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Xenofobia do bem

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Imbecis e covardes há em todo o lugar, temos os nossos e até nas Forças Armadas os há

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Walter Marcos Knaesel Birkner*

Antes de falar mal do próximo governo, fim de ano, vai uma pérola encontrada na internet: “Alguém sabe alguma coisa sobre o histórico da marca Hering? Como a marca é de Santa Catarina, fico com o pé atrás”. Na sequência, o “cancelador” diz que não quer comprar cuecas que ajudem a financiar o fascismo. Aqui pra nós, acho necessário relativizar as coisas, colocá-las no lugar e depois, então, dar uma recomendação a esses “xenófobos do bem”, que Deus os ajude.

O problema todo é que quase 70% dos votos válidos em Santa Catarina foram para Bolsonaro, como fosse isso sinônimo de fascismo. Até o Ciro Gomes chamou isso de enorme estupidez. Noves fora, brasileiros, sempre fomos incentivados a validar o voto e SC não escapa disso. Dos votos válidos, parte do eleitorado se fia na ideia religiosa do bem e do mal e a outra vota no menos pior.

Além disso, nos ensina a boa Sociologia, existe a ação social de cada um de nós. Ela faz com que a maioria ao nosso redor influencie nossas escolhas, porque, sociáveis, queremos nos integrar à sociedade e não nos isolar. E, ao largo disso, é preciso entender que cada território tem suas próprias identidades coletivas, que gera o senso de pertencimento, a cola que junta as pessoas.

A identidade coletiva do catarinense é mais ou menos assim: descendentes de colonos, pé no barro, pequenos proprietários, empreendedores, conservadores e, não obstante o forte cooperativismo, individualistas no melhor sentido. Isso também exerce alguma influência, muitas vezes grosseira, outras vezes sutil, nas escolhas eleitorais.

Essa constituição da nossa identidade coletiva ajuda, inclusive, a explicar a maior densidade de uma classe média e bem espalhada em Santa Catarina. Isso leva o Estado a ser economicamente mais dinâmico e desconcentrado, que arrecada muito pra Brasília e recebe pouco de volta – e isso nunca muda, sejamos francos.

É o motivo do nosso mau humor e de uma presunção de superioridade em relação ao País. E não importa o que se pense e o que se julgue sobre isso, está na boca do homem comum: somos burro de carga e carregamos os outros nas costas. Daí, dos desavisados vêm a pecha de sulista fascista e xenófobo, generalizações que certa gente do bem ama mais que a própria mãe.

Também não estamos isentos de culpa, somos todos responsáveis pela sociedade em que vivemos, por ação, omissão e educação dos filhos. Fomos os mais expressivos no movimento dos tranca-ruas, temos xenófobos sim e há manifestações de gente sub-inteligente alimentando preconceitos pelas redes sociais. Temos os nossos, nem mais, nem menos, é só ler os jornais Brasil a fora.

Pior é não aceitar o resultado das eleições e sair agredindo pessoas covardemente.

Neste aspecto, um caso específico me enojou e saí de um nostálgico grupo de whats app. Era mais um daqueles do antigo pessoal da “firma”, mas se tornou meio de propaganda eleitoral. Até aí, tudo bem. Mas aí alguém posta um vídeo infame em que um covarde, enrolado na sagrada bandeira brasileira, dá um tapa na cara de uma garota franzina, por causa do resultado das eleições.

Bom: até aí, uma informação repulsiva. Mas, abaixo do vídeo, o comentário de um “valentão”, que me lembrou o artigo do amigo Leandro da Rocha, de semana passada nesta coluna. O ignorante escreve mais ou menos assim: “aqui na nossa cidade nós semo macho (sic) e blábláblá”. Pensei comigo: mas de quem foi que esse ignóbil intruso no grupo aprendeu que bater em mulher é coisa de macho?

Aposto que não foi pela educação herdada dos colonos portugueses, africanos, alemães, eslavos, italianos, árabes, japoneses e outros que tornaram Santa Catarina o Estado mais alfabetizado, menos inseguro e desigual do País. Imbecis e covardes há em todo o lugar, temos os nossos e até nas Forças Armadas os há. Mas, com respeito ao lema de ordem e progresso, lugar de maçã podre é fora do cesto.

