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fevereiro

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Uma carta-poema de Isis Maria

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No berço dorme a minha filha. Aqui, na escada de tantos degraus e tantas lembranças, o Amor

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Não, não foi a falta de inspiração para algo meu fazer transbordar de sonhos esta coluna.

Foi o encanto que de mim tomou conta ao ler entre os meus guardados esta carta de nossa poetisa Isis Maria Tack Baukat.

Porque foi em um setembro assim, há 48 anos, que nossa cidade conheceu as suas poesias ao ser lançado o livro “Aos Filhos de Éden.”

Amiga:

Nasceu quando eu nasci. Crescemos juntos para um adolescer que passou rápido demais. Eu trazia vultos de bonecas brincando no fundo dos olhos, ainda, quando ele se foi na urgência de fazer-se homem. Ele se foi. Ele, o meu amigo. E eu não soube nunca dizer que o amava. E nem soube nunca dizer adeus.

Hoje, neste aqui e neste agora silenciosos por causa da hora tardia ele voltou. Para o papo comprido que se guardou em dias incontáveis e que foi me encontrando igual na busca e igual na espera. Ele voltou para o contato antigo e morno de mãos amigas e universais, trazendo algumas certezas e um fundo vinco na testa por causa das indagações. Ele voltou para a celebração do Fraterno. Trouxe o coração nas mãos, para a partilha do que lhe foi dado colher. E o papo comprido se fez em compacta ternura.

Estou só, agora. Há pouco dormiu a meu lado o amigo maior. Não! Em suas mãos não há nenhuma estrela-guia. E não trouxe vestígios de nenhuma paz. Voltam, ao meu cérebro confuso e cansado as suas palavras todas num desfile variado.  Lembro o papo comprido. As coisas inesperadas ditas em vibrante aconchego.

— Amiga, eu fui o limo.

Porque ainda trago na garganta a convulsão de palavras limosas, impuras, querendo atrair os outros para a unidade do átomo, que é a dimensão do meu mundo nas horas de pequenez.

— É possível que tenhas sido limo. E do limo se faz o musgo, o musgo do tempo enredado que nos faz crescer para uma madurez bendita e necessária.

—Eu fui a pedra.

Porque me solidifiquei até a dureza de um mármore, de um granito, quando desertei da luta por medo da derrota. Eu fui a pedra, sim, amalgamada a outras pedras na extrema insignificância das coisas mortas (ou covardes) que restam à margem de todas as emoções e se calam, inúteis, sobre os beirais da vida.

– Mas… a pedra amalgamada a outras pedras poderá ser o refúgio, a casa, o abrigo. A…

— Ouve: Eu fui a espada.

Porque ainda agora há vestígios do sangue-irmão pelo meu corpo… e ouço a súplica de todas as súplicas quando me volto contra mim mesmo e escorro, só e sangue pela terra, numa urgência doída de redenção.

—Sim, tu fostes …

— Ouve. Deixa que eu fale. É preciso. Eu fui o submundo.

De tempo em tempo sorrio ainda o velho sorriso magoado de fera aprisionada. Trago fragmentos de mil ódios dentro do meu complexo sistema celular e lembro que coexisti na atmosfera pútrida e pestilenta de uma raça de botocudos, sem me integrar jamais. Eu fui o submundo, sim, porque retorno vezes sem conta ao velho esquema anatematizado e componho meus versos de pária.

— Eu fui o arrepio.

Porque nasci em toda as manhãs de esperma e sangue e denuncio o sexo como a pedra filosofal que temos e desconhecemos.

Eu fui o vício.

Trago do meu eu passado a febre e o desvio. Por que este cigarro bonitinho, século vinte, entre os dedos?

— Eu fui o mar.

O mar das águas vivas. O mar do sal. O mar que se joga contra as praias para voltar depressa a si mesmo. O mar do latejo, da linguagem muda das profundezas. O mar das idas e dos retornos. Da maresia. O Mar do amor. Da ferrugem, Do azul. Das conchas submersas. Eu fui o mar. Para um atentar contínuo contra o mundo.

