Verona: bela e misteriosa


A história de Verona se entrelaça com a de Roma

 

 

O dia fora intenso. Já desde Piacenza tanto a se ver. Com tanto para se deslumbrar. Esquecera-me de que o dia corria célere em busca de seu fim e nem almoçado ainda eu havia. Minha última refeição tinha sido o café da manhã.

 

Anfiteatro Romano

Havia caminhado muitos quilômetros. Muito mais do que eu jamais pensara que ainda conseguiria… O descanso veio depois que as tépidas águas de uma solene ducha escorressem sobre o meu corpo.

 

 

 

Imaginara jantar no restaurante do hotel. Surpresa! Ali apenas era servido o café da manhã. Havia um bar. Com alguns petiscos próprios para acompanhar uma bebida qualquer. Deram-me um mapa com indicações de restaurantes próximos. Tudo perto, tudo próximo… Segundo o recepcionista. Que me aconselhou uma trattoria, na qual eu conheceria a verdadeira cozinha regional de Verona.

 

 

 

Pés em brasa, encetei a caminhada. E nada de encontrar o local indicado no pequeno esboço de mapa que me entregaram. Escurecia. Mas aquele povo é muito gentil e prestativo. Pessoas que pela rua passavam levaram-me ao local.

 

 

E então saboreei um ravióli à moda da minha Nonna Thereza. Com exuberante molho do mais rutilante tomate. E uma taça do mais puro líquido rubro oriundo das vinícolas de Verona.

 

 

 

Não tão cedo, na manhã seguinte, após o café da manhã, as andanças recomeçaram. O local por onde eu caminhara há mais de trinta anos era o meu destino inicial. Precisava ver de novo a gare de Verona. Onde desembarquei, deslumbrada e com as emoções a mil, em uma distante manhã, com minha amiga Jucy Reinhert Seleme, em 1986.

 

 

Piazza Bra

 

Distava bem mais de cinco quilômetros. Avaliei a caminhada. Bolhas ainda não haviam surgido na sola dos pés. Mas estavam a caminho. Avaliei meus euros… Entre gastar um pouco mais ou ficar estaleirada no leito com os pés atulhados de pequenas e doloridas bolsas cheias de líquido, optei por um taxi. Que me deixou sã e salva bem ao lado de Porta Nuova, a estação de trem de Verona. Dilui-me ao andar por aquele espaço. Fiz de conta que recém desembarcara de um comboio e fiquei a olhar ao redor.

 

 

 

 

O mapa embutido em meu celular levou-me através de ruas e praças até a Arena de Verona. Um novo êxtase. Em seu redor estáticos estavam os monumentais cenários da Ópera “Aída”, de Verdi, que havia sido apresentada na véspera.

 

Portoni della Bra

 

Andei ao redor de toda a Arena. Cartazes de todas as óperas ali, neste ano, já ou que ainda seriam encenadas. Corri à procura do local onde eu poderia ver quais óperas seriam apresentadas nos dias em que em Verona eu permanecesse a fim de, ao menos uma, eu assistir. Havia ingressos, sim. Localizados bem no alto. Em local inacessível ao meu físico e aos meus olhos. Triste, de cabeça baixa, desisti.

 

 

 

A tarde corria. E o cansaço, em pleno sol de verão de Verona, também. Um aprazível local, sob a sombra de guarda sóis, eu encontrei. A Arena em frente. E o mundo a desfilar por ali. Povos de todas as raças, de todas os quadrantes, com os mais variados e inimagináveis trajes a desfilar à minha frente.

 

Palazzo della Guardia

 

Nem um vinho e nem uma massa forte estariam indicadas debaixo de um azul infindo com sol a pino e os termômetros marcando uma temperatura acima dos trinta graus centígrados. Imperioso primeiro uma água natural bem gelada. Porque a reidratação era urgente. E depois uma cerveja de pressão para acompanhar uma salada. Eu, tentando exprimir-me em meu italiano. Foi então que o inusitado aconteceu. O garçom que me servia, repentinamente, assim, expressou-se:

 

 

— Está bem! Obrigado! — e foi providenciar o meu pedido.

 

Palazzo Barbieri

 

Após terminar minha refeição e pedir a conta perguntei onde aprendera português. Contou-me então que um colega seu, que atendia na parte interna da Trattoria era brasileiro. E de Morro da Fumaça. De meu estado natal. Foi um longo papo em português. Com dicas de onde melhor fazer compras em Verona.

