O tiroteio no alto da Pedra Branca

Grupo de vaqueanos (milícia armada privada) defende madeireira de ataques de revoltosos na Guerra do Contestado. A foto é do fotógrafo sueco Claro Jansson, que imigrou para o Brasil em 1891 e viveu na região na época da guerra/ Claro Jansson/Acervo Dorothy Jansson Moretti

Adair Dittrich resgata mais uma história da Guerra do Contestado

 

 

 


Nos tempos da Guerra dos Fanáticos, ou da Guerra do Contestado, nome pelo qual, recentemente, ficou mais conhecida, havia um batalhão do exército sediado, creio, no vale que compreende aquele espaço entre o rio Água Verde e o rio Canoinhas. Ocupavam um vasto terreno com uma casa grande que seria o seu improvisado quartel.

 

 

O Nhoca, herói de “O Jagunço”, livro de Fernando Oswaldo de Oliveira — que foi médico em Canoinhas e deputado estadual — , andou bisbilhotando esta casa para saber das manobras dos soldados em torno das vilas dos arredores por onde andaria, talvez,  a sua namorada Mariazinha. Apesar de todo o cuidado para não fazer barulho tropeçou em algum galho, quando do local já se distanciava, e foi pego de surpresa por uma sentinela. A quem conseguiu nocautear, não antes, porém de por ele ser reconhecido.

 

 

Na mesma madrugada o Nhoca some em direção ao leste, tomando o rumo do alto da Pedra Branca, pela estrada que leva a Porto União. Tinha a intenção de, onde três estradas se cruzavam, na Encruzilhada, seguir para Rio Bonito. Claro que os soldados, mesmo na madrugada, foram atrás dele, sabedores que eram da casa dos amigos onde estivera hospedado. Seu anfitrião despistou e enviou os perseguidores para o sul, no rumo do Salseiro.

 

 

Mas vou deixar a história do Nhoca de lado e quem dela quiser saber deve procurar por “O Jagunço”, o livro de Fernando Oswaldo de Oliveira. *

 

 

Alguns dias após esta passagem do Nhoca por Canoinhas um tumulto maior tomou conta das forças federais sediadas aqui em nosso território. Um tumulto bem lá no alto da Pedra Branca. Um ponto sensacional onde os fanáticos poderiam se acantonar por muitos dias. Com uma vasta retaguarda para fuga e uma quase inexpugnável fortaleza que não permitiria a entrada do inimigo.

 

 

Pessoas que moravam um pouco mais abaixo ouviram o barulho intenso. E até viam as sombras a se locomover lá bem no alto. Rugidos intermitentes. Como se todos os vaqueiros do céu em cavalgada passassem por um fogaréu.

 

 

Preocupados e alucinados desceram a colina a fim de, mesmo que gaguejando de pavor, relatar os fatos ao comando militar.

 

 

Lá embaixo no vale os oficiais faziam a sua sesta após um lauto churrasco, assado em fogo de chão, e regado a bom vinho enquanto os praças espreguiçavam-se pelo bosque adjacente. A contragosto a sentinela foi chamar o capitão. Que num visível mau humor deixa a improvisada cama de campanha, ainda meio sonolento, quase não querendo atender as nervosas e angustiadas pessoas que por ele procuravam.

 

 

Mandou o sargento, que também não andava muito satisfeito da vida, com uma úlcera de estimação a berrar em seu estômago, ver do que se tratava. Esbaforido, balançando a pança, retorna ao chefe, com a comitiva que descera a colina atrás dele.

 

 

De imediato são convocados os vaqueanos rastejadores para subir a pequena, mas íngreme serra, com o intuito de se descobrir o que por lá andava acontecendo. Concomitantemente o toque de clarim para chamar a tropa é ouvido ao longe. Necessário e urgente era um plano para, de qualquer forma, subir o morro e acabar com a valentia dos revoltosos lá no alto acampados.

