O velho restaurante da estação

Nonno de Adair com amigos em frente ao restaurante da Estação/Arquivo de Fátima Santos

Estou em euforia por causa das auspiciosas notícias que contam do interesse do Ministério da Cidadania de restaurar a estação de Marcílio Dias

 

Mergulhada ainda me encontro na euforia das auspiciosas notícias que contam do interesse do Ministério da Cidadania, em nos brindar com parte do quinhão, destinado às restaurações de alguns patrimônios históricos de nosso passado. Entre eles o conjunto arquitetônico ferroviário de minha vila.

 


 

Senti punhaladas na alma ao ler alguns comentários inseridos quando da publicação desta notícia. É o mesmo que dizer que não se deve jogar dinheiro fora com o que é velho. O Velho Mundo, com suas milenares obras preservadas que o diga.

 

 

 

Obras antigas que por aí se encontram para nos contar histórias vivas de passados tormentosos, de passados buliçosos, de passados de pessoas que construíram o mundo onde hoje pisamos, que construíram um mundo que hoje usufruímos.

 

 

Vi fotos de um projeto. Apenas fotos. Que não mostram o que era o nosso restaurante. O restaurante construído por meus Nonnos Pedro e Thereza Gobbi há mais de um século.

 

 

Gostaria, imensamente, de participar dos estudos para esta restauração.

 

 

Há alguns dias estive olhando aquele saudoso espaço junto com meu sobrinho, engenheiro Érico Celso Jürgensen, e mais alguns amigos. Celso, meticulosamente, lançou sua trena e anotou toda a metragem do que ainda resta lá, acrescentando mais uma parte dos fundos que há muito para o chão já se foi.

 

Fachada do restaurante hoje deteriorado/Arquivo de Fátima Santos

Sonho ainda em lá passar muitas manhãs e muitas tardes, desfrutando das atrações turísticas e culturais que aquele espaço nos proporcionará.

 

 

A planta baixa está devidamente elaborada. E com ela e mais as fotos antigas que temos em mãos será possível erguer um novo prédio com todas as características de que me lembro do passado.

 

 

 

Nossa amiga Fátima Santos, que se dedica agora, de cabeça e espirito, à arte fotográfica, já fez inúmeras cópias de imagens antigas de nosso vetusto prédio. Que, originalmente, não era em cor branca. Esta cor que ainda lá se vê — ou que dela resta — deve ter sido pintada por alguém que, para não ver a madeira apodrecer de todo, deu uma mão de tinta à base da algidez do cal. E assim, para as gerações de hoje é a marca que existe.

 

 

No meu livro “O Meu Lugar” consta este texto de saudade. Espero que, quando for publicada a sua segunda edição, eu possa mudar este primeiro parágrafo.

 

 

 

Ainda o trem e o restaurante

O Restaurante da Estação Ferroviária de Marcílio Dias, ali, à margem dos trilhos, foi um dos encantos da minha infância. Vê-lo hoje abandonado, destruído, sem aquela imponência de antigamente, é uma coisa tão doída que não tenho ânimo de fazer mais aquele lindo passeio até a estação.

 

 

Construído em madeira, como todas as casas da época o eram. Executado pelos padrões da Rede Ferroviária, mas com um toque da arquitetura italiana. As cores das estações dos trens. Dois pavimentos. Telhado alto. Angulado. Pequenas janelas no sótão que servia para armazenagem. Altas janelas e portas na parte baixa.

 

 

E na frente, o que chamávamos de plataforminha se comparada às duas outras que são a da estação e a do armazém.

 

O restaurante pouco antes de começar a se deteriorar/Arquivo de Fátima Santos



Pedro e Thereza Gobbi, meus avós, meu Nonno e minha Nonna, com suas economias, construíram o prédio onde funcionou o Restaurante por umas sete décadas. Que foi o tempo em que transitaram os trens por Marcílio Dias.

