domingo, junho 20, 2021

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Professora Arly – Amor ao que faz

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Havia muito prazer em ensinar, pois os alunos respeitavam sim os professores

 

Alvaro Kadal*

 

 

Mais um dia de aula na Escola Municipal Lauro Sodré, em Del Castilho, Rio de Janeiro. O ano é 1965. Após a formatura diária, naquele pátio imenso, entramos na sala e respeitosamente nos sentamos enquanto a Professora Arly prepara mais um dia de aula pra turminha de 5a série do primário….

 

 

 

No ano seguinte, se passássemos de ano, estaríamos na 6ª série, também chamada de Admissão, que era quase um pré-vestibular para conseguirmos passar no concurso para o Ginasial (4ª série do primeiro grau de hoje).

 

 

 

 

Todas as crianças sabiam ler e escrever muito bem. Matemática era ensinada e bem aprendida. Curtíamos os livros “A Mágica do Saber”. que traziam narrativas de Monteiro Lobato, História do Brasil, Linguagem etc. Havia muito prazer em ensinar, pois os alunos respeitavam sim os professores, que também se empenhavam em dar o melhor possível para a galerinha. Recursos técnicos e educacionais reduzidos porém muito capricho no que era feito.

 

 

 

E lá vinham as aulas, seguidas das brincadeiras e da merenda caprichada… Arroz com peixe, macarrão com salsicha, aquele leite branco em canecas de louça gigantes, um quase chocolate em pó, sagu, feijão com carne entre outros.

 

 

 

Muito bem. Passamos de ano e, após a admissão fomos para outros colégios cursar o Ginásio. Nunca mais vi Dona Arly (ninguém chamava professora de tia), mas seu carinho e seu capricho ficaram gravados na memória do menino que tornou-se rapaz, trabalhador, pai e homem feito. Sempre ela na lembrança, sempre a querida mestra.

 

 

 

Passados 35 anos, já no ano 2.000, tomo coragem, ignoro a vergonha de pagar mico, resolvo voltar ao Colégio e ver que destino teve minha professorinha. Entro no portão de antes e percebo que a escola me parece um pouco menor agora. Os muros não são tão altos como eu os via e o pátio não é tão imenso assim… Os bebedouros, os mesmos de 1965, agora reformados, são tão baixinhos que acho graça da dificuldade que tinha para alcançá-los nas primeiras séries. O refeitório está no mesmo local e as lembranças retornam…

 

 

 

 

Após me apresentar na secretaria, sendo muito bem recebido pelos funcionários, pergunto se alguém ali, por acaso já havia ouvido falar de uma antiga professora chamada Arly. A jovem diretora me pergunta:

 

 

 

 

– O senhor se refere à professora Arly Ferreira ?

 

 

– Sim! respondo entre surpreso, emocionado e ansioso. Ela mesmo. Lembrei agora do sobrenome. E, continuo, sabe o que aconteceu com ela ?.

 

 

 

A diretora não me responde olha pro inspetor ao lado, sorri e diz:

 

 

 

– E ela mesmo. Fale pra ele o que houve!

 

 

 

 

O rapaz então me diz que Dona Arly havia cumprido sua jornada de trabalho, toda naquela mesma escola e havia se aposentado alguns anos atrás…. Pergunto se sabe da situação atual dela e ele ri:

 

 

– A professora Arly, mesmo aposentada, participou de outro concurso público, passou e voltou a dar aulas!

 

 

 

– Onde, onde? Pergunto animado. Aí, todos na sala riem e respondem:

 

 

 

– Ela dá aulas aqui mesmo!… Voltou a ensinar as turminhas de terceira e quarta séries. Mas hoje, infelizmente ela não está aqui, está de licença e volta na semana que vem.

 

 

 

Marcamos meu retorno e, na segunda feira, volto ao colégio sou levado a uma sala onde vejo meu passado de volta… Aquelas minúsculas carteiras, cheias de crianças e ela, minha querida professora em plena atividade! O reencontro é muito gostoso…

 

 

 

Tia Arly (agora professoras são tias) lembra perfeitamente não só de mim, como de meus vários irmãos e de minha mãe, que sempre esteve presente em nossa educação, ela me convida pra “assistir a aula” junto com a turminha que me olha divertida enquanto tento me encaixar naquela cadeirinha minúscula. Tia Arly me dá de presente uma foto da Turma de 1965 e trocamos bons papos.

 

 

 

 

Reconheço aquele menininho Alvaro com as letras EP (Escola Pública) bordadas no bolso da camisa branca do uniforme. Consigo lembrar de alguns rostinhos dos colegas da época. Obrigado por tudo, querida professora Arly.

 

 

 

 

 

 

 

 

*Alvaro Kadal é carioca e moro no Rio de Janeiro.

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