— Eu fui o vento.

O vento, vento-varrido destes séculos todos de gerações a caminho. Eu fui o vento que ventou no asfalto e secou as lágrimas de todas as manhãs. O vento que sofreu sozinho o pecado solitário de chorar. Porque ainda vento ternuras e sopro a solidão para o encontro com outras solidões.

— Mas, sobretudo — Eu fui o canto.

O canto cheio. O canto calado ao meio. O canto de notas sonoras e… desafinadas. O canto criança. O canto através da garganta —que eu não sei de quem. Porque ainda passeio meu canto. Eu passeio o meu canto nas casas alugadas a baixo preço, nas repúblicas de estudantes pobres, nos mocambos de sub-humanos. Eu passeio o meu canto na rua operária, onde estão os bangalôs da cor da esperança.

Eu passeio o meu canto onde a boca faminta impede a fala, onde as danças lascívias são celebradas, onde o desespero se acorrenta aos mortais.

Eu passeio meu canto nas tardes bruscas, nas procuras de outras noites, nas esperanças de um bar. Eu passeio meu canto na mesa burguesa, onde se come o pão feito de trigo e sonhos. Eu passeio meu canto, sim. Por qualquer lugar. Por onde eu queira. Eu fui o canto!

—Ah! Eu fui o confessionário… 

O confessionário. Onde o justo inventava pecados para desfiar e o fariseu vai para ficar em silêncio.

Eu fui o Fariseu e o Templo da Justiça.

— Eu fui o amor.

O amor imenso. O amor demais.

— … e a esperança, que resiste a tudo.

Hoje, em minhas mãos não há nenhuma estrela-guia. Eu não trago milagres de nenhuma paz. Eu só resto neste amor quase desnudo, coberto de alguns trapos e algumas cicatrizes… neste apelo antigo… e nesta vontade louca de chorar. Não! Não há, hoje, em minhas mãos, nenhuma estrela-guia. Eu não trago milagres de nenhuma paz. Eu sou o resto nestes restos dos meus risos antigos e na memória bendita de alguns amigos e neste sonho hora a hora mais difícil de sonhar. Em minhas mãos… —olhe-as, amiga—! não há nenhuma estrela-guia. Nem vestígios de alguma paz. Eu só resto neste canto sussurrado, esquivo, nesta saudade ímpia, indefinida… e nesta distância cósmica impossível de encurtar.

Eu só resto na coexistência precária do meu amor com esse estranho amor dos outros —e coexistimos distâncias como as estrelas do céu. Eu só resto na minha poesia.

É… eu só resto na minha poesia. Com nenhum milagre. Com nenhuma estrela-guia. Mas com a certeza mais certa de que posso ser tanto quanto um ser pode ser.

—Perdoe se me calo agora, amor, depois de te ouvir tentando tanto se definir. Nada disso era preciso. Mas foi. Era preciso, não?

Logo depois ele dormia. Sentado. Depois de tanto tempo, dá a impressão de irreal aqui na escada a presença quase una de nós dois. Olho para as nossas mãos. Para as mãos dele. Grandes, ternas, mensageiras. Para as minhas mãos: dedos quietos que outrora pareciam meninos sem rumo, cientes de que seu mundo se achava em outro lugar.

Olho para as nossas mãos: entrelaçadas, acordando olhos tenros, infantis, repuxos de cirandas esquecidas.

No berço dorme a minha filha. Aqui, na escada de tantos degraus e tantas lembranças, o Amor.

O amor que veio cansado, em extremo abandono. Para falar. Para buscar a infância que não soube perder. O amor que não terá o beijo. Nem a lágrima. Nem mais a espera. Porque aprendi, neste exato momento, o adeus que eu não quisera dar.

Isis, em 22/11/76

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