 

 

Havia um grande salão de refeições e uma espaçosa cozinha com aquele fogão de lenha de três metros quadrados, com direito a forninho e caldeira. E mais outra dependência com balcões onde servidos eram o café, os sanduíches, os sonhos e os pastéis. E também os vinhos, os aperitivos e as cervejas, como a Nó de Pinho e as gasosas do seu Loefler.

 

 

 

Não havia água encanada. Cristalina, límpida e pura ela fluía de uma fonte nos fundos do prédio, vertendo como um moto perpétuo. Era armazenada num poço totalmente revestido por tijolos vermelhinhos. Não eram necessárias corda e nem roldana ou qualquer outro acessório para se pegar a água. Bastava levar o balde à cristalina superfície e pegá-lo cheio do límpido líquido. Mas, assim mesmo, a água ia para um filtro de barro antes de ser usada para beber.

 

 

Também existia nos fundos um grande forno para que se assassem os pães, os cuques e os bolos, além dos frangos e dos pernis de porco.

 

 

Junto ao forno um fogão menor, onde, entre outras coisas, torrava-se o café que era moído em um pilão de madeira que ficava ao lado. Ainda guardo esta joia da família, este pilão, aqui comigo.

 

 

 

Engarrafava-se o vinho que era comprado em tonéis de madeira. Em garrafas fervidas colocava-se o divino líquido que depois tinha suas rolhas colocadas com um instrumento especial que Nonno Gobbi trouxera da Itália. Os selos eram comprados em grandes folhas na Coletoria Estadual e depois cortados um a um e colados com cola feita de trigo em cima de cada garrafa.

 

 

Pergunta frequente à época era o por quê do horário do Almoço e do Jantar bem mais cedo que o habitual de nossa região. O motivo, a resposta: o engenheiro responsável pela obra era baiano e estabeleceu tudo de acordo com a região de onde viera.

 

 

E havia lógica também pelo roteiro do trem. Deixava as estações de União às seis horas e às dez horas e quinze minutos horas, caso não houvesse atraso, o Almoço já estaria sendo servido. E também não havia outra cidade próxima à ferrovia em nenhum trecho entre União e Mafra. Quando o grande relógio da sala de jantar batia o primeiro quarto depois das cinco horas da tarde servia-se o Jantar para os passageiros que vinham nos trens oriundos de Curitiba e São Francisco.

 

 

 

Além do Trem Grande, o já falado, havia o Trenzinho que circulava entre Marcílio Dias e Canoinhas. O Ramal foi inaugurado em 1930. Era chamado de Caxias.

 

 

Mas, por que Caxias?  Porque pelos planos originais era de Canoinhas que se estenderia a linha férrea até a cidade de Caxias, hoje Caxias do Sul, no Rio Grande do Sul. Mudaram-se os planos e a esquecida Canoinhas não constou mais no itinerário. A outra linha férrea que iria até o sul acabou saindo de Mafra.

 

 

Bem, o Caxias chegava a Marcílio Dias, sempre pontualmente, às dez horas da manhã e às cinco horas da tarde. Era um trem misto. Para passageiros e cargas. Um programa domingueiro era ir até Marcílio Dias, aguardar a chegada do Trem Grande, ver o movimento, fartar-se dos pastéis de Dona Thereza e, posteriormente os de Dona Nena e, quem sabe, encontrar o seu prometido ou a sua prometida entre tantas pessoas que por lá então desfilavam.

 

 

Personalidades da época viajavam nos trens. Foi assim que Marcílio Dias viu Luiz Carlos Prestes, Júlio Prestes, Getúlio Vargas, General Eurico Gaspar Dutra, Brigadeiro Eduardo Gomes, Juscelino Kubistchek, entre tantos outros.

 

 

Era o trem o veículo de comunicação, o que levava e trazia. Trazia jornais e revistas e pessoas e o mundo de lá para o mundo de cá.

 

 

Este era o Restaurante da Estação de Marcílio Dias onde passei minha infância dourada, onde aprendi lições de vida com meus Nonnos, meus pais, meus irmãos e com muita gente culta que por ali passou.

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