 

 

 

 

Pelas ruas que partem e se encontram em torno da Arena fui andando. Olhando vitrines. Com coloridos vasos de flores. Com pujantes vasos das mais diversas folhagens. Com lojas expondo o que há de mais moderno em matéria de bolsas e calçados, de criações inéditas de alta costura feminina, de impecáveis mostras de ternos e acessórios masculinos. Uma rua que tinha no chão o brilho do sol. Eu pisava sobre um reluzente mármore. Não só esta mas muitas outras de Verona são pavimentadas com o mais puro e reluzente mármore.

 

Museu de Lapidação Maffei

 

Foi assim que encontrei a cantina dos sonhos. Onde todas as safras de vinho de Verona poderiam ser encontradas. Numa escala de valores desde os vinhos de mais baixa qualidade, segundo eles, mas mesmo assim, muito bons, até os mais reverenciados. Onde também poderia se pedir um sanduíche ali montado em um crocante pão italiano recheado com fatias de presunto de Parma e o melhor queijo da terra. Com meu jantar garantido em uma pequena sacola, saí em busca de um táxi que me levasse ao hotel, nas cercanias de San Michelle, por cuja porta eu agora passaria em todos os dias em que em Verona permanecesse.

 

 

 

 

Da janela de meu quarto mais paredões de prédios do que horizontes eu via. Então fui subindo as escadarias internas até chegar ao alto mais alto do prédio e pude desfrutar do mais belo crepúsculo com os Alpes Orientais bem ao longe, muito longe. As montanhas que transformam a luz do sol em miríades de tons róseos. Mas elas estavam num horizonte muito além. Apenas seus contornos, na distância, eu vislumbrava.

 

Piazza dei Signori

 

 

Não entendo como as empresas de turismo empenham-se em mostrar Verona aos turistas em apenas uma curta manhã. Tanto a se ver naquela cidade encantada. Vaguei por lá por mais de três dias e tanto ainda ficou para trás.

 

 

 

 

No meu andar vagabundo, no meu andar vagaroso, programei ver o que dava naqueles poucos dias. Precisava curtir o Adige! Adige, um mágico nome que desde muito pequena em minha memória estava cravado. Adige! Um rio. O rio de minha Nonna Thereza. Um rio que atravessa Verona. Um rio que com sua alça, um seu laço, envolve um miraculoso local que fica em uma ilha. Onde o tempo e as circunstâncias físicas impediram a minha visita. Desta vez. Na próxima lá estarei para me deslumbrar com os mais magníficos jardins de que já ouvi falar.

 


Arche Scaligere ou mausoléus dos Scaligere

 

Então cheguei na manhã seguinte junto às margens do Adige. Quase dependurei-me nas balaustradas que o cercam. Cheguei ao lado do antigo Teatro Romano. Atravessei a Ponte di Pietra para nela, debruçar-me, uma vez mais, e no embalo das águas cascateantes na corredeira lá embaixo, deixar-me divagar pelos séculos que se foram.

 

 

 

 

Construções na margem oposta ostentando um desfile de flores que se debruçam em cada janela, em cada balaustrada, em cada desvão, cascateando ramagens. Um mundo colorido a nos mostrar a exuberância colorida que se espalha em cachos para olhar as águas do Adige lá embaixo.

 

 

Palazzo Cangrande ou Palazzo del Podestà

Muita coisa ainda para me deslumbrar nesta tarde, nestes caminhos. Sempre caminhando, porque toda esta parte entre muralhas só se pode desfrutar a pé, encontrei um verdadeiro desfile de igrejas. Demorei para contornar a de Santa Anastácia. Um órgão e um violino executando obras sacras. Sentei-me. E desfrutei de toda a beleza dos afrescos e esculturas enquanto me deixava embalar pela música.

 

 

 

 

Ao sair, por outra porta, deparo-me, ao lado, com a Igreja de São Pedro Mártir. Consta que, logo no início do cristianismo não cessavam as construções de novos templos. Destruídos por terremotos, sobre suas ruínas novas colunas e novas paredes foram sobrepostas. Por isto um infindável estilo arquitetônico desfila ante os nossos olhos.

 

Palazzo della Ragione

 

Olhos sempre voltados para o alto, a fim de melhor admirar todas as construções milenares que me envolviam, nem percebi que já me encontrava em plena praça Bra, ao lado da grande Arena. Onde fácil foi pegar um táxi. Com um condutor que morava em San Michelle. E que muito, da história de seu bairro, antiga Vila de San Michelle, onde minha Nonna Thereza nasceu, no decorrer do percurso ele foi me contando.

 





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