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O desenvolvimento como “promessa de futuro”

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O discurso sobre desenvolvimento parece assumir os contornos de um discurso religioso ao alimentar a crença em sua efetivação

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Dr. Sandro Luiz Bazzanella*

Drª Cintia Neves Godoi**

Durante reunião do Grupo de Estudo em Ciência do Desenvolvimento Regional (link de acesso aqui) no dia 13.07.2023, ao lermos e debatermos o artigo: “As ilusões do novo desenvolvimentismo: expressão ideológica da crise na periferia do capitalismo”, de autoria do professor adjunto do Departamento de Política Social e Serviço Social Aplicado da Escola de Serviço Social da UFRJ, Cézar Maranhão, encontramos a seguinte passagem: “(…), o mito do desenvolvimento tornou-se, ao longo da história, uma construção ideológica fundamental para que a classe dominante brasileira elaborasse sua concepção de mundo específica e ao mesmo tempo socializasse com as demais classes e frações de classe as promessas de um futuro (o destaque em itálico é nosso) de crescimento econômico e de melhoria das condições de vida”.

Advertimos que não está em jogo nesta reflexão a análise dos argumentos do referido professor ao longo do seu artigo. Nem mesmo a análise da passagem destacada e apresentada acima. O que interessa colocar em debate neste texto é a expressão acima “promessas de um futuro” vinculado ao discurso do desenvolvimento, ou na proposição do autor como “mito do desenvolvimento”. Talvez se possa partir do argumento de que a expressão “promessas de um futuro” assuma maior consistência explicativa em relação à força e penetração social que os discursos sobre desenvolvimento ainda assumem na atualidade. Ou ainda, dito de outro modo, a referida expressão auxilia na compreensão do paradoxo inerente aos discursos sobre desenvolvimento, que a despeito de sua não realização no contexto da sociedade brasileira, ou mesmo de países que também se constituíram no seio de extensos e violentos processos de colônias de exploração ainda habita o esperançoso imaginário acadêmico e científico e popular na atualidade.

Na condição de “promessas de um futuro” o discurso sobre desenvolvimento parece assumir os contornos de um discurso religioso ao alimentar a crença em sua efetivação. Em sua dogmática religiosa, apresenta-se como uma “verdade revelada” pela generosidade dos povos desenvolvidos aos povos nomeados, classificados pelos desenvolvidos como subdesenvolvidos, periféricos, emergentes, renda média, entre outras adjetivações possíveis. Para a salvação da nação, “o almejado alcance do desenvolvimento”, bastava seguir o receituário das agências econômicas internacionais. Fazia e faz parte do corolário das verdades reveladas: “a retirada do Estado da regulação econômica”; “flexibilização das relações trabalhistas”; “Reforma previdenciária”; “Reforma tributária”; “Privatizações”; “Parcerias Público-Privadas”; “Liberdade de mercado”; “Independência do banco central”; “Ajuste fiscal”; “Boa governança”, entre outras receitas – etapas – processos – para o alcance da promessa. E, o bendito desenvolvimento não chega. Calma! Virá depois das reformas. Primeiro é preciso fazer crescer o bolo para depois dividi-lo. As mesmas bases dogmáticas religiosas do discurso do desenvolvimento presente no plano externo, nas relações entre Estados, se apresentam no plano interno. É preciso que o indivíduo, a localidade, a comunidade, a região mobilize seu “capital humano”, “seu capital social”, que a promessa do desenvolvimento se concretizará no futuro próximo. É de fato uma questão de fé. E fé não se discute, se acredita. Somente os crentes conseguem reconhecer os sinais que se manifestam no tempo presente demonstrando que a promessa do desenvolvimento se cumprirá, basta seguir a dogmática, o receituário liberal, progressista, ou neoliberal e suas verdades reveladas.

Observem que nos parágrafos acima, a linha de argumentação assume contornos de discurso teológico. Há elementos do discurso teológico que nos são caros, pois permitem enxergar formas do pensamento que, fazem uso de elementos de teleologia, na medida em que remetem a ideia de futuro, de esperança, de alcance de uma condição desejável. Pressupostos que movem a vida cotidiana de indivíduos, de comunidades, de localidades e, até de nações inteiras, pois remetem a um sentido que orienta a vida individual e social em vista de uma finalidade. Ou seja, se quer aqui demonstrar a importância e, a presença na atualidade do discurso teleológico que está presente nas dimensões sociais, entre elas, nas promessas de desenvolvimento[i].

A teologia é a forma de conhecimento racional, dedutiva, que se dedica aos estudos, análises e interpretações dos textos sagrados do cristianismo (Antigo e Novo Testamento), das doutrinas, dos conceitos e verdades reveladas que fundamentam a fé no âmbito do catolicismo, entre outras igrejas cristãs.

