Preocupação com cloroquina desviou a necessária atenção aos sedativos


Midazolam é exemplo de sedativo/Arquivo

Com os hospitais nas cordas, escassez dos medicamentos necessários para entubação foi ignorada pelo Governo Federal

 

 

PRIORIDADES

No dia 28 de maio a coluna alertou para o risco de faltar sedativos, medicamento primordial para a entubação de pacientes em estado grave de covid-19. Ouvindo a administração do Hospital Santa Cruz de Canoinhas (HSCC), a coluna informou que o problema também já era sentido por aqui, mesmo estando com apenas três internados, nenhum com necessidade de entubação. Naquele dia, o HSCC informou que “a quantidade de Tracur disponível no HSCC irá suprir a necessidade para cinco dias.” A compra via Cisamurc não foi realizada por falta do produto no mercado. Como comparativo, somente uma paciente com covid internada por 13 dias, precisou de 270 ampolas do sedativo Tracur (custo de R$ 5 mil pagos pelo HSCC).

 

 

 

Antes da pandemia a ampola da Tracur custava R$ 8. Em maio, a única empresa encontrada com o medicamento disponível estava vendendo a R$ 97 a ampola.

 

 

 

 

O assunto passou batido na Câmara de Vereadores de Canoinhas.

 

 

 

 

Semanas depois, com a situação ainda pior em relação ao sedativos, o vereador Cel Mario Erzinger (PL) cobrou, e foi atendido, com relação a um protocolo de liberação da cloroquina e hidroxicloroquina para pacientes que desejassem ser tratados, já no começo da doença, com tais remédios. Ao invés de vermos um recrudescimento da doença, no entanto, hoje o HSCC ultrapassou sua capacidade de internamento de pacientes com covid-19. Das cinco vagas credenciadas pelo SUS, teve de improvisar para atender oito pacientes. É certo que parte destes pacientes é de outras regiões, empurrados para fora de suas cidades justamente por causa da superlotação de leitos. A cobrança de Erzinger veio acompanhada da leitura solene de um texto assinado por médicos que cobravam o protocolo de hospitais de todo o Estado.

 

 

 

 

Ocorre que, muito antes disso, além de hospitais como o próprio HSCC fornecerem cloroquina a pedido do paciente, desde que com a anuência do médico, muita gente limpou os estoques das farmácias e começou a tomar o medicamento por conta, como uma forma de prevenção.

 

 

 

 

Nesta semana um estudo considerado definitivo atestou a ineficácia da cloroquina e hidroxicloroquina para tratar a covid-19. Mesmo assim, um dia depois, o presidente Jair Bolsonaro posou com uma caixa de cloroquina para anunciar que estava curado da doença. Para sua sorte, foi assintomático, mas para ele, foi o medicamento que o salvou. Outros 87 mil brasileiros, muitos deles medicados com cloroquina, não tiveram a mesma sorte. É como se a população inteira de Canoinhas, Três Barras, Major Vieira e Bela Vista do Toldo tivessem sido enterradas em cinco meses.

 

 

 

 

Negar  o resultado de uma pesquisa séria que atestou a ineficácia da cloroquina é uma atitude que, por mais obtusa que seja, vá lá, encontra eco na liberdade de expressão. Agora achar que há um grande complô entre médicos e autoridades da Saúde para matar pessoas negando-lhes a bala de prata (a cloroquina) beira a sandice. Senão, como explicar que mesmo com a sagrada cloroquina mais de mil brasileiros continuem morrendo todos os dias?

 

 

 

 

A história julgará quem, como o cel Mario, optou por lutar pela cloroquina, seguindo seu guia, o Messias, em detrimento da ciência. Agora, como vereador, seria sua obrigação ouvir as autoridades de saúde para ver no que pode ajudar. Se tivesse se prestado a essa papel, que é seu por dever, teria ouvido que não é a falta de cloroquina, que tem aos montes, o problema. O dilema era, é e continua sendo a falta de sedativos. Situação que tende a ganhar contornos de drama quando o HSCC tiver de escolher entre quem usará o pouco sedativo que tem e quem padecerá sem respirador até a morte.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CONTRADIÇÕES

Mui amigo do Brasil, o presidente americano Donald Trump encaminhou uma penca de cloroquina (medicamento fabricado por uma empresa da qual é sócio) para o país nesta semana. Os comprimidos se somam às milhões de unidades produzidas em escala industrial pelo Exército brasileiro.