Feita a mea-culpa, é preciso dizer: essa generalização rasteira de chamar catarinenses de fascistas é tão estúpida e pusilânime quanto o fato mencionado acima. É tão cretina quanto a ofensa do bêbado imbecil xingando a mãe do octogenário e genial Gilberto Gil, que já rendeu homenagem a Santa Catarina em suas composições.

Não é por acaso que os espíritos mais lúcidos nos manifestam respeito. É porque o merecemos, trabalhamos muito para ajudar o País e manter o curso civilizatório com amor às nossas crianças. Por isso, além da educação e da riqueza que geramos, construímos cidades boas e atraentes, pra onde vem gente de todo o País e do exterior.

É gente como o Seu José, que me disse que aqui, em Santa Catarina, se sente gente, porque tem trabalho e pode sustentar a família. É gente como a Dona Flor, venezuelana entrevistada em um excelente estudo sobre imigração em Santa Catarina. Junto com o marido, matriculou os filhos na escola, arrumou emprego, se sente acolhida e feliz (leia a reportagem de Gabriele Ferrarez, da NSC).

Ao contrário do que pensam os “xenófobos do bem”, SC está entre os Estados que mais recebem imigrantes. A Revista Veja publicou isso, durante o ano de 2022, mostrando que a metade dos venezuelanos que ingressaram no Brasil em 2021 veio para os três Estados do sul e os entrevistados dizem que aqui são mais bem recebidos. Por preconceito, os xenófobos do bem morrerão sem entender isso.

A contrariar suas crenças, Santa Catarina é o paradoxo prático onde a prosperidade e o combate à desigualdade é produto das oportunidades. E essas oportunidades são geradas por empreendedores e não pelos grandes planos de desenvolvimento de governos iluminados. Por preconceito e confusão entre o que é fascismo e o que é liberalismo, os xenófobos do bem nunca pensaram nisso.

Se esses pseudo-intelectuais engajados tivessem juízo, respeitariam a história econômica do País e tentariam entender como se origina e funciona uma sociedade próspera. Ela começa na ambição de construir algo de útil, digno do respeito dos outros e que melhore a vida de pessoas, gerando oportunidades e satisfazendo necessidades. Um trabalho, uma camiseta, uma etiqueta e o orgulho na face.

Mas, gente mimada não enxerga isso, é incapaz de ver além de seus aborrecimentos e só piora com o tempo. Perdem a vida procurando os defeitos alheios, chamando à atenção sabe-se lá, no fundo, por qual razão freudiana. Por autodefesa, são incapazes de enxergar a virtude alheia, pois morreriam de tanta inveja se capazes fossem. Então, passam a vida invejando e maldizendo os outros.

Quanto ao cancelamento a produtos catarinenses, os xenófobos do bem só precisam ter cuidado. Ao acordar: reparar chaves de luz, lâmpadas, lençóis, camas, tubos de conexões, escovas de dente, toalhas, piso, porcelana, vidros, cosméticos etc. Antes de se vestir: reparar meias, calça, camiseta, sapato, camisa e casaco. Verifiquem a procedência.

No café da manhã, pelo amor de Deus: checa toda a comida, queijo, manteiga, linguiça, salame, cadeiras, mesas, geladeira, forno, fogão, air fryer, micro ondas. Nos supermercados então, cuidado redobrado. Lojas de roupas, melhor passar longe, só procurar as grifes internacionais e gerar empregos politicamente corretos lá fora.

E, não esquecer de perguntar a origem de fiação elétrica, softwares, aplicativos do celular, jogos eletrônicos, urna eletrônica, bicicleta, motocicleta elétrica, placas solares, geradores da energia eólica, motores a energia elétrica, automóveis, acessórios do automóvel, camisa da seleção, cerveja premiada, vinho nacional, papeis, embalagens etc. Cuidado: podem ter um selo de qualidade “fascista”.

E quanto às cuecas, claro, não empreguem, nem financiem fascistas. Comprem-nas de uma de uma marca estrangeira, cuidado com a procedência de mão de obra semiescrava ou escrava de imigrantes pelo mundo afora. E não se esqueçam de vesti-las no lugar onde lhes cabe melhor: na cabeça.

*Walter Marcos Knaesel Birkner é sociólogo

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