Sob certa perspectiva analítica, é preciso ter presente que a mentalidade científica moderna se constitui e alimenta a pretensão da verdade do conhecimento científico como condição inquestionável. Esta pretensão se encontra cada vez mais arraigada nas sociedades contemporâneas, a ponto de desconsiderar, ou de não se dar conta da coexistência do conhecimento do senso comum e, da ciência comum dele derivada e, que transita diuturnamente entre indivíduos e sociedades humanas. Esta racionalidade científica, senão instrumental que, em partes desconsidera a extensão e a profundidade do senso comum, age de forma similar em relação ao conhecimento teológico remetendo-o simploriamente a uma condição religiosa, de fé e, portanto, sem impacto sobre o conhecimento dos fenômenos humanos, sejam eles políticos, sociais ou econômicos.

O que a racionalidade instrumental científica em suas pretensões de discurso oficial e verdadeiro, sobre os fenômenos naturais e humanos, desconsidera, ou melhor, em sua condicionada visão científica não alcança é o fato de que o conhecimento teológico foi forjado ao longo de mais de mil anos da trajetória histórica ocidental. Se o conhecimento científico moderno advém de uma tradição que remonta a modernidade em seus últimos trezentos anos, o conhecimento teológico, advindo dos momentos estertores do mundo antigo greco-romano, perpassa o mundo medieval e, se mantém atuante na atualidade. Ou ainda, é preciso reconhecer que na constituição da ciência moderna encontra-se a extensa contribuição exegética, dedutiva, racional da paciente investigação teológica sobre o mundo divino, sobre o mundo humano e o mundo natural, partícipes de um único projeto da criação inserido no contexto de uma economia da salvação.

Ainda nesta direção, para um significativo número de pensadores, intelectuais e cientistas é mister reconhecer o processo de “secularização” promovido pela modernidade. Ou seja, de que a modernidade pode ser refletida, analisada e compreendida como um extenso processo de incorporação de pressupostos teológicos em seus conceitos políticos, jurídicos, econômicos e científicos, do que resulta o argumento de que ao desconsiderar aspectos teológicos inerentes aos conceitos e discursos modernos, pouco se compreende efetivamente de nossa forma de moderna de ser estar no mundo. Mas, não nos confundam como defensores da teologia e, detratores da ciência em seus estatutos metodológicos e epistemológicos modernos e contemporâneos. O que pretendemos demonstrar, é que pensar, refletir e pesquisar a categoria “desenvolvimento” requer o reconhecimento das “assinaturas teológicas” que subjazem sua conformação teórico-discursiva na atualidade, mantendo-o no imaginário presente científico-popular, mesmo a despeito de suas contradições, paradoxos, imposições e limites.

Desta maneira, a desconsideração de contribuições teóricas, conceituais, senão cosmológicas advindas da teologia e, presente nos fundamentos da modernidade torna-a reducionista, meramente instrumental em suas propostas e iniciativas de conferir sentido e finalidade ao fazer, a existência, ao mundo compartilhado entre as mais distintas e diversas formas de vida, afinal, para quem não sabe de onde vem, qualquer caminho serve, pois tem dificuldades de decidir para onde ir, qual o melhor caminho para o alcance de finalidades.

E sob tais pressupostos, que o temo “promessas de um futuro” presente no artigo acima referenciado assume significativa importância, pois se trata de uma expressão carregada de sentido teológico. Ou seja, sua adequada compreensão requer reconhecimento de sua condição teológica. Nesta perspectiva, o termo “promessa” perpassa os escritos do Antigo e Novo Testamento (livros Sagrados para Judeus e Cristãos) e, se apresenta no âmbito do acordo, da aliança entre Deus e o povo escolhido, o povo Hebreu em relação ao alcance da terra prometida. Também o termo futuro se apresenta e, se justifica no contexto da aliança, pois é preciso ter esperança no futuro, num tempo em que as promessas se concretizarão. É em Santo Agostinho (354-430 d.C.), que encontramos a famosa definição de tempo[ii] como condição tripartite “passado, presente e futuro”. Para Agostinho o passado não se apresenta como categoria temporal, a não ser como memória de fatos e acontecimentos vividos. O passar dos anos enfraquece o passado pelo esquecimento e, pelas distorções das memórias. O futuro também não se apresenta como categoria temporal, pois se apresenta apenas como expectativa de um tempo vindouro, no entanto, é condição sine qua non para o presente, pois alimenta no transcorrer do tempo presente os esforços, as esperanças de alcance das exceptivas projetadas e, que conferem, sob determinados aspectos, sentido e finalidade à vida humana, social, ao mundo humano, demasiadamente humano. (NIETZSCHE).