 

 

 

Na mesma semana, Trump comprou antecipadamente 100 milhões de vacinas ainda em fase de teste pela Pfizer e BioNTech.

 

 

 

Como muito bem disse o biólogo Átila Iamarino, “se derem certo, só eles (os estadunidenses) terão acesso (à vacina) este ano. A maior prova de que cloroquina não funciona é que não compraram os estoques mundiais. Pelo contrário, mandaram pra cá.”

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

500

comprimidos de cloroquina foram recebidos pela Regional de Mafra nesta semana. O medicamento está sendo distribuído nos hospitais da regional

 

 

 

 

 

 

 

 

PRESSÃO

Reportagem do jornal O Estado de S.Paulo deste domingo, 26, mostra que embora pesquisas não apontem benefícios no uso de cloroquina e hidroxicloroquina em pacientes com covid-19, o debate político em torno dos medicamentos tem influenciado o trabalho de médicos. Segundo pesquisa da Associação Paulista de Medicina, 48,9% de quase 2 mil profissionais entrevistados em todo o Brasil relataram pressões de pacientes ou familiares para prescrever remédios sem comprovação científica. “Notícias falsas e informações sensacionalistas ou sem comprovação técnica são inimigos que os médicos enfrentam simultaneamente à covid-19”, diz o estudo. A intimidação também se dá por redes sociais. O presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, Clóvis Arns, e outros infectologistas chegaram a ser ameaçados de morte depois de a instituição publicar alerta contra a cloroquina. Há casos até de demissão. A intensivista Bruna Lordão pediu para sair do Hospital Geral de Vila Penteado, em São Paulo, após ser chamada de “assassina” por parentes de paciente a quem se recusou a prescrever cloroquina. “As pessoas não entendem que não existe benefício no uso da cloroquina porque o presidente fala que tem benefício”, desabafou  a médica.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ANEL DA SORTE

O líder da bancada da bala na Câmara dos Deputados, deputado Capitão Augusto (PR-SP) decidiu distribuir como “cortesia” anéis banhados a ouro aos colegas de parlamento. O caso veio à tona pelo jornal O Globo. Candidato à Presidência da Casa, o parlamentar disse que o presente não tem qualquer interesse eleitoral. Ah tá!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

REGIMENTO

A partir desta semana, a Assembleia Legislativa de Santa Catarina retoma a realização das sessões ordinárias de acordo com os horários e dias definidos pelo seu Regimento Interno, a exemplo do que ocorria antes da decretação do Estado de Calamidade Pública pela pandemia da covid-19, em março. A medida foi anunciada pelo presidente da Alesc, deputado Julio Garcia (PSD), após a concordância dos líderes partidários da Casa.

 

 

 

 

 

Com isso, o Parlamento voltará a ter três sessões ordinárias por semana. Isso será possível com a retomada das sessões de quinta-feira pela manhã, a partir das 9 horas, que estavam suspensas desde março.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MPSC

Com calendário afetado pela pandemia e forte presença nas redes sociais, as eleições municipais de 2020 terão o olhar atento do Ministério Público de Santa Catarina (MPSC) para prevenir e coibir atos ilícitos. Com o objetivo de dar suporte aos promotores de Justiça que atuarão na fiscalização da lisura do pleito, o MPSC criou o Núcleo de Apoio Eleitoral.

 

 

 

 

Instituído pelo procurador-geral de Justiça, Fernando da Silva Comin, o núcleo terá como função dar suporte jurídico aos promotores de Justiça que atuam perante as zonas eleitorais catarinenses, promovendo pesquisas doutrinárias, jurisprudências e legais, além de capacitar membros e servidores e atuar na interlocução com outros Ministérios Públicos estaduais e parceiros em matéria eleitoral.

 

 

 

 

 

O núcleo funcionará junto ao Centro de Apoio Operacional da Moralidade Administrativa (CMA) da Instituição e será coordenado pelo promotor de Justiça Pedro Roberto Decomain, um dos maiores especialistas em legislação eleitoral do país.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“A mesma mão que aplaude, apedreja”

do ex-presidente Fernando Collor de Melo, em conselho ao presidente Bolsonaro em entrevista à revista Veja





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