Um ano em Boa Vista: conhecendo o Brasil e refletindo sobre a Sociologia


Prédio da UFRR/Divulgação

Para quem, como eu, sempre trabalhou fora do eixo do ensino superior público, as condições de trabalho numa universidade federal são excelentes

 

Walter Marcos Knaesel Birkner*

 

O ano de 2018 como professor visitante da UFRR – Universidade Federal de Roraima me proporcionou uma importante experiência de vida, profissional e antropológica.  Sou grato pela oportunidade que o Estado brasileiro me concedeu e procurei corresponder. Conheci pessoas valorosas, me relacionei com alunos, suas aspirações e incertezas, e confirmei minha hipótese acerca da Sociologia brasileira. Também convivi com venezuelanos, vendo suas dificuldades e admirando o bom humor com que travam a luta pela sobrevivência, vítimas de governos insanos que contam com a complacência de intelectuais brasileiros desvinculados dos interesses estratégicos do Brasil e descomprometidos com o futuro profissional de seus alunos.

 

 

Para quem, como eu, sempre trabalhou fora do eixo do ensino superior público, as condições de trabalho numa universidade federal são excelentes. É possível lecionar na graduação e no stricto sensu em condições ideais, lendo muito, desenvolvendo atividades de extensão e pesquisa, escrevendo e publicando artigos, sem qualquer obstáculo a isso. Difícil aceitar que um professor, nessas condições e bem pago pela Sociedade, não possa cumprir isso com folga e é curioso que alguns simplesmente não o façam. Amparam-se em justificativas espantosas como a falta de tempo ou até mesmo de uma surpreendente e paradoxal “inaptidão” à escrita, como quem parece crer nas vocações inatas, em detrimento do treino e da ética do trabalho.

 

 

Conheci o ex-reitor da UFRR, Professor Roberto Ramos, um pernambucano distinto, de fina estampa, que me deu a oportunidade de desenvolver trabalhos de extensão e pesquisa de campo com os alunos de Ciências Sociais, através do NUPEPA – Núcleo de Pesquisas Eleitorais da Amazônia, que este cientista político coordena com amor à arte. Também sou grato à amizade de dois catarinas da cepa no estado macuxí: do Professor Jaci Vieira, cuja autoridade moral e seus conselhos me ajudaram a pisar naquele chão. Igualmente, encontrei guarida conterrânea nas conversas com o Professor Carlos A. de S. Cardoso, cuja dedicação profissional pode gerar alguma saída aos problemas da falta de perspectiva profissional de futuros sociólogos roraimenses.

 

 

Pensando nesses jovens alunos de graduação, assim como nos mestrandos em Sociedade e Fronteira, não escondo minha preocupação com as ciências sociais. Existem alunos brilhantes com quem é possível aprender mais do que ensinar. Outros, mesmo não sendo brilhantes, demonstram seriedade e preocupação com o futuro e reconhecem o privilégio de estudarem gratuitamente. São pagos pela Sociedade que deles espera a retribuição devida, mesmo quando iludidos pelas narrativas sociológicas que os marginalizam no mercado de trabalho. Suas preocupações em comum estão relacionadas justamente ao campo de atuação profissional e é aqui que a porca torce o rabo. Em relação aos proto-sociólogos então, o rabo dá três voltas e faz um nó cego.

 

 

Desatar esse nó dependerá de professores honestos e com coragem, apoiados por alunos altruístas e corajosos, ainda que frágeis ante uma hierarquia docente que finge odiar o capitalismo e o difama tanto quanto a qualquer sentimento patriótico. Isso ficou expresso no 38º Congresso da ANDES, em Belém, janeiro que passou, pelos que entoavam a internacional socialista, denunciando o “entreguismo (sic) e o fascismo” do atual governo de “extrema direita”. Pra mim, essa é a chave simbólica a interpretar a crise da Sociologia brasileira. Minhas impressões se confirmam: se a hegemonia do pensamento sociológico nas universidades públicas é contra a economia de mercado, isso explica a ausência de perspectiva profissional dos alunos das ciências sociais.