Sob estes aspectos teológicos constitutivos, ou que se apresentam como assinaturas indeléveis no termo desenvolvimento, derivado de crenças nas “promessas de um futuro” faz com se apresente como um operador, um disseminador de teorias com pretensões científicas, de receituários práticos, de pesquisas, bem como de discursos e ações políticas e governamentais em busca de afirmação das promessas do desenvolvimento. Assim, o desenvolvimento apresenta-se como condição absoluta, como “verdade revelada”, quase que inquestionável em seus fundamentos, em suas pretensões em suas contradições a mobilizar promessas e esperanças de indivíduos e populações. Em sua condição de “verdade revelada” que emana dos povos desenvolvidos aos povos subdesenvolvidos, o não alcance das promessas de futuro do desenvolvimento é de responsabilidade e, sobretudo da incompetência política, social e estatal dos povos subdesenvolvidos, que não empreendem adequadamente, não inovaram suficientemente, pois excessivamente apegados ao Estado, apresentam-se preguiçosos, desleixados com a educação, com o trabalho, com as possibilidades de uma sociedade da plena produção e do pleno consumo.

E as “promessas de futuro” advêm justamente de outra ideia que também contém as características de orientação teológica implicadas na ideia de salvação. Flávio Ribeiro quando em sua tese[iii] discute usos do termo desenvolvimento, o apresenta como uma Política de Estado dos Estados Unidos. E, neste sentido, cabe destacar a relação entre as ideias, ou crenças, construídas de que o país do norte teria um futuro, um caminho, uma predestinação a ser relevante nas vidas de outros povos.

Poderia se dizer que houve a construção de uma crença de Destino Manifesto para o Norte e promessas de futuro para o Sul e, que existem aí fundamentos teológicos na construção de instituições, de estratégias políticas e, de ciência. A famosa expressão “Destino Manifesto”[iv] de John L. O’Sullivan[v], defendia a anexação do Texas e a expansão dos Estados Unidos em direção ao Oeste, e acabou avançando também para povos do Sul.

O destino, portanto dos desenvolvidos disponibiliza a oferta de “promessas de um futuro” desenvolvido, para tanto, requerem obediência e subserviência às verdades reveladas pelo receituário liberal de ontem, e ainda mesclado ao receituário neoliberal em curso nos dias de hoje. Toda e qualquer iniciativa autóctone de desenvolvimento é inaceitável, quando não golpeada, desacreditada, torturada pelas elites subservientes locais as elites e poderes globais, na medida em que afronta a verdade revelação do desenvolvimento, presente nos receituários da ONU, da OMC, do FMI, do Banco Mundial, enfim, dos “organismos”, das instituições do norte ocidental desenvolvimento. Fora das promessas do futuro todo o resto seria dor e sofrimento…



**Drª Cintia Neves Godoi é professora de Geografia


[i] Nesta direção, mas sobre outros aspectos argumentativos é interessante analisar o artigo do sociólogo argentino Atílio Alberto Boron, intitulado: “Duro de matar. El mito del desarrollo capitalista nacional en la nueva coyuntura política de América Latina”, publicado na Revista Latinoamericana de Economia, vol. 38, num. 151, octubre-deciembre de 2007, pp. 197-215.

[ii] “O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei. Porém, atrevo-me a declarar, sem receio de contestação, eu, se nada sobreviesse, não haveria tempo futuro, e se agora nada houvesse, não existiria tempo presente. De que modo existem aqueles dois tempos – o passado e o futuro -, se o passado já não existe e o futuro ainda não veio? Quanto ao presente, se fosse sempre presente, e não passasse para o pretérito, já não seria tempo, mas eternidade. Mas se o presente, para ser tempo, tem necessariamente de passar para o pretérito, como podemos afirmar que ele existe, se a causa de sua existência é a mesma pela qual deixará de existir? Para que digamos que o tempo verdadeiramente existem, porque tende a não ser?” AGOSTINHO, Santo. 14. O que é o tempo? (In) CONFISSÕES (LIVRO XI O HOMEM E O TEMPO). São Paulo: Editora Abril, 1973, pp. 244.

[iii] RIBEIRO, Flavio Diniz. WALT WHITMAN ROSTOW E A PROBLEMÁTICA DO DESENVOLVIMENTO IDEOLOGIA, POLÍTICA E CIÊNCIA NA GUERRA FRIA. Tese de doutorado apresentada ao Programa de Pós-graduação em História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

[iv] Schoults, Lars. Estados Unidos: poder e submissão: uma história da política norte-americana em relação à América Latina / Lars Schoultz; Tradução de Raul Fiker. — Bauru, SP: EDUSC, 2000.

[v] Destino Manifesto foi uma expressão cunhada pelo jornalista John Louis O’Sullivan em editoriais dos periódicos United States Magazine e Democratic Review, apoiando a anexação de parte do território mexicano no sec. XIX. Manifestação de cunho nacionalista, o Destino Manifesto supunha que os norte-americanos haviam construído o país a partir de valores superiores e que tinham a missão excelsa de civilizar os territórios considerados bárbaros ou incultos. O Destino Manifesto foi utilizado por políticos expansionistas de todos os partidos norte-americanos para justificar a anexação de metade do território mexicano, o território do Oregon e o Alaska. Por volta do final do século XIX, a doutrina do Destino Manifesto foi recuperada para justificar a possível anexação de ilhas do Caribe e do Oceano Atlântico.

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