Tempos de cultura em Canoinhas


Salão Metzger existe e funciona até hoje/Fátima Santos

Houve ocasiões em que belos espetáculos foram apresentados pelas salas de nossa região

 

 

 

Remotos vestígios, dos mais antigos relatos, da história do mundo, asseguram-nos que o ser humano sempre necessitou de momentos de lazer para o descanso da mente, para o descanso do corpo.

 

 

Encenações de diálogos entre figurantes, em arenas e palcos das mais variadas concepções que a imaginação humana pudesse conceber, fizeram o gáudio das pessoas.

 

 

 

E então nasceram os teatros. Dramas e comédias espalharam-se por tablados e estrados improvisados no início dos tempos e arquitetonicamente projetados no decorrer dos dias.

 

 

 

Artistas famosos, como Leonardo Da Vinci, eram chamados para construir cenários mirabolantes, onde peças famosas eram encenadas, para embevecer a nobreza.

 

 

 

Antes do aparecimento do cinema, teatros multiplicavam-se por todos os espaços habitados do planeta. Palcos móveis, transportados por carroções, invadiam cidades do interior mais interior. Corriam pelas aldeias incrustadas entre montanhas disseminadas pela Europa e pela Ásia. Pelos recantos mais a oeste das Américas. Pelas planuras, desertos e florestas africanas. E em barcos por todas as ilhas habitadas da Oceania.

 

 

 

Das atrações circenses, sempre constava uma peça teatral. Havia até muitos circos chamados de Circo-Teatros, porque apenas peças teatrais eram apresentadas. Sempre em palcos muito bem montados, com estupendos cenários.

 

 

 

 

Havia um espaço vazio, no centro de Canoinhas, defronte ao Hotel Scholze, local onde depois foi construído o antigo Banco do Brasil, que já foi sede de nossa prefeitura e do antigo Banco de nosso estado de Santa Catarina, onde os circos ─ e parques também ─ eram armados.

 

 

 

Lembro-me de uma peça, apresentada por um destes Circos-Teatro, que fez a plateia, em prantos, deixar o espaço que se estendia sob a imensa lona. De autoria de Antenor Pimenta, o drama “… E o céu uniu dois corações”, fora apresentado de uma forma tão real, tão natural, que nos parecia estar sendo mostrada dentro de uma sala, com pessoas reais, e não com personagens, e nem no palco de um circo-teatro. Atores e atrizes inigualáveis. Este drama ainda é apresentado em algumas cidades. Não sei se em circos.

 

 

 

Em nossa vila, nossa sui generis Marcílio Dias, também eram apresentadas muitas atrações, tendo por local o palco do Salão Metzger. Não sei se algum melodrama foi ali exibido. Lembro-me de um casal de comediantes, que também cantava músicas populares, ter lá se apresentado. Não me lembro bem dos nomes. Mas ficou-me na memória que teriam sido Nhô Belarmino e Nhá Gabriela, casal que fez muito sucesso na capital das Araucárias e pelo Brasil.

 

 

 

Orlando Berti Rodrigues, primo nosso, exímio tocador de violão, piadista da própria vida, boêmio inveterado, fazia todo mundo rir a seu redor pelos improvisos de suas impagáveis tiradas. Ferroviário, morava em Curitiba. E tanto o incentivaram que ele começou a mostrar sua arte pelos palcos por onde andava. Muitas vezes veio passar as férias em nossa casa. E no Salão Metzger mostrou ao público, por múltiplas vezes, as facetas de várias personagens interpretadas por ele. Lotava a plateia em cada espetáculo.

 

 

 

Apresentou-se também no Cineteatro Operário, em Canoinhas, atendendo ao pedido dos fãs que adquirira por aqui. Continuou vindo por alguns anos ainda, enquanto a sua saúde permitia. Até o dia em que suas pernas fraquejaram e nunca mais foi a lugar algum.

 

 

 

O Cineteatro Operário viveu dias de glória. Não só de companhias que vinham de fora. Tínhamos grupos de teatro de nossa terra, sim! Além das apresentações extraordinárias dos estudantes e professoras do Grupo Escolar “Almirante Barroso” e do Colégio “Sagrado Coração de Jesus”.

 

 

 

Certa ocasião o ecônomo do Cineteatro, que era bom de prosa e de persuasão fez um alarde e uma propaganda tão grande sobre uma companhia de teatro que nos daria a honra de passar por aqui, a fim de apresentar uma peça dramática, acompanhada de músicas maravilhosas. Acho que até ele acreditou! Ingressos esgotados. Improvisaram-se cadeiras com os bares vizinhos, para que todo mundo pudesse assistir, confortavelmente sentado, ao ímpar espetáculo.

