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Prisões de Orildo e Adelmo revelam anos de silêncio de vereadores e promotores

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Postura leniente espera-se que tenha ficado no passado

COLUNA DE DOMINGO Quando comecei a trabalhar na imprensa em 2004, o assessor da prefeitura de Canoinhas telefonava para a redação do jornal Correio do Norte toda a quarta e dizia “Tens um disquete?”. Conhecedor do ritual, lá ia eu com o disquete até a prefeitura para o assessor gravar as “matérias” da prefeitura no dispositivo. De volta à redação via-se o que era aproveitável do festival de autopromoção do prefeito de turno. A internet já existia, mas o site da prefeitura era precaríssimo, com parcas informações. Não havia canal virtual oficial de comunicação muito menos Portal da Transparência. Se quisesse algum documento, só mesmo no papel e via requerimento por ofício. Parece coisa do século passado, mas isso tem só 16 anos.

A forma como tudo evoluiu é alentadora para o jornalismo e preocupante para quem quer se servir do erário público.

Em 2009 denunciei no Correio do Norte a farra das diárias que levou um vereador a fazer o mesmo curso três vezes. Isso só foi possível porque consegui de forma “não oficial” cópias em papel de documentos que liberavam as diárias para os nobres edis.

Aí veio a Lei da Transparência, aperfeiçoada ao ponto de nem a mais modesta Câmara de Vereadores poder se negar a manter um site detalhando todas as suas contas.

Agora, com a prisão do prefeito de Bela Vista do Toldo, Adelmo Alberti (PSL), me recordo do quanto cobrei da mesa diretora da Câmara daquela cidade a adequação à lei. O site até existia, mas tinha zero informações.

A prisão de Alberti, e também de Orildo Severgnini (MDB) no ano passado, mostram que as coisas mudaram. Fruto da internet?

Não. As informações públicas a um clique do interessado e, principalmente, da imprensa, fez muita gente pensar duas vezes antes de dilapidar o patrimônio público, mas há nas duas prisões uma questão bem mais delicada.

Orildo comandou Major Vieira por quatro mandatos. Alberti também estava no quarto mandato. Teriam os dois se corrompido somente agora?

Como importantes fiscalizadores do Executivo, as Câmaras de Vereadores e o Ministério Público são atores primordiais para detectar maracutaias. Tem, sobretudo, as ferramentas para isso. Tem ainda o Tribunal de Contas do Estado, que avaliza as contas dos prefeitos. A imprensa corre por fora por nem sempre ter acesso ao que os promotores e vereadores têm.

Tanto vereadores quanto promotores são rotativos. No caso do Legislativo, de quatro em quatro anos, e no caso dos promotores, ao gosto do Judiciário ou deles mesmos. Quem se lembra do José Renato Côrte, canoinhense que ficou anos a fio à frente do MPSC na comarca de Canoinhas?

Certamente muitos.

Mas quem se lembra do Eder Cristiano Viana, do Wagner Pires Kuroda? Poucos porque foi pouco o tempo que por aqui ficaram. Eder foi o terror do então prefeito de Três Barras, Elói Quege que, ele mesmo, conta que mais de 100 processos foram abertos pelo promotor contra ele. Kuroda foi o promotor que instaurou a denúncia sobre a farra das diárias em Canoinhas a partir da minha reportagem. Esse processo ainda se arrasta na Justiça.

São só dois exemplos de tantos e tantos promotores que ficaram por aqui seis, sete meses ou um ano quando muito. Cada um a seu modo fez o seu trabalho nos últimos 20 anos. Só agora, por iniciativa do promotor Renato Maia de Faria, faça-se Justiça, se descobre uma escancarada rede de corrupção que permeava os governos de Severgnini e Alberti. O antes tarde do que nunca parece inevitável, mas a pergunta que fica no ar com poucas chances de ser respondida é: e antes?