 

 

Alunos vão às universidades a fim de ampliar seus horizontes. Não obstante, isso inclui suas vontades de realização na vida, no que as perspectivas de trabalho são o elemento fundamental e deveriam ser o compromisso prioritário de qualquer coordenação de curso, sem exceção. Entretanto, alunos de Ciências Sociais ainda são estimulados a crer que governos bolivarianos expressam alguma saída libertária à opressão capitalista, e que o socialismo será o reino dos sociólogos. É uma mentalidade da década de oitenta, a favor da “formação cidadã” e contra a educação profissionalizante. Como me disse um sábio homem em Boa Vista: esses docentes nunca deixaram de ser alunos e querem que os seus sejam eternos alunos também, só que sem os generosos empregos de seus mestres.

 

 

1968 intitula o importante livro do jornalista Zuenir Ventura. Numa invasão a um restaurante estudantil em Belém, um estudante foi morto pela Polícia Militar, gerando uma onda de protestos pelo País, que culminou no AI 5. É preciso respeitar os mortos e os sobreviventes daqueles anos de chumbo e não se menospreze seu sofrimento. Mas, hoje nas universidades, vários dos que ali apenas nasceram, parecem teatralizar a condição de herdeiros românticos dos heróis da resistência. Expressam a saudade de um tempo que talvez até quisessem ter vivido, com todos os riscos, pra além da tenra infância. E, por conta desse vazio existencial, tornaram-se paradoxalmente reacionários e maniqueístas, transmitindo esse banzo aos seus alunos. Para eles, 1968 nunca acabou.

 

 

A essa falácia nostálgica soma-se um liberalismo identitário de luta contra a misoginia, o racismo, o fascismo e a homofobia. Não duvido da importância dessas lutas, mas elas carregam duas contradições, além de um efeito tóxico. Primeiro, destroem o que restava de “consciência de classe”, elemento fundamental do socialismo. Segundo, ignoram que tais bandeiras surgem no terreno das democracias liberais, em convergência com as liberdades do mercado. Nunca proliferaram no socialismo real. E seu efeito tóxico está, como sugere o sociólogo inglês Frank Foredi, em condenar o estoicismo e a masculinidade, prejudicando relações, mimando pusilânimes e estigmatizando comportamentos tradicionais rotulados por essas narrativas.

 

 

Como já expliquei em artigo nesta Coluna, em 18 de novembro de 2018, intitulado “A masculinização da política”, essas narrativas identitárias contaminaram as eleições e a origem de sua construção discursiva e ideológica está justamente nos centros de ciências humanas. Nascem das leituras de professores, retroalimentados por informações dirigidas desde a internet, através da qual estamos todos “hackeados” e onde se constituem os grupos entrópicos dentro dos quais não há divergências ideológicas. Dali, vão para as salas de aulas, onde se produz um efeito multiplicador, depois se espalha pelos corredores por meio da “massa crítica” e volta às redes sociais completando o circuito da produção e difusão do conhecimento.

 

 

Nas palestras e debates, então: se alguém ousa questionar, lá vem os rótulos: homofóbico, misógino, homem branco, capitalista, machista, fascista, golpista etc. Criticar um governo socialista, denunciar os erros do governo Dilma ou questionar a infalibilidade de Lula, é inadmissível; criticar a presunção moral do PT, o cinismo de seus dirigentes e a perfídia contra a esquerda de verdade, é reprovável; apontar os dilemas e limites do Estado de bem estar, denunciar o patrimonialismo e o corporativismo estatais, é incômodo; defender a responsabilidade fiscal ou sugerir o debate sobre a previdência, é impensável; insinuar que nossa Constituição rousseauniana seja branda com os criminosos, é inadmissível. Defender a necessidade do desenvolvimento econômico? Terá sorte aquele que for apenas acusado de neoliberal.

