sexta-feira, 17

de

setembro

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2021

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Paraízo-Paraguay

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Um amálgama de temas fortes, enredo lapidar e estilo requintado

 

 

A cada livro de literatura catarinense contemporânea que eu leio, é uma agradável surpresa e um momento de comoção. Paraízo-Paraguay, do blumenauense Marcelo Labes, é um amálgama de temas fortes, enredo lapidar e estilo requintado. O romance venceu, em 2020, o Prêmio São Paulo de Literatura.

 

 

 

Utilizando a técnica do contraponto, o escritor entrelaça distintos fragmentos temporais, gerações, etnias e dois países, a saber, da Guerra do Paraguai ao sul do Brasil. A partir das lembranças senis de Olga, uma anciã que está à beira da morte, e cujo pai índio paraguaio foi criado por um descendente de alemão que o trouxe do conflito, o enredo entrelaça o outrora e o presente do entre-guerras. O tema central que une as personagens é a solidão, a loucura e, mormente, a busca por lembranças latentes, a nível individual e coletivo.

 

 

 

 

Aliás, a solidão é um mote recorrente nas atuais obras dos escritores de nosso estado, o que pode também ser atestado em alguns contos e poemas de Péricles Prade, e nas narrativas de Carlos Henrique Schroeder, Clarice Fortunato, Cristovão Tezza e Marcio Markendorf. Parece que nossos autores tomam como premissa os versos do poema América, de Carlos Drummond de Andrade: “Portanto, é possível distribuir minha solidão, torná-la meio de conhecimento/Portanto, solidão é palavra de amor/Não é mais um crime, um vício, o desencanto das coisas/Ela fixa no tempo a memória”.

 

 

 

Uma das personagens do romance de Marcelo Labes que personifica a solidão multiplicada é Wilhelm, um teuto-brasileiro que vai ao combate no país vizinho e de lá traz um menino sobrevivente. O autor evidencia o que muitas vezes é oculto dos manuais de História, isto é, o exército paraguaio era composto de crianças e, destarte, não foi uma luta, mas sim um massacre: “Durante oito horas os 20.000 homens armados – famintos, mas com promessa de banquetes; sedentos, mas com promessa de rios e mares; doloridos, mas prontos para voltarem a suas casas – mataram os filhos do Paraguay e enterraram os sonhos de vitória que o inimigo ainda nutrisse” (LABES, 2019, p.80).

 

 

 

Wilhelm traz para o Brasil o peso das lembranças traumáticas “Quando não lutamos a luta justa, sempre saímos vencidos” (LABES, 2019, p.86), e o fardo de uma vida cuja infância e família foram ceifadas pela insana guerra. A solidão intrínseca de ambos será o legado que deixarão para a família que o menino Pepe construirá em terras brasileiras, miscigenando não apenas etnias, posto que se casa com uma descendente de italianos, mas também justapondo melancolias.

 

 

 

Muitas lembranças são dolorosas e, portanto, há o desejo de exterminá-las. No entanto, pior do que a recorrência de reminiscências indesejadas é ser desprovido de sua memória, ou parte dela. Não há descaracterização mais brutal. Pepe, que nunca se sentiu pertencente ao Brasil, provavelmente pelo trauma do conflito do qual fez parte na tenra idade e por ter sido retirado de seu país por um desconhecido com quem passou a coabitar, sente sua memória bloqueada, e tem necessidade de desobstruí-la:

 

 

 

Às vezes lembrava de sua terra, uns campos que avançavam até onde acabava o mundo, e o vale machucava seu coração com esses morros, essa visão curta que a gente tem daqui. Ele sabia que não pertencia a esse lugar e sabia que tinha algo de errado com a cor das pessoas […]. Quando essas coisas botavam pra incomodar, ele se ressentia atrás de uma lembrança, mas não tinha nenhuma. Como sempre, quando a gente precisa lembrar alguma coisa, damos com a cara numa parede branca. Mas ele queria escalar a parede, ele queria quebrar a parede e sair da sala branca (LABES, 2019, p.111).

 

 

 

 

Sua filha Olga, em idade avançada, relata o momento que seu pai conseguiu desbloquear a memória enferma:

 

 

 

Memória é fagulha, uma lembrança puxa a outra. Memória é mistério, um perigo! E foi a lida diária que ajudou Pepe a se lembrar, do jeito dele, na memória de bugre que ele tinha, cada pedaço da vida que ele viveu lá junto dos seus: um dia, segurou a mão da menina, ela já tinha uns três para quatro anos, e ficou ali, parado no meio do terreiro, a mãe foi quem veio ajudar (LABES, 2019, p.112).

 

 

 

 

Porém, as lembranças retornam turvas, desconexas, fragmentadas, o que causa ainda mais sofrimento em Pepe, e em sua esposa e filha que assistem às suas crises de choro. Logo deseja ir ao encontro de sua origem, deixando, com isso, uma prole de solitários, como afirma sua filha a sua bisneta: “A loucura, minha filha, a loucura é coisa dessa família. A solidão também. Loucura parece ser solidão, mas é mais doída” (LABES, 2019, p.116).

 

 

 

 

 

Pepe e sua esposa Frieda padeceram as consequências da Guerra do Paraguay, e a nova geração da família sofre com as mazelas do processo de modernização do Brasil, pois, sendo proletários, são vítimas da pobreza material e intelectual.

 

 

 

 

 

A denúncia mais marcante que Marcelo Labes faz em relação ao Capitalismo é a de que este sistema desprove o cidadão da capacidade de se divertir, de desfrutar do seu tempo, porque, quando homens que passaram décadas fazendo uma atividade repetitiva durante dez horas diárias, são jubilados, sentem-se vazios: “Para um trabalhador como Hans, se aposentar era uma forma de morrer. A primeira delas” (LABES, 2019, p.149). Por não saber aproveitar o ócio, torna-se alcóolatra e, logo, enlouquece.

 

 

 

 

Seu filho Udo, por sua vez, tenta traçar a árvore genealógica da história de sua família:

 

 

 

 […] se utilizava de um gravador de fita para tomar todas aquelas velhas informações: um tal Wilhelm que veio ao Brasil e foi chantageado para lutar na Guerra do Paraguay; um tal Pepe, seu suposto bisavô, que foi embora de volta ao país derrotado na guerra; Frieda, a dura mulher que lutara contra tudo para sobreviver e Olga, a velha que havia enterrado um baú que ninguém nunca encontrara (LABES, 2019, p.154).

 

 

 

 

 

Entrementes ao trabalho fabril, no qual “[…] iam sonhos empacotados como roupas de cama, cansaços de mil fios nas roupas de banho e fome, sempre a fome de uma vida que prestasse, embalada como toalhas de mesa” (LABES, 2019, p.160), Udo sente necessidade, assim como seu bisavô, de voltar às raízes, de saber mais, de tomar posse da memória coletiva sobre seus ancestrais que lhe foi negada.

 

 

 

Depois do falecimento de sua mãe, parte rumo ao Paraguay, na utopia de encontrar as lembranças que anseia e, quem sabe, um tesouro que o bisavô deixara. Para isso, abandona a irmã, deixando um rastro de solidão que continua unindo os dois por um elo de nostalgia, pois jamais tornariam a se ver. Assim como descobriria que não há registros de Pepe e que a guerra entre Brasil e Paraguay deixou marcas indeléveis materializadas na melancolia que assolou gerações, e invisíveis, em forma de esquecimentos comandados que clamam por virem à tona.

 

 

 

(LABES, Marcelo. Paraízo-Paraguay. Florianópolis: Caiaponte Edições, 2019).