terça-feira, 26

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outubro

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2021

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Uma trilogia sobre o Estado Novo

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Obras fazem o leitor ter uma visão caleidoscópica dos eventos históricos

Ao reler, pela terceira vez, os três tomos – Os ásperos tempos, Agonia da Noite e A luz no túnel – que compõem a trilogia de Jorge Amado denominada “Os subterrâneos da liberdade”, me ocorreu uma sagaz ideia: juntamente com a saga épica de Erico Verissimo, isto é, “O tempo e o vento”, que abarca dois séculos de História do Brasil, poderiam complementar os manuais didáticos e serem lidos nas escolas como forma de analisar a trajetória política e social brasileira, nas aulas de História, Geografia, Sociologia e Filosofia. Pois, com os olhares aguçados de exímios escritores e de testemunhas de vários dos acontecimentos relatados, mostram o que muitas vezes é suprimido das ementas pedagógicas e fazem o leitor ter uma visão caleidoscópica dos eventos históricos.

Jorge Amado, que acompanhou o desenrolar da nossa incipiente nação em busca de um sistema democrático e, logo, a instauração de um regime análogo ao Fascismo, bem como o nascimento do Partido Comunista e as perseguições sofridas por todos que defendiam a igualdade classial, traça, ao longo das mais de mil páginas de sua narrativa, um panorama preciso das oscilações e consequências do Estado Novo, além de descrever a conjuntura internacional e como ela influenciou as decisões de Getúlio Vargas.

 No primeiro volume, “Os ásperos tempos”, vemos os contrastes entre as personagens que sofriam, em meados da década de trinta do século vinte, com a instauração do Estado Novo, e, assim, a poda dos direitos civis, e aqueles que se beneficiam com a situação, ou seja, os mais abastados:

Getúlio Vargas, com o apoio de generais e dos integralistas, dera um golpe de Estado, cercara os edifícios da Câmara e do Senado, demitira os governadores da Bahia, de Pernambuco e do Rio Grande do Sul, mantivera os demais governadores transformando-os em interventores dos seus Estados, interditara os partidos políticos, proclamara uma constituição baseada nas de Mussolini e Salazar e intitulara o regime instituído no país de “Estado Novo”, definindo-o como uma “democracia autoritária” (AMADO, 1980, p.141).

Conforme mostrado no enredo, os que tinham uma percepção mais acurada dos fatos, percebiam a bipolaridade de Vargas, suas alternâncias de interesses e parcerias: “engana os operários com leis trabalhistas […] trabalha com os americanos, mas ao mesmo tempo percebe a importância dos alemães e não lhes fecha as portas” (AMADO, 1980, p.146). Ou seja, ele disfarçara sua política ditatorial com a promulgação de algumas leis que diminuíam o sofrimento dos assalariados, entrementes praticava diplomacia com os estadunidenses e, para além disso, flertava com o Nazismo.

Antes disso, porém, favoreceu ao Fascismo, porque, enquanto ocorria a Guerra Civil Espanhola, que foi uma prévia da Segunda Guerra Mundial, em que muitos soldados voluntários do mundo todo se alistaram para combater a propagação de um regime desumano, Vargas se solidarizava com Francisco Franco, enviando-lhe café brasileiro. Isso acarretou em um grande movimento grevista por parte dos doqueiros do Porto de Santos, os quais se recusaram a embarcar as sacas presenteadas ao ditador espanhol.

No entanto, os grevistas foram duramente reprimidos, como podemos constatar no segundo tomo da trilogia nomenclaturado “Agonia da Noite”. Impedir o embarque da carga de café num navio alemão era crucial para diminuir o fortalecimento do Fascismo e do Nazismo, assim como a Grande Guerra e, por conseguinte, a Ditadura Estadonovista, como podemos ver na declaração da personagem:

O que era a guerra da Espanha? […] era uma guerra dos elementos fascistas e reacionários contra os trabalhadores, contra a República, contra um regime democrático. Era, ao mesmo tempo, uma guerra contra todos os trabalhadores do mundo. Ao lado de Franco lutavam os nazistas alemães e os fascistas italianos; aquilo que estavam tentando contra o povo espanhol, contra sua classe operária, o fariam, se obtivessem sucesso, contra outros povos, contra os trabalhadores de outros países, contra o povo brasileiro e os trabalhadores brasileiros. Os trabalhadores dos mais distantes países estavam mostrando por todos os meios sua solidariedade com os operários espanhóis, assim como a reação internacional se solidariza com Franco. Era a reação brasileira, os fazendeiros de café, os exploradores de operários, os patrões que enviavam aquele café a Franco. Nós, afirmou, somos pobres, não podemos enviar milhares de sacas de café aos nossos companheiros espanhóis. Mas temos outra maneira de lhes provar nossa solidariedade: não embarcando esse café, não carregando esse barco alemão, esse barco de Hitler, que o veio buscar. Os espanhóis disseram aos fascistas: NO PASARÁN. Cabe-nos ajudá-los a cumprir essa tarefa (AMADO, 1980, p.29).

