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Quando as políticas públicas impedem o desenvolvimento: o descaso com a Amazônia

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Só nas áreas de conservação foram desmatados quase 34.000 ha entre agosto de 2020 e maio de 2021

O mês de julho de 2021 contabiliza pelo terceiro ano seguido, tendência de alta nas queimadas da Amazônia. No acumulado do ano, a área desmatada já chega a 3.610 km2, número 17,1% maior que o mesmo período de 2020. Só para esclarecer 1 km2 equivale a 100 hectares de área. Para mim, pensar em hectares facilita a visualização do tamanho da destruição que as atuais “políticas ambientais” tem incansavelmente produzido no país, especialmente na região Norte.

As medições oficiais são feitas de agosto de um ano até julho do ano seguinte. Só nas áreas de conservação (que, pasmem, deveriam ser conservadas) foram desmatados quase 34.000 ha entre agosto de 2020 e maio de 2021. Esse volume é 40% superior ao verificado entre agosto de 2019 e maio de 2020.

Os números chegam em um momento crítico para o meio ambiente brasileiro, com uma temporada intensa de seca, um novo ministro do Meio Ambiente, Joaquim Alvaro Leite, que ao que tudo indica, seguirá à risca a agenda de destruição de Salles, e a insistência do governo federal em manter uma operação cara e comprovadamente ineficaz para lidar com o problema, enviando tropas militares, para combater o desmatamento. Esse tipo de operação vem, há dois anos, mobilizando recursos públicos, muitas vezes superiores ao orçamento anual do Ibama para fiscalização. É no mínimo questionável uma política ambiental que extingue ou enfraquece órgãos ambientais como ICMBIO,  Ibama e Polícia Ambiental para “economizar” e depois gasta-se a mesma quantia ou mais em estratégias temporárias e de baixa eficiência no combate ao desmatamento.

Esses tristes recordes ano após ano, os recursos mal gastos, o desmonte da fiscalização especializada, o atropelo da legislação ambiental pela “boiada” de Salles (e agora de Leite), e a leniência com atividades e grupos responsáveis pela destruição da floresta nada mais são do que reflexo da única visão que domina o atual governo: a de que desmatar é visto como sinônimo de ocupar, o que é central para a defesa do ativo estratégico mais importante do Brasil. Essa visão de mundo é forte dentro do governo Bolsonaro e contamina praticamente todas as políticas federais para a Amazônia.

Essa visão é aliada ao grande problema dos fortes interesses econômicos que se colocam como mais relevantes do que o interesse da conservação.  Em pleno século XXI, ainda somos obrigados a justificar a conservação da floresta apenas como um ganho econômico, sem que haja nem espaço para abordar o valor que a floresta tem nas suas múltiplas dimensões.

Quem conhece a Amazônia, confirma na hora que é uma região que precisa ter um planejamento diferenciado. Toda aquela água, aquela floresta, a convivência dos povos que vivem lá há centenas de anos, é quase um outro mundo. Achar que transformar todo esse tesouro em pasto, garimpo e lavoura como estratégia de “ocupar” a região é de uma ignorância indescritível. E o pior, para beneficiar apenas pequenos grupos e por tempos limitados, até que os recursos naturais se esgotem.

 A resposta para a conservação e o desenvolvimento da Amazônia está dentro do seu próprio território. Seu desenvolvimento a partir de suas imensas riquezas naturais tem sido discutido e implantado há mais de 30 anos. O caso do açaí é um case de sucesso que comprova isso, assim como a castanha e inúmeros produtos da floresta que atendem mercados mais exigentes. Mas, isso demanda apoio governamental e investimentos por um longo tempo.

E, assim como hoje são apoiados os grileiros, garimpeiros e grandes fazendeiros, que irão deixar um rastro de concentração de riquezas e de destruição, é possível e viável inverter a lógica e o governo apoiar cultivos regionais, pesquisas em sistemas produtivos, bioeconomia, prospecções para indústrias de beleza e de saúde, investimento em tecnologia, turismo, pesca e em um sem fim de atividades que podem gerar bilhões com toda aquela floresta e água conservadas e com uma população local se apropriando desse desenvolvimento.

Cabe a cada um de nós brasileiros lembrar o governo disso. Chega de desmatamento!