Poemas nas mesas e um banquete de formatura


Varadero, em Cuba/Divulgação

Já da rua se ouvia um animado som de antigos e tradicionais boleros conhecidos, tocados no alucinante ritmo da salsa

 

 

 

Possuída por um enternecimento imenso retornei pelos meus passos. Teria sido o trinar dos passarinhos que eu ouvira quando estava no interior da Igreja de São Francisco? Teria sido a melodia que alguém executara, naquele órgão, com tão profunda emoção? Teria sido a imagem de Frei Junípero Serra que me transportara para o tempo em que eu vivia as românticas aventuras de “O Coiote”? Porque assim, embevecida, eu ainda me encontrava ao chegar, uma vez mais, ao Grande Parque Central de Havana.

 

 

Parque Central de Havana

 

Um antigo, majestoso e tradicional hotel lá se encontra. Com enorme avarandado aberto para a grande-verde-praça-parque. Já da rua se ouvia um animado som de antigos e tradicionais boleros conhecidos, tocados no alucinante ritmo da salsa, envolvendo ouvidos e corações. Um conjunto de músicos e cantores, com vários instrumentos de sopro, cordas e percussão fazia a festa com e para quem entrasse na grande varanda.

 

 

 

 

As confortáveis cadeiras do artístico avarandado do Hotel Inglaterra chamavam-me. Um necessário descanso fazia-se necessário após tantas andanças naquela tão intensa manhã que já se esvaíra há tempo.

 

 

 

Não era apenas de um descanso que meu corpo pedia. Enquanto esperava pelo prato de camarões grelhados que já havia pedido, fui sorvendo copos e mais copos de cristalina e gélida água, como se de um deserto de areias inclementes eu recém houvesse regressado. O embevecimento com tudo o que vira naquela manhã fizera-me esquecer desta necessidade incrível que temos de tomar água. Muita água.

 

 

 

 

Foi então que meus olhos se abriram. Para tesouros espalhados sobre as mesas. Mesas de ferro, cobertas com azulejos carregados de arte em poemas e pinturas, chamaram minha atenção. Tentei copiar alguns em uma folha de papel. Eram inúmeras mesas. E os poemas não se repetiam. Desisti da escrita e optei fotografá-los. Demorei um bom tempo, até que toda a arte lá impregnada por poetas e pintores, coubessem em minha pequena câmera.

 

 

 

 

Repentinamente, um pulo dentro de mim. Aquele era o dia da formatura de minha sobrinha Tereza. À noite haveria uma cerimônia de gala no Hotel Nacional de Cuba. Precisava retornar ao encontro dos meus e preparar-me.

 

 

 

 

Bem perto de onde eu me encontrava havia um ponto de Cocotáxi. Embora eu tenha lido haver certa preocupação em fazer uso deles, não tive dúvida. Precisava conhecer mais este meio de transporte. É um veículo quase igual ao riquixá, tão comum nos países do oriente.

 

 

Hotel Nacional de Cuba

 

Era chegada a hora de nos dirigirmos ao famoso Hotel Nacional de Cuba. Engalanados, dirigimo-nos para lá. Este hotel fica situado no bairro Vedado, defronte para o Malecón, não muito distante do apartamento que havíamos alugado para passarmos aqueles dias maravilhosos.

 

 

 

 

Localizado em um local esplêndido, no alto de uma colina, tem uma deslumbrante vista para o mar. Posso definir como parque o enorme espaço, ao ar livre, que o contorna. Inúmeras fontes luminosas, artísticas estátuas em mármore. E até um velho canhão, muito bem cuidado, com sua boca apontada pra a baia de Havana. Muitas árvores. Muito verde. Por ali nos deixamos ficar por longo tempo. Conhecendo e confraternizando com os demais colegas de Tereza. Conhecendo e confraternizando com os pais dos colegas de Tereza. Todos, felizes e radiantes, a posar para incontáveis fotos.

 

 

 

 

Dentre as amigas de Tereza, a inseparável Lele Fuck acompanhada de toda a sua parafernália fotográfica. Dela, as mais inestimáveis imagens de nossa temporada.

 

 

 

Canapés indescritíveis, acompanhados de deliciosos e variados coquetéis desfilavam à nossa frente. Músicos revezavam-se, para mais alegrar aquela festa de congraçamento, enquanto, lá do alto, apreciávamos um estonteante sol a incendiar as águas do mar caribenho.

 

 

 

Enquanto a noite começava a delinear-se, fomos entrando no grande salão principal onde o banquete seria servido. Fiquei abismada com o bom gosto de tudo. Já na entrada, verdadeiras touceiras de flores davam-nos as boas-vindas.

 

 

 

A decoração das mesas, outro deslumbramento. Altos castiçais dourados, com espelhos redondos em suas bases, velas e coloridas e exóticas flores no ápice, não atrapalhavam as conversas e não impediam a visão.

