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dezembro

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2021

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Um anjo de mochila azul

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A deselegância dos estereótipos

Desde a leitura dos primeiros parágrafos do livro Um anjo de mochila azul, do humorista Diogo Almeida, me questionei: em que momento da História as professoras/professores passaram a ser motivo de chacota? Tornaram-se o estereótipo do desequilibrado, depressivo, endividado e desmotivado?

Essas indagações surgiram porque o enredo, entre tantos outros aspectos questionáveis, fortalece, incisivamente e indelicadamente, que praticamente todas as professoras do Ensino Fundamental tomam o medicamento Rivotril para suportar a “desgastante e insuportável rotina a que são submetidas” e, assim, as classifica como insanas: “A vantagem de ser professora é que contatos e referências de psiquiatras nunca faltam” (ALMEIDA, 2020, p.81). Ou, mais adiante: “O bom de ser professora é que os calmantes nunca faltam; sempre tem estoques e mais estoques” (ALMEIDA, 2020, p.238). E o autor se intitula comediante, como se houvesse possibilidade de se divertir com essa abordagem preconceituosa e limitada. Notem que, nesses exemplos, ao invés de enumerar vantagens positivas, como enaltecer a trajetória acadêmica dos profissionais da educação, os inúmeros livros lidos ao longo dos anos, as metodologias executados, entre outros atos intelectuais, ele direciona o leitor a acreditar e a caçoar da possiblidade de os professores serem mentalmente enfermos.

Então, para iniciar a exegese dessa narrativa contemporânea, vale destacar que nunca gostei de trabalhos que são denominados como comédia, seja no cinema, no teatro, na literatura, na música, etc. Salvo raras exceções, quando é chamado de humor uma trama muito bem articulada, que imbrica subentendidos linguísticos, históricos, literários, filosóficos…

Pensei nos possíveis motivos para essa aversão e, ao ler o mencionado livro e depois buscar pelas encenações ditas humorísticas que o autor faz acerca da vida dos professores, finalmente obtive a resposta para minha repulsa: a comédia, na grande maioria das vezes, é embasada na ridicularização de algo ou alguém, ou em um preconceito historicamente enraizado. Refleti também que há tantas campanhas contra bullying e comprovações científicas dos seus efeitos nocivos, que me admira muito o fato de alguém continuar se divertindo com isso.

Sobre o enredo, a despeito da personagem angelical e surreal que tenta ajudar a protagonista – a professora Francislena – e que traz uma carga onírica e pueril à narrativa, a constituição de toda atmosfera pedagógica desmerece a profissão dos educadores, como pode ser constatado no excerto abaixo:

Estou exausta, mereço algumas gotinhas de calmante. Já o cortei da minha vida e venho tentando viver sem esse tipo de auxílio químico, mas hoje eu realmente mereço. Antes do banho, tomo umas dez gotinhas de Rivotril – geralmente eu tomo quatro, mas decido fazer open bar. Tomo banho, lavo a cabeça e saio com ela repleta de condicionador. Eu esqueci de enxaguar o cabelo! E isso só dá mais abertura ao questionamento quanto à minha sanidade. Será que estou ficando louca? Além de ver alunos, será que vou começar a esquecer as coisas? Esse é o início do fim de toda professora? Talvez a loira do banheiro seja um espírito, apenas uma professora que foi ao banheiro e nunca mais voltou para a sala de aula (ALMEIDA, 2020, p.73).

Também pode ser atestado quando se relata que Francislena e suas amigas se reúnem e, ao interagirem com seu vizinho, ela declara: “Não liga para as minhas amigas, não. São todas professoras, tudo doida!” (ALMEIDA, 2020, p.128). Ou seja, mais uma vez reforçando o padrão negativo de que essas profissionais têm problemas mentais.

Ademais de salientar que não conseguem organizar suas próprias rotinas, pois: “[…] alguma coisa sempre dar errado é um karma de toda professora” (ALMEIDA, 2020, p.99). Inclusive não são aptas, segundo o autor, para administrar seus veículos, uma vez que, quando o da protagonista estraga e ela olvida que não havia renovado o seguro do mesmo, ele aproveita para desmerecê-la intelectualmente: “Eu, professora lesada, nem me atentei a isso, aí eles não puderam me atender” (ALMEIDA, 2020, p.130). É importante prestar atenção no vocábulo pejorativo utilizado, isto é, “lesada”.

O autor, ao longo do enredo, repete que as professoras, além de pobres e endividadas: “Falando em barato, eu preciso acelerar para pegar o cinema antes das quinze horas, por causa do desconto – professora está sempre em busca de promoções” (ALMEIDA, 2020, p.154); têm uma aparência desagradável que, segundo ele, é resultado da rotina laboral: “Porque a profissão de professora me gerou rugas antes do tempo. A profissão é tão estressante que tem estagiária cheia de rugas. Esse capirotos envelhecem a gente! Bota a Ana Hickmann como professora! Em pouco tempo ela vai parecer a Hebe Camargo pedagógica!” (ALMEIDA, 2020, p.142). Em outra ocasião, reforça o preconceito contra a aparência: “Chego à sala do financeiro e sou recebida por uma mulher […] muito bem vestida por sinal, claramente não é professora” (ALMEIDA, 2020, p.197). Também põe o caráter delas em xeque, quando declara que: “Se tem uma coisa que a professora desenvolve ao longo da vida é ser cara de pau e não ter muito respeito humano” (ALMEIDA, 2020, p.150).

Ainda poderia resumir minha análise sobre a desvalorização das professoras/professores presente na obra “Um anjo de mochila azul” apenas citando a seguinte frase: “Essa é uma das maiores alegrias de uma pessoa que pertence ao proletariado pedagógico: acordar tarde” (ALMEIDA, 2020, p.191). À princípio, parece ser uma frase inocente, com um tom cômico, mas, se considerarmos o contexto sócio-histórico, ela subestima o trabalho intelectualmente exigente do profissional da educação ao declará-lo pertencente ao “proletariado”, uma vez que esta palavra designa aquele que exerce um serviço repetitivo e escassamente remunerado. Assim, desqualifica todo o preparo metodológico, todas as teorias pedagógicas e linguísticas, os aperfeiçoamentos, as titulações, os planejamentos, e assim por diante.

Obviamente o enredo é fictício e, dessa forma, o autor tem liberdade para compô-lo como desejar. No entanto, os analistas de textos têm a função de trazer à luz os subentendidos, e o que está nas entrelinhas dessa história, sendo disfarçada de comédia, é a desvalorização dos professores/professoras a partir da escolha vocabular e da composição da protagonista e de suas amigas, que são retratadas como profissionais lunáticas, conforme se constata nos exemplos mencionados.

De todo modo, a leitura de qualquer obra é sempre válida, mesmo que seja para rechaçá-la, e, nesse caso, objetivar o enfraquecimento dos estereótipos que tenta propagar.

(ALMEIDA, Diogo. Um anjo de mochila azul. São Paulo: Novo Século Editora, 2020).