Só poemas eu quisera escrever…

De La edad de la ira, de Oswaldo Guayasamín/Reprodução

Adair Dittrich escreve sobre as consequências do golpe militar no Brasil que neste domingo, 31, completa 55 anos

 

 

Estou envolta em um mar de palavras abstratas que se perdem nos longes dos tempos. Tentando encontrar aquelas doces e ternas que eu gostaria de deixar impregnadas nestas brancas, suaves, ingênuas folhas que à minha frente se avolumam.


 

 

Quisera escrever sobre as franjas farfalhantes que pendem das palmeiras e tangem ao vento da beira-mar como se violinos ciganos tangessem.

 

 

Quisera escrever sobre as palmeiras que se estendem pelos campos cobrindo com a graça de seus galhos ondulantes a lua que brilha no horizonte quando nasce grávida de luz.

 

 

Sobre tantas coisas poéticas mais eu sonhava escrever. Escrever sobre a meiguice, ternura, inocência e pureza da criança envolta em andrajos a brinca na soleira do casebre onde mora, sorrindo para o mundo, em meio ao lodo.

 

 

Eu quisera escrever sobre as tardes em que um fogo surge no horizonte para nos dizer que o sol nunca se vai sem um grandioso espetáculo de adeus.

 

 

Sonhar com o teclado de um piano que, de Chopin, rumoreja “Tristesse” ou com uma Camerata tangendo, de Tchaikovski, a Serenata para Cordas.

 

 

Divagações em torno de tantos temas de amor, de tantas histórias de glória e o fio da meada a perder-se no horizonte seguindo a trilha do sol que se esvai.

 

 

Porque o cinza de um tempo vivido veio empanar todos os meus pensamentos.

 

 

Porque as lembranças de um tempo que eu quisera não mais lembrar voltam agora como a fúria de um tornado, de um ciclone, de um tufão devastador e levam pelos ares toda a poesia há tanto armazenada.

 

 

Porque as lembranças de um tempo que eu quisera não mais lembrar voltam agora como as lavas de um vulcão que do alto da montanha escorrem e como línguas de fogo queimam a verdejante vastidão por onde passam, abrasam ferros, derretem o aço e em cinzas transformam um mundo que era belo.

 

 

Saber que este curto espaço de tempo vivido desde o dia em que pensei vibrar por uma liberdade que entre nós retornara está prestes a desaparecer.

 

 

Saber que este curto espaço de tempo talvez não tenha tempo de retornar para alegrar o tempo que me separa daquele horizonte para onde caminho e que dia a dia mais perto de mim se aproxima.

 

 

Saber que não sentirei mais a alegria e não encontrarei mais a felicidade espargindo suas asas pelos caminhos que trilharei.

 

 

 

Saber que o horror pelo qual passamos continua ainda, para muitos, a ser algo como um pesadelo inventado por vagabundos.

 

 

Saber, com extrema tristeza, que a luta para que os tempos de liberdade retornassem estão sendo considerados episódios apenas de quem não trabalhava, de quem não queria obedecer, de quem conta histórias dolorosas como se fossem contos da carochinha.

 

 

Saber que milhares de delações, não comprovadas e nem documentadas, bastavam para levar inocentes a tripudiantes inquéritos e às mais escabrosas torturas nas masmorras da ditadura.

 

 



Saber que o delator poderia ser teu vizinho, teu colega de serviço, a pessoa com quem compartilhavas o cafezinho ou o pão do intervalo.

 

 

Saber que os teus passos eram vigiados e as tuas palavras distorcidas por aqueles que tinham necessidade de bajular o poder e com ele se locupletar com as benesses de um butim dividido…

 

 

Saber que o medo sondava… Que o medo fazia com que aqueles que a teu lado viviam não movessem uma palha a teu favor…

 

 

Saber que o sonho de muitos agora é o retorno para uma lei impingida com coturnos e botinas, com fuzis e metralhadoras, com paus de arara e choques elétricos, com surras de esguichos de água expelidos a jato.

 

 

Não consigo entender como este tempo há tanto tempo sonhado como um tempo de luz está cegando os olhos, está cegando as mentes de tantas pessoas que na lucidez deveriam estar.

 

 

Estou chorando, sim, estou chorando porque eu não acreditava que os meus irmãos de fé, os meus irmãos que acreditaram em um mundo melhor, que imaginavam comigo o raiar de novos dias, tenham se imiscuído junto àqueles que só pautam suas vidas passando com seus solados de ferro por cima dos que tentam construir.

 

 

Pasma estou a ver e a ler os espasmos da truculência armada para comemorar o início dos tempos que mancharam de sangue a nossa amada terra. Pasma estou a ver os aplausos para que loas se levantem em torno do nome daqueles que se banqueteavam e em orgasmos múltiplos se entregavam vendo o sangue a escorrer de feridas abertas em faces de dor.

 

 

E assim Castro Alves, entre lágrimas, surge-me na mente. E eu o vejo sobre as masmorras declamando seus versos de protestos.

 

 

“Era um sonho dantesco… o tombadilho
que das luzernas avermelha o brilho,

em sangue a se banhar.

Tinir de ferros… estalar de açoite…
Legiões de homens negros como a noite,

Horrendos a dançar…”

 

Tombadilho sem navio. Imaginário tombadilho de aeronaves. De onde viventes humanos foram despejados a fim de, para sempre, dormir no fundo do mar.

 

 

Tombadilho lotado de crianças sequestradas, de crianças torturadas, de olhares esbugalhados, de pais e mães endoidecidos.

 

 

Tombadilho em plena selva onde jovens foram assassinados a sangue frio.

Tombadilho de infectos porões com jovens pendurados pela boca em cabides de ferro sujo.

Tombadilho de infectos porões com vísceras dilaceradas com a força de impetuosos jorros de água…

 

 

Tombadilho onde vaginas serviam de receptáculos para imundos ratos vivos. Onde fios de metal eram colocados em contato com as mucosas para maior efetividade de um potencial choque elétrico. Onde…

 

 

 

Não, por favor, “Senhor Deus!” — como Castro Alves eu pergunto — “em que mundos em que estrelas tu te escondes, embuçado nos céus?”não permita jamais que ao tempo dos horrores, que ao tempo dos anos cinzentos retorne a nossa amada Pátria.

 

 

Somente poemas eu quisera escrever… Somente poemas de amor… poemas sobre paisagens fulgurantes…. poemas…

 

 

Mas o poema da esperança renasce em cada aurora e esta esperança unida à esperança da multidão que me rodeia fará com que a razão unida ao coração velará pelo nosso sono. E os pesadelos não mais nos atormentarão a alma. E apenas os sonhos bons nos acalentarão.

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