Infelizmente as tentativas para exterminar os sistemas ditatoriais foram malogradas e, como o próprio título do volume declara, houve, por um longo tempo, “agonia da noite”, isto é, perseguições, torturas, massacres aos que se opunham e a supressão de todos os direitos que outrora foram prometidos aos menos favorecidos.

Na última parte da narrativa somos apresentados aos requintes de crueldade praticados contra os que não aceitavam as imposições desumanas do Estado Novo. Confesso que foi necessário dar um intervalo na leitura e tomar coragem para prosseguir devido às torturas escabrosas que são descritas. No entanto, são detalhes de suma importância para que o leitor conheça fragmentos históricos que são ocultos ou alterados e, sobretudo, pratique a empatia. Podemos ter uma noção da situação com o excerto abaixo:

Estavam diante de amargas constatações: a polícia, com as prisões de setembro, com a violência desenvolvida contra o movimento grevista, com os processos sucessivos, havia aplicado duros golpes no regional do Partido. Células inteiras tinham desaparecido nas fábricas, comitês de zona estavam desfalcados, a combatividade da massa caíra ante a brutalidade da reação. Ao mesmo tempo, o governo tentava consolidar o regime fascista imposto ao país com o golpe de 37, a infiltração imperialista se fazia mais forte, capitais americanos e alemães se apossavam das riquezas do país, Vargas tratava de comprar políticos e intelectuais com cargos e negociatas, a vida do povo se tornava mais difícil, a luta mais áspera. E eles eram apenas alguns milhares, homens por todo o país, perseguidos como ratos, ameaçados por todos os lados. E, no entanto, a marcha dos acontecimentos dependia sobretudo deles, do acerto de suas decisões, de cada pequeno grupo de três ou quatro homens que se reuniam pelas grandes cidades do Brasil (AMADO, 1980, p.94).

Para piorar, a invasão da França, mostrando o poder bélico nazista, e, principalmente, o Pacto germano-soviético de não-agressão, desiludiu aos que se motivavam com o panorama russo, tendo-o como modelo de sociedade igualitária. Sentiram-se enfraquecidos diante do avanço mundial do sistema ditatorial: “Após a queda de Paris, Vargas pronunciara um discurso a bordo de um navio de guerra sobre a política internacional. Era praticamente uma declaração de amor a Hitler” (AMADO, 1980, p.287).

Agora, que se passaram várias décadas desse conturbado panorama internacional, que envolveu Guerra Civil Espanhola, Fascismo espanhol e italiano, Nazismo, Segunda Guerra Mundial, invasão da França, pacto germano-soviético; e, no Brasil, ditadura do Estado Novo, alianças internacionais, greves e o massacre dos comunistas; podemos obter algumas conclusões da narrativa de Jorge Amado.

A primeira é que, apesar de quase cem anos dos acontecimentos mencionados, ainda impera a ideia errônea, propagada por aqueles que se favorecem com as inverdades, de que o Comunismo é uma ameaça e uma deturpação dos preceitos moralistas. Muito pelo contrário, pois seu lema é a liberdade, e, a despeito das nomenclaturas, pode ser considerado o ideal de todos aqueles que amam a humanidade e desejam padrões de vida satisfatórios a todos.

Outra constatação é que, muito embora todas as tentativas para acabar com esse ideal, nosso querido escritor baiano tinha razão, isto é, não há arma que o extermine:

Das ideias que são a sua razão de ser: a felicidade do homem sobre a terra, a criação de um mundo sem fome e sem dor. É por isso que ninguém jamais, nenhum chefe de polícia, nenhum Hitler, ninguém pode nos vencer. Porque nós amamos a humanidade, lutamos por ela, o homem é nosso capital mais precioso. Por isso nosso Partido é imortal e invencível, porque comunismo significa vida, elevação do ser humano. Ninguém os poderá aniquilar jamais (AMADO, 1980, p.358).

(AMADO, Jorge. Os subterrâneos da liberdade. 31 ed. Rio de Janeiro: Record, 1980).