 

 

Aliás, é espantoso que alunos de ciências sociais, em geral, não tenham sido estimulados à leitura de algum texto sobre o liberalismo, fato do que sou testemunho. Ninguém entre eles imagina que um pensador liberal conservador como E. Burke defendia, em pleno século XVIII, o direito dos homossexuais. Mas o significado de neoliberalismo todos conhecem. Numa palestra com o presidenciável Boulos, esse cidadão era facilmente compreendido ao responsabilizar o neoliberalismo e o imperialismo yankee sobre os problemas da Venezuela. É incrível o que a retórica sociológica conseguiu produzir e aonde fomos capazes de chegar com tanta sofisticação discursiva: à defesa cínica de governos antidemocráticos, repressores, corruptos e envolvidos com o narcotráfico. Vergonhoso.

 

 

 

Palavra de sociólogo: se algum brasileiro quiser uma opinião sobre o que acontece em Venezuela, não o pergunte indiscriminadamente a qualquer sociólogo. É claro que nem todo professor das humanidades partilha dessa “doença infantil”, assim como um eleitor de Bolsonaro não é necessariamente um homofóbico. Estou falando de uma minoria poderosa que, por algum tempo, ainda controlará o pensamento sociológico, antes que seja corroída pela própria incoerência e pela força sadia da juventude. Também é claro que qualquer cidadão honesto e informado é capaz de formular sua opinião. Porém, a atual Sociologia brasileira tem a resposta na ponta da língua, enquanto a realidade está diante do nariz e o método indutivo na lixeira da sala de aula.

 

 

Portanto, a opção de formular um juízo acerca da Venezuela não é perguntar a um sociólogo, tampouco a Roger Waters. É perguntar aos venezuelanos. Essa condição, Eu a tive: convivi com eles, perguntando sobre a situação. Em geral, são educados, humorados e dispostos. Alguns tem saudades de Chávez, mas todos condenam a insanidade de Maduro. Tive aulas de Venezuela com um prezado amigo Carlos Moreno. Saiu de seu País para fazer bicos em Boa Vista e enviar, quando conseguia, R$ 50,00 por semana ao pai, que tinha loja de materiais de construção e duas carretas. Atualmente, sem loja, caminhões e clientes, depende das remessas do filho para alimentar a família. É dos exemplos o menos dramático. Nada se compara a uma criança faminta.

 

 

Discordo tacitamente do movimento Escola sem Partido, pelas razões liberais que também já expus nesta Coluna, em artigo homônimo que pode ser acessado aqui. Mas as origens antitéticas desse movimento transitam pelos corredores dos centros e departamentos das Ciências Humanas, passando pelos sumários dos livros de iniciação à Sociologia (e de História também) recomendados ao ensino médio pelo MEC. Li os cinco livros didáticos recomendados para o período de 2015 a 2017. São bem escritos, mas revelam o desprezo pela economia, pelo empreendedorismo, e pela inovação. No geral, imputam os males da desigualdade ao modo de produção capitalista e sugerem a “mão visível” do Estado de bem-estar como solução, sem reconhecer seus limites e seus vícios.

 

 

Muito menos, se reconhece ali que a sustentação do bem-estar depende invariavelmente do desenvolvimento econômico. Daí, que toda a interpretação “crítica” ao liberalismo econômico chega às salas de aulas das escolas públicas e produz o triste vazio das perspectivas de inserção no mercado de trabalho. Na formação de alunos de Ciências Sociais e secundaristas prevalece por muito tempo a crítica simplista ao capitalismo. E, na ausência de uma abordagem imparcial sobre o liberalismo, além de uma despreocupação com o mercado de trabalho, a pergunta consequente disso será: afinal, para que serve a Sociologia? E se a resposta vier de sociólogos incapazes de denunciar o que o chavismo fez com os venezuelanos, não convencerá mais ninguém, e a Sociologia brasileira deixará de existir por inutilidade científica e profissional.

 

 

*Walter Marcos Knaessl Birkner é sociólogo

 





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