Orestes Golanovski e a difícil busca pelo rubro líquido que salva


Orestes Golanovski/Arquivo

Orestes era chamado de nossa vaca leiteira

 

 

Mergulho no tempo e envolvo-me em múltiplas cenas dantescas. Cenas que, por mais trágicas que aos nossos olhos se apresentassem, não poderiam, jamais, embotar os nossos sentidos. Porque, da rapidez de nossos atos, e dos atos dos que nos auxiliavam, dependia a continuação de uma vida. De vidas. Que significam o tudo para os que dessas vidas dependiam. E o nosso propósito maior era a tentativa de fazer voltar para a luz da vida quem já via, da vida, esta luz a se apagar.

 

 

 

Nos sonhos, que nas madrugadas me acompanham, este terror muitas vezes surge, nas mais variadas formas. Sempre um correr, sem fim, em busca do ponto final que tudo amenizaria. Finda o sonho, vem a vigília e o ponto final com a solução apaziguadora jamais chega…

 

 

 

Porque muitos foram os sobressaltos que nos fizeram ultrapassar madrugadas em tentativas, quase miraculosas, para que, corações amados por tantos, não cessassem de bater.

 

 

Um paciente em choque sempre foi um dos nossos grandes desafios. Em choque hipovolêmico. Em choque por hemorragia. Alguns, por causas inerentes ao próprio organismo. Como as hemorragias internas. Ou mesmo os terríveis sangramentos nasais que só a nós chegavam quando as pulsações do paciente já quase não mais se percebiam. Outros, por causas externas. Vítimas de acidentes de trânsito ou de trabalho. Faqueados e ou baleados que nos espreitavam nas madrugadas dos finais de semana…Sempre uma emergência.

 

 

 

Este mergulhar no tempo leva-me aos anos em que com um mero Banco de Sangue apenas sonhávamos. Nem uma geladeira adequada para armazenarmos simples frascos de sangue — que eram de vidro —, nós tínhamos. Sangue que era doado por anônimas e desprendidas pessoas. O mais precioso líquido, salvador de vidas humanas, só poderia ser coletado na hora da urgência.

 

 

 

Tínhamos um fichário com os nomes dos que se prontificam a doar seu sangue, já com seu Tipo sanguíneo e Fator Rh devidamente anotados. E mais, claro, endereço e telefone.

 

 

Parece incrível, e inverossímil até, para quem está lendo isto nos dias de hoje. Hoje, nesse tempo em que tudo está tão fácil, tão à flor da pele, não dá para, sequer se imaginar, que se colhia o sangue do doador e logo o transfundíamos para o paciente em choque…

 

 

 

Claro que o sangue do receptor era classificado. Fazíamos ainda uma prova cruzada para termos certeza da compatibilidade. E era só. O sangue era transfundido em sua forma total.

 

 

 

Não se faziam exames para detectar sífilis, hepatite e ou Doença de Chagas. Da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida — a AIDS—ainda nem se ouvira falar.

 

 

 

São tantas as histórias de nossas buscas por doadores que nem sei quais as que mais nos marcaram.

 

 

 

Estávamos em plena tarde de domingo, no maior dos desesperos, atendendo uma gestante com Descolamento Prematuro de Placenta. Cesárea urgente. Soro fisiológico em alta velocidade não mais resolvia. Paciente álgida já. Níveis pressóricos arteriais próximos de zero.

 

 

 

A prestimosa auxiliar de enfermagem Iracy Putkamer, sempre ao nosso lado. Lembro-me de minha súplica, em desespero, para ela:

 

 

 

—Iracy, pelo amor de Deus, vire-se em sangue…

 

 

 

E ela, literalmente, seguiu à risca, o meu desesperado apelo. Em minutos trouxe-me um frasco abençoado do mais belo e rutilante sangue, ainda meio tépido, recém coletado. Sob pressão ele foi transfundido para a paciente. E seus efeitos logo foram surgindo. Em forma de uma, embora que tênue, coloração rosada da pele e de batimentos cardíacos já audíveis ao estetoscópio.

 

 

 

Só então olhei para a etiqueta do frasco de sangue, já vazio, ao meu lado. Nela constava o nome do doador. No caso da doadora. Iracy Putkamer. Mesmo fazendo parte da equipe, não titubeou em doar seu sangue para salvar uma vida.

