quarta-feira, junho 23, 2021

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Tributo à poetisa Sueli Meister

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Aos Filhos do Éden

 

Eu a conheci menina ainda a andar pelas ruas da cidade, quase sempre com uma rosa em suas mãos.

 

 

Um dia ela me entregou uma rosa. Que emoldurou com seu eterno silencioso sorriso amigo.

 

 

Foi numa tarde do mês de agosto de mil e novecentos e setenta e três. A tarde em que ela chegou em meu consultório com um pedido singular.

 

 

 

Colocou em minhas mãos um livro. “Aos Filhos do Éden” (*). Um título que já nos leva às esferas azuis. Disse-me que algumas amigas, junto com ela, colocaram nele alguns de seus sonhos feito poemas em versos, alguns de seus sonhos feito poemas em prosa.

 

 

 

E a menina chegou naquela tarde ao meu canto da praça, com seus belos grandes olhos abertos e na humildade do seu jeito de ser pediu-me que o lesse e, se possível, se eu julgasse, se desse, se eu pudesse, que escrevesse algumas linhas sobre o livro naquela coluna minha do nosso velho Barriga Verde.

 

 

 

“… se for possível, se você julgar, se der, se você puder…”

 

 

 

 

Algumas tardes depois ao meu recanto ela retorna. Com um exemplar do nosso jornal e com olhos marejados, a boca escondendo um sorriso emocionado, balbucia um muito obrigada e me abraça.

 

 

 

Obrigada, Sueli Meister, pelo presente e presença daquela tarde e pela amizade que perdurou.

 

 

 

“Aos Filhos do Eden” é uma coletânea de poemas em verso e prosa que foi escrito pelas poetisas canoinhenses Glaucia Helena Natividade Seleme, Sueli Meister, Sônia Léa Coutinho Pieczarcka e Isis Maria Baukat em 1973. Ilustrado pelo artista plástico José Ganem Filho.

 

 

 

E um dia, em minha coluna, aqui no JMais, reprisei o velho texto da época. De onde pinço alguns fragmentos.

 

 

 

“Aos heróis da vida, não da guerra…

Aos débeis mentais que os lúcidos fizeram…

Aos pobres em cultura, mas ricos em amor…

Aos criminosos que a lei obrigou…

Aos mendigos que os ricos tornaram…

Aos fracos que os fortes fizeram…

Aos retardados que os inteligentes construíram…

 

dedicamos nosso livro,

como pequena compensação

aos seus infortúnios”.

 

 

 

 

“Este é o início de um livro em Branco e Preto.

 

Profundo, agressivo, poético e real.

 

A dedicatória e o conteúdo.

 

 

 

 

No abstratismo de Sueli Meister que vê ser o amor a “réstia de esperança neste mundo imundo”.

 

 

 

E aquele texto todo fez parte do livro “O Meu Lugar”.

 

 

 

Em dia muito especial recebo a visita de minha amiga Sueli. Havia deixado seu rincão encantado entre riachos de seixos rolados e verdejantes campinas para retornar aos seus pagos de infância. Sueli morava em bela chácara, nos arredores de uma pequena cidade na região de Campinas, no estado de São Paulo. Vivia em meio às suas flores, suas plantas e às vicejantes árvores carregadas de passarinhos. Cujo chilrear era o seu despertador de todas as manhãs.

 

 

 

Foi uma tarde para rememorarmos nossos antigos saraus na velha casa branca das margens do Arroio Monjolo. Casa com paredes impregnadas de poesia dos tempos que a nossa poetisa maior, Isis Maria Baukat, envolvia em seu entorno uma plêiade de amigos que às mais puras artes se dedicavam.

 

 

 

E foi naquela tarde que mais uma vez vi seus olhos inundados de lágrimas que se derramavam por sua face, em meio àquele místico sorriso.

 

 

 

Foi o instante em que ela lia em “O Meu Lugar” o texto que falava sobre “Aos Filhos do Eden”.

 

 

 

Sueli Meister amava as planícies das margens dos rios amazônicos. E seus misteriosos encantos. Sentia-se atraída pelo colorido de sua flora e pelo contágio de seus nativos habitantes. Sempre levantou sua voz em defesa dos povos da floresta.

 

 

 

Continuou, em silencio e em surdina, a sonhar com sua poesia. Versos nostálgicos que, em conta-gotas, derramava pelas redes sociais.  Entre muitos, pincei este de abril do ano passado:

 

 

 

                                    Um dia como outro qualquer

                                    Um dia tão único, tão singular…

                                    Como outro qualquer.

 

                                    Todas as dores no corpo

                                    Todas as dores na alma

                                    Um dia como outro qualquer.

 

                                    Mozart…Chopin…

                                    Meu amado Schubert…

                                    e as valsas de Strauss

                                    que faziam flutuar…

                                    Tocam para ninguém.

 

                                    Como parte de um dia qualquer.

                                    Não há horizonte

                                    Não há norte

                                    Não há sul.

 

                                    O sol a pino, não sabe onde ir

                                    Confuso, sente frio

                                    Um frio que vem de dentro….

                                    Não é um dia qualquer.

 

Entre tantos de “Aos Filhos do Eden”:

 

 

 

 

                                    Uma estrela já morreu

 

 

                                    Ano 2.000

As máquinas pensam

                                    … procuro amigos

                                    busco a poesia de uma estrela

 

                                    Ano 2.000

                                    as cifras, os números, as técnicas

                                    … busco a vida

                                    tenho sonhos, ilusões…

                                    temo decifrar o POR QUÊ

 

                                    Ano 2.000 e 6 meses

                                    Desfile de robôs — humanos

                                     humanos — robôs

                                    …começo a sentir sua influência

                                    mas, ainda luto por minha estrela

 

                                    Ano 2.001

                                    as cifras, números, técnicas, matérias

                                    … tomaram conta de mim

                                        Minha estrela morreu…

 

 

 

 

Na última segunda-feira, dia 18 de janeiro, Sueli Meister encontrou sua estrela mais bela e mais refulgente entre as infinitas que brilham além das nuvens.

 

 

(*) “Aos Filhos do Éden”.
Canoinhas/1973.

 

 

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