Uma história de amor


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Houve um tempo em que parecia que um céu de felicidade pairava no ar

 

 

 

Em infindáveis horas de crepúsculo sentava-se na escada circular defronte a velha casa, absorta mirando o espaço, que em verde se transformava, à espera da lua, que grávida de luz, logo emergiria no horizonte além. Em infindáveis horas ficava a olhar a viagem celeste do astro iluminado envolto em nuvens. Mas seu pensamento por lá não se fixava. Enquanto mirava o céu, deslumbrada com suas eternas noites verdes, recordava as poucas horas ditosas que vivera com seu Amor.

 

 

 

Ela não sabe se hoje sente saudades das horas passadas à espera da lua ou do Amor que era ainda tão pujante dentro de seu peito.

 

 

 

Olha para o espaço onde a lua cheia deveria aparecer e vê apenas névoas, fumaça, luzes artificiais que lhe roubaram o verde do céu de outros tempos.

 

 

 

Imagina que já não pensa no Amor que um dia foi transformado em anjo e com suas asas feitas de poemas está peregrinando por espaços translúcidos muito além do mais além das galáxias conhecidas.

 

 

 

Infiltrou-se, no passar dos tempos, pelos mais variados enredos que a humanidade tenta encontrar, numa tentativa de menos sofrer com a saudade. Porque apenas a saudade restou.

 

 

 

Fora tão curto o tempo que tivera para estar a sós com seu Amor. Porque era um tempo tumultuado, um tempo de cortinas veladas, um tempo de olhares curiosos a perscrutar o mundo através de obscuras vidraças. Era um tempo de conversas sussurradas, um tempo de se apontar o dedo para aquilo que não se achasse digno de andar pelas praças e calçadas.

 

 

 

Mas outras coisas mais impediam o encontro com o Amor.

 

 

 

Porque houve um tempo em que o Amor morava nas montanhas distantes onde o inverno era carregado de gelo e vento cortante.

 

 

 

Porque o Amor tinha um espírito vagante e conturbado. Porque o Amor sofria com seus poemas enclausurados dentro de sua alma errante. Ele era todo harmonia, todo luz, todo paixão nas cartas diárias que escrevia para ela.

 

 

 

E ela era mais terra, mais chão. Não que fosse dura. Não que não fosse carregada de ternura. Mas quando estavam a sós o Amor não conseguia exprimir o que precisava dizer. O Amor só se realizava escrevendo. E ela não conseguia ver o que se passava dentro do espaço conturbado onde habitavam os pensamentos do Amor.

 

 

 

E vieram as discordâncias. Mesmo quando o Amor veio morar na mesma vila, numa tentativa de ficarem mais perto, as coisas não correram como planejavam.

 

 

 

Muitas luas, de todas as cores, de todos os matizes passaram-se e ela sente lágrimas quentes a escorrer face abaixo quando as luzes natalinas começam a brilhar nos jardins da cidade. Quando as melodias de Chopin ela ouve ao piano.

 

 

 

E então começa a reler aquelas cartas que o Amor lhe escrevia. Tentando entender nas linhas concretas e no abstracionismo das entrelinhas as poéticas mensagens de um amor que jamais poderia se concretizar plenamente.

 

 

 

Relembra os ciúmes, as insinuações que vagavam em torno e muitas palavras que ficaram apenas na intenção.

 

 

 

Relembra as cartas-poemas que o Amor lhe escrevia… E o Amor lhe dizia que era só o que ela queria… cartas… cartas cheias de poesia. E o Amor a lhe cobrar, sempre lhe dizer, em surdina e em frases entrecortadas. Que ela apenas amava o que ele lhe escrevia. Que ela só amava o Amor em teoria. E o Amor revoltava-se com aquilo que chamava de fixação que ela sentia pelo abstrato das coisas e dos seres.

 

 

 

Revoltava-se nos escritos que lhe enviava como se ela só quisesse um amor silencioso, sem mãos, sem olhos, sem voz, sem tremores, sem calor, sem corpo, enfim…

 

 

 

Mas um tempo chegou, em que não mais palavras duras, ditas ou escritas, ela e o Amor trocaram. Houve um tempo em que parecia que um céu de felicidade pairava no ar.

 

 

 

Palavras duras ficaram para trás. Tormentas ficaram para trás. O Amor, que era apenas um ruflar de poemas a flanar pela terra, andava feliz porque via um horizonte dourado para as suas aspirações.

 

 

 

Corria pela cidade, de um lado para outro, revolvendo céus e terra para envolver a todos num belo projeto de arte e cultura.

 

 

 

E nesta euforia o seu coração que há muito já vivia tumultuado, disparou demasiada e aceleradamente.

 

 

 

Num último hausto o Amor ainda pediu que o levassem até a velha casa onde ela morava. E num suspiro que veio do fundo mais fundo de seu ser ainda conseguiu lhe dizer que estava morrendo.

 

 

No caminho do hospital seu coração parou.

 

 

 

E ela ficou sozinha apenas com a saudade como companheira.

 

 

Tão cedo desta vida partira o seu Amor-poeta…

 

 

Poetas, precocemente, alçam voos para outras esferas distantes. Tristemente, sorriu ao lembrar que muito cedo da vida se despediram também dois espíritos que caminharam por um poético mundo. Frédéric Chopin, o poeta da música com suas baladas, estudos e prelúdios românticos. Castro Alves, com suas odes e seus poemas épicos.

 

 

 

Quando a vida já lhe parecia embaciada, quando a memória apenas lhe trazia momentos de outrora, quando seus membros já não mais lhe obedeciam, quando tudo em redor ficou turvo ela, sorrindo, ao mundo também disse adeus.

 

 

E, antes de partir, muito antes de partir, escrevera um breve desabafo, na tentativa de mitigar a dor que era insuportável.

 

 

“Difícil escrever sobre algo em especial quando o pensamento apenas se volta para outras esferas, para a saudade, para as coisas não vividas porque o tabu da intolerância cerceou o amor.

Mas a saudade de ti é uma coisa tão grande, tão impregnada em mim que séculos se passarão e ainda estarás aqui dentro, no meu âmago, murmurando as palavras todas que só tu sabias murmurar em teus escritos ímpares.

Mas alguma coisa que possa ser lida e que todos entendam eu preciso escrever…

Mas o meu divagar vagabundo pelas frases e palavras arrasta-me pelos assuntos que não tenham sido por mim partilhados e então eu fico rastejando esta caneta sobre o papel em busca de um tema que coadune o meu âmago com os fatos e as histórias de uma vida que eu pouco vivi.”





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