 

 

 

Na angústia telefonava-se para que a Rádio Canoinhas fizesse um apelo à população para que fosse ao hospital, a fim de fazer uma doação urgente. Em uma ocasião chegou um rapaz, que estava de passagem por nossa cidade. Doaria, sim! Mas… desde que lhe pagássemos! Não tive dúvida. Peguei o valor pedido por ele em minha bolsa e pedi que lhe entregassem. O que não podíamos era prescindir de algum doador. Foi um escândalo no hospital. A equipe, tanto da enfermagem, quanto da área administrativa não aceitava que eu tivesse cedido a um vendedor de sangue humano. Para conformá-los disse-lhes que, junto com a nota entregue a ele, coloquei o seguinte bilhete:

 

 

 

—Este dinheiro não nos fará falta no céu… e você não poderá fazer uso dele no inferno…

 

 

 

Passava da meia-noite de um sábado, talvez… Mais uma angústia. Pior que todas. Porque os telefones não estavam funcionando. Àquela hora a rádio não nos ajudaria mais. Lembro-me apenas que disse para o amigo e colega Antoninho Seleme que fosse fazendo o que precisaria ser feito, enquanto eu iria atrás de doadores, nem que precisasse apelar para os frequentadores das casas de meretrício que se situavam lá pelo famoso quilômetro cinco da estrada que levava a Três Barras.

 

 

 

Os anjos ajudaram-me. Ao passar defronte ao bar que ficava perto da estação rodoviária velha, na rua Vidal Ramos, vejo, já na calçada, o meu sobrinho Marcos Scholze. Parei o carro. Num átimo ele reconheceu que era o meu. Nem precisei entrar no bar. O Marcos já deu o aviso. E foram inúmeros os doadores improvisados que, naquela noite, acorreram para salvar a paciente.

 

 

 

Chamávamos o senhor Orestes Golanovski de nossa vaca leiteira. Sempre disposto para doar o seu precioso líquido da vida. Mas não se poderia contar com ele com tanta frequência. Pausas eram requeridas entre uma doação e outra. O correto seriam 60 dias de intervalo. Mas com seu Orestes era diferente. Tenho certeza que a cada 30 dias ele já estava disposto para entregar seu sangue a quem dele necessitasse. Soube que houve ocasiões em que ele estendeu ambos os braços e coletados foram dois frascos de sangue. Um de cada uma de suas veias radiais.

 

 

 

As coisas começaram a tomar uma forma mais similar à dos hospitais de grandes centros quando os nossos amigos João de Souza Vargas e Zulmar Teixeira vieram instalar um laboratório de análises clínicas em nosso hospital. Nos meus cursos de atualização em anestesiologia eu ficava sempre a par das coisas novas dos centros hemoterápicos. Então uma atualização e revisão em meus conhecimentos na área da hemoterapia eu fui fazer.

 

 

 

Não sei como conseguimos adquirir um congelador horizontal pequeno e uma geladeira especial para armazenar o sangue que iríamos coletar de nossos doadores. Além da centrífuga para separarmos o plasma do concentrado de hemácias.

 

 

 

A esse tempo já estávamos em pleno uso de bolsas de plástico para a coleta de sangue. Eram bolsas duplas. Na centrífuga especial separava-se o plasma do concentrado de hemácias. O plasma era guardado no congelador. Com tempo mais longo de vencimento. As bolsas de concentrado eram guardadas em geladeira, com temperatura constante e controlada. Deveriam ser usadas em curto espaço de tempo.

 

 

 

Os exames mais simples eram executados no laboratório anexo do Hospital Santa Cruz. Os mais complexos eram realizados no Centro Hemoterápico de Joinville. Inclusive o teste para detectar a AIDS. Que já era alardeada em todo o território.

 

 

 

Mas muito mais equipamentos eram necessários para que o nosso pequeno Banco de Sangue prosseguisse. Seu Orestes fez campanhas. Corria pra Florianópolis atrás das autoridades solicitando verbas. E quando eu era Secretária Municipal de Saúde de Canoinhas recebo um telefonema das altas esferas estaduais da Saúde, avisando-nos que a nossa humilde captação de doadores fora contemplada com uma sonante verba para a compra de novos equipamentos e de todo o material necessário. Viria em nome de nosso Fundo Municipal de Saúde. Porque eles não tinham mais como dizer não a uma figura tão ilustre e tão considerada no mundo e na história da doação de sangue no mundo, como era a do senhor Orestes Golanovski.

 

 

 

E com ele e demais pessoas ligadas ao nosso nanico e caipira Centro de Hemoterapia fomos ao Banco oficial realizar a transferência do montante recebido. Com o qual o avanço foi imenso. O Plasma passou a ser congelado na hora, mantendo em forma, na íntegra, todos os seus componentes.

 

 

 

Depois veio o HEMOSC. Que nos serviu por tanto tempo. Que depois se foi. Voltamos ao tempo de uma mera agência transfusional. Como já estou há tempos longe destas angústias nem ideia mais eu tenho de como andam acontecendo as coisas.

 

 

 

Tenho a certeza, porém, que bem mais amenas que aquelas que nos deixavam em pânico há mais de meio século. Sobrevivemos. Porque, certamente, uma força e uma energia que nem sequer captávamos, flanava sobre nossas cabeças, impulsionando-nos para continuarmos, apesar de tantas adversidades.





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