 

 

 

Várias comemorações, iguais a esta, estendiam-se, por toda Havana, naquela noite. Porque eram muitos os formandos. Tereza e seus mais chegados amigos da turma programaram-se, com antecedência, a fim de reunirem seus amigos e familiares em uma inesquecível noite de despedida.

 

 

 

 

 

Lá estavam também alguns dos professores amigos da turma. Cerimonial que fez correrem torrentes de lágrimas. Professores deram os últimos conselhos a seus já então colegas. Os já não mais doutorandos, mas médicos, a agradecer pela convivência de tantos anos, pelo aprendizado em tantos anos…

 

 

 

 

E então, ao som de suaves melodias, entoadas por um piano acompanhado por harpas, violinos, violoncelos e clarinetes, o banquete foi servido. Finíssimas iguarias acompanhadas de escolhidos vinhos, sucos e, para os aficionados da maltada bebida, as cervejas cubanas.

 

 

 

 

Logo após a sobremesa, a orquestra mudou o tom. Mais instrumentos de sopro fizeram-se ouvir. E então os novos médicos dançaram a famosa valsa tradicional que coroa estas solenidades. Desfilaram, com seus trajes de gala, com seus pares, pelo imenso salão. E o baile, que depois teve início, dizem que só findou aos primeiros raios do sol.

 

 

 

 

Não ficamos tanto tempo na festa. Porque cedo, na manhã seguinte, rumávamos já para Varadero. Praticamente madrugamos para o último café naquela, que já era nossa, lancheria.

 

 

 

 

Distava um bom pedaço de onde estávamos alojados, o local onde deveríamos tomar o ônibus de turismo que nos levaria ao paradisíaco e famoso local de tantas cenas cinematográficas do passado.

 

 

 

 

 

=Nem cheguei a cochilar no decorrer da viagem. Não sei se porque eu havia dormido, relativamente, o suficiente, ou se era a ânsia de a tudo ver e absorver enquanto o ônibus corria célere pela rodovia.

 

 

 

 

A estrada era ampla. Pista sempre dupla. A paisagem a dançar ante os meus olhos, em ambos os lados. Canaviais revezam-se com rebanhos de suínos e bovinos. Muitas construções, ao longe. Palmeirais dominam a imagem.

 

 

 

 

Apesar de Varadero não distar muito de Havana, detivemo-nos em um aprazível local. Nem seria uma parada técnica. Uma cabana, feita de troncos de palmeiras e com seus ramos coberta. Era o que se via de fora. No interior, o maior brilho, asseio e limpeza. Não se viam os ramos. Apenas um teto muito bem elaborado. Um rústico balcão também. Rústicos não eram os sorridentes atendentes. E foi lá que sorvi, com canudinho de palha, o mais saboroso Mojito de quantos eu provara em Cuba. Servido dentro de um abacaxi. Cujo miolo fazia parte do instigante coquetel. Sempre acompanhada dos incríveis José Renato Azevedo e Ideraldo Gervazoni, os inseparáveis velhos amigos de minha sobrinha Arcélia.

 

 

 

 

 

Arcélia já conhecia Varadero. Riu quando eu comecei a estranhar o caminho que, de repente, começamos a percorrer. A rodovia estendia-se através de uma estreita faixa de terra, com um braço de mar de um lado e quase que pantanais de outro… E o mar? E a praia? E o ônibus a avançar por aquela estreita faixa. E eu a cada minuto mais intrigada. Até, que, repentinamente, desembarcamos defronte a uma enorme construção, rodeada por imenso parque, claro, com palmeiras e mais palmeiras a se perder de vista.

 

 

 

A entrada em nosso apartamento já me consolou. Um lindo coelho, feito com toalhas de rosto e de banho sobre uma alva e esticadíssima colcha estendida sobre a cama. De chocolate eram seus olhinhos.

 

 

 

 

 

Em instantes, já estávamos de maiô, em torno de uma enorme piscina, para um necessário refresco. Mas e o mar?

 

Varadero, em Cuba/Divulgação

 

Foi então que eu o vi. Através de uma cortina de palmeiras. Corri entre elas e fui embevecer-me em suas águas plácidas, cor de esmeralda. Ondas calmas. Águas translúcidas. Límpidas. Areias brancas ao fundo. Fui andando, dentro da água, por muitos e muitos metros. Até poder estender os braços e nadar. Ao longe vislumbrava-se, ainda, a água a chegar apenas na cintura das pessoas.

 

 

 

 

 

Não era em vão que aquele paraíso era o chamariz de tantos aventureiros em um passado, não muito distante. Um passado onde apenas se viam os mais abonados homens do mundo a esbanjar o que usurpavam de um povo que passava fome.

 

 

 

Naquele dia, em Varadero, eu vi cubanos usufruindo suas férias depois de um ano de trabalho. Felizes, com suas famílias, ao lado de pessoas das mais variadas nacionalidades.

 

 





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