 

 

 

Foi um tal de trajes sociais saírem dos guarda-roupas. Usar terno e gravata, para os homens, já era algo habitual naquela época. Mas a noite pedia aqueles feitos com a melhor casimira. Casacos de pele, aromatizados com naftalina, desfilaram a esmo, pela cidade, naquela noite.

 

 

 

Enfim, abrem-se as cortinas do palco de nosso teatro. E aparecem duas pessoas a encenar um diálogo, com palavras mal pronunciadas, em terrível interpretação. Cantaram alguma coisa, meio desafinadamente, acompanhadas por um violão mal solado. A grande companhia era formada apenas por aquele casal de atores. Que cantava também. Segundo comentários da época, não serviam nem para se apresentar em circos mambembes falidos.

 

 

 

Mas houve ocasiões em que belos espetáculos foram apresentados pelas salas de nossa região.

 

 

 

No tempo em que eu estudava em Curitiba, acompanhei, muitas vezes, os meus amigos do Teatro do Estudante do Paraná, em suas apresentações. Mas não eram somente eles que despontavam na arte, por lá, naquele tempo. Havia boas companhias. Dentre elas a de Ari Fontoura. Ari Fontoura, que também era cronista das artes cênicas, creio que, no jornal Diário do Paraná.

 

 

 

 

As melhores companhias do Rio de Janeiro e de São Paulo, seguidamente, apresentavam-se em Curitiba. Foi assim que pude ver, de perto, a ainda jovem Fernanda Montenegro, como atriz coadjuvante, em uma peça com Cacilda Becker. Cacilda Becker, inigualável, em “Pega Fogo” (Poil de Carotte) e em tantas outras. Com Walmor Chagas.

 

 

 

Eu morava em um prédio, no centro de Curitiba, na rua José Loureiro. No térreo havia um restaurante, que ficava aberto até de madrugada. Onde artistas e espectadores podiam fazer uma bela refeição após os espetáculos. Às vezes eu lá ia, tarde da noite, em busca de algo para comermos, enquanto nos preparávamos para as provas. Em uma destas noites, lá encontro Cacilda e Walmor. E quem diz que eu logo subiria com o prato para o nosso apartamento, dois andares acima… A demora foi tanta que minhas colegas vieram atrás de mim para saber o que havia acontecido. E a rodinha do papo aumentou… Noite memorável. Ainda bem que a prova não era no dia seguinte.

 

 

 

Assistir a uma peça de teatro é uma fascinação. É o quase se participar das cenas. Os atores estão ali, ao vivo. Sente-se a sua respiração.

 

 

 

Lembro-me, certa vez, quando, em um teatro do Rio de Janeiro, assisti Tônia Carrero em “Casa de Bonecas”, de Ibsen. Ela solta um desesperado uivo e sente-se as suas lágrimas, verdadeiras lágrimas, a escorrer, enquanto em um momento de ira, de sua boca a saliva escorre…

 

 

 

Também, no Rio de Janeiro, assisti a Fernanda Montenegro contracenar com Renata Sorrah em “Lágrimas amargas de Petra von Kant”, de Fassbinder. Não há como qualificar a interpretação destas duas figuras sagradas da arte. Magníficas, ímpares, inigualáveis…

 

 

 

Não, não há comparação em se ver, ao vivo, os atores e atrizes em um palco, sentindo sua respiração, vendo suas lágrimas reais, seus eflúvios de desespero.

 

 

 

“Rasga Coração”, de Oduvaldo Vianna Filho, tenha sido, talvez, a peça que mais fundo tenha ficado bem dentro de meu ser. Ver Raul Cortez, fazendo um personagem que ficava, por longos minutos, dependurado em um pau de arara, sendo torturado, assim, ao vivo, em uma das cenas, foi o clímax. Foi de rasgar a alma.

 

 

 

Dramas de Nelson Rodrigues. A arte de Maria Della Costa e Sandro Polloni. Era o tempo das grandes encenações, nos melhores palcos de todo o Brasil.

 

 

 

Não mais teatros agora. Salas foram fechadas. Patrocínios escassos. Plateias diminutas. Enlatados em forma de filmes, em forma de seriados, em forma de novelas televisivas, substituíram os grandes espetáculos teatrais. Com grandes talentos a interpretar dramas intensos, sem dúvida!

 

 

 

Mas sinto falta do calor que emana dos palcos. Sinto falta daquele burburinho após o término do espetáculo. Da corrida aos camarins, para um papo amigo com os artistas. Sim, porque após assistirmos suas interpretações no palco, parece-nos que eles já fazem parte de nossa vida, que fazem parte de nosso convívio diário.

 

 

 

Um palco nu… cortinas fechadas… uma plateia vazia…





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