tanto ojeriza.

Por fim, o terceiro erro que aqui levanto, é o do voto interesseiro. Este é aquele eleitor que, por puro desinteresse ou até mesmo pelo já mencionado descrédito com relação à política, vê nela um meio para a obtenção de vantagens particulares. O critério de escolha é: ganha meu voto quem me der algo em troca. Os produtos de barganha variam, passando de uns litrinhos de gasolina em posto X ou Y, um adiantamento em alguma consulta, até um carguinho comissionado para mim ou algum parente na prefeitura. Neste caso, a falta de ética do candidato é evidenciada de primeira. Não percebe o eleitor, que nesta troca de favores, ele mais perde do que ganha, afinal, se o candidato se propõe a fazer tais acordos escusos explicitamente, o que não fará então por debaixo dos panos nos espaços públicos quando eleito? Ademais, esse modus operandi de quem disputa o pleito já revela de igual forma a sua ausência de projetos e ideias, o que irá se refletir mais tarde, nos péssimos serviços que serão prestados aos cidadãos.

Para além da extirpação desses erros e vícios, colocar o ponto de interrogação no centro das atenções se faz fundamental. Como já é de conhecimento geral, muito possivelmente haverá novas eleições para prefeito (a) em Canoinhas, e no intercurso desta, é necessário que os questionamentos se façam mais presentes do que nunca. Devemos questionar a vida pregressa de cada um dos candidatos. Em sendo estes candidatos vereadores na atual gestão, questionar como foi sua atuação no espaço da Câmara de Vereadores, suas votações em projetos importantes que transcorreram naquela casa, e, sobretudo, como se deu o seu ofício de fiscalizador naquele espaço, principalmente nas gestões dos hoje presos, Beto Passos e Renato Pike. Indo adiante, há que se perguntar quais os projetos este ou aquele tem a oferecer para o município, e o mais importante, como tais projetos serão colocados em prática. Indagar sobre a equipe que ele pretende constituir para as pastas fundamentais e quais os critérios de escolha para tal. E claro, eleito o candidato, independentemente de ser este fruto da minha escolha ou não, continuar com as cobranças e questionamentos ininterruptamente, se utilizando dos mais diversos meios para isso. Pode parecer trabalhoso, e de fato é, mas não há alternativa a não ser esta, caso desejemos uma política que se volte de fato para aquilo que deveria ser o elementar, a saber, o bem comum.

A operação Et pater filium marca um ponto de virada no Planalto Norte Catarinense, e, de maneira mais específica, no município de Canoinhas. É a oportunidade que precisávamos para virar a página de uma política suja e de viés coronelesco que até então imperou para uma política diferenciada que dê ao nosso município o status que ele merece. Só depende única e exclusivamente de nós virarmos essa página ou continuarmos nos indignando indefinidamente com outros escândalos.