 

 

Milhões de insetos imaginários tomaram conta do cocuruto do capitão. Enquanto sobre ele passava as mãos, com o intuito de afugentá-los, as lembranças começaram a rumorejar. Praticamente fez voar o seu cavalo para logo chegar na Água Verde em busca da família que hospedara aquele piá de nome Nhoca. Nem cachorro pulguento e abandonado e nem um pé de couve encontrou. Apenas o descampado onde antes se erguia uma casa. Inquiriu na vizinhança, que nem tão perto assim ficava naqueles tempos. Nada a contar. De nada sabiam. Nada tinham visto. Quando o dia amanhecera nem a casa estava mais ali…

 

 

Então um teatro em sua frente apareceu. O desgramado do tal Nhoca, naquela noite em que fora visto pela sentinela, ouvira todos os planos em andamento para dar fim aos seguidores do Monge João Maria, que nas redondezas estivessem. E correu ao encontro deles a fim de avisá-los. Agora estavam lá no alto da Pedra Branca, prontos para pegar a tropa de surpresa. Mas os surpreendidos seriam eles. Ah! Sim, seriam! E como!

 

 

Volta para o improvisado quartel, aguardando que os batedores retornassem. Batedores que iam rastejando pelo chão, enroscando-se nos nhapindás, na tentativa de chegar o mais perto possível da crista do morro.

 



 

Horas de angústia. Nestas alturas a cidade em peso já estava atordoada aguardando a invasão dos fanáticos. Não havia para onde fugir. Nem como. Nos carroções dos habitantes da cidade não caberia nem um quarto da população.

 

 

O capitão mandava soldados de casa em casa pedindo que continuassem suas vidas como se nada de estranho estivesse acontecendo. Os jagunços, como ele os cognominava, não deveriam perceber que as tropas iriam se movimentar para pegá-los de surpresa no que clareasse o novo dia.

 

 

E programou para aquela noite um grande baile em um salão improvisado. Com churrascada e tudo. Só para despistar os fanáticos. Só para fazer de conta que no vale estava tudo calmo. Que ninguém tinha ouvido nada. Que na calmaria das horas uma festa com banda de música e muita comida boa estava em andamento, como se o mundo só de belezas fosse feito.

 

 

Os militares passaram o resto da tarde elaborando os planos de ataque. Cada soldado sabia antecipadamente a sua posição. Primeiramente toda a tropa iria até as faldas do morro da Pedra Branca. Com a cavalaria, artilharia e infantaria. Fingiriam estar apenas a fazer exercícios.

 

 

Com o escurecer começaram a se esgueirar, rastejando feito serpentes, infiltrando-se na mata densa, encobrindo-se atrás das árvores, carregando seus fuzis presos ao corpo e um afiado facão junto às botas. Um grupo pelo flanco esquerdo, outro pelo flanco direito. Quando chegassem ao cume dariam o sinal para a cavalaria, que com a equipe que empurrava o carro com a metralhadora avançasse pelo centro.

 

 

E assim foi feito. A madrugada não findara ainda e os primeiros arautos lá no alto já se encontravam. O ponto de impacto seria no momento do raiar do dia. Que pegaria os revoltosos com os olhos de encontro aos raios sol. Que os cegaria. A grande vantagem do exército, que a montanha lentamente e na surdina subia.

 

 

Mas o sol não apareceu. Um denso nevoeiro a tudo cobria. Pouco se percebia através da extensa cortina de microscópicas gotículas de água. Binóculos de pouco valiam. Mal e mal vultos a correr podiam ser vislumbrados por entre as árvores que cobriam a crista da Pedra Branca.

 

 

Enfim a madrugada se vai. O barulho dos revoltosos aumenta. Parecia que de seus pica-paus zoadas de balas eram disparadas. Sem deixar o rasto flamejante que toda arma de fogo deixa. Ou confundiam-se com as das forças legais. O capitão dava ordens. O clarim retumbava. Rifles disparavam na madrugada nevoenta. O barulho lá no cimo só aumentava. Os fanáticos corriam de um lado para o outro. O capitão achou que eles estavam desorientados. Que era uma questão de minutos. E eles tomariam o morro. E renderiam o inimigo. Já antegozava as múltiplas prisões. Já comemorava mentalmente as medalhas e insígnias que seriam acrescentadas a seu peito.

 

 

E deu a ordem para a metralhadora começar o despejo de balas sem fim. Um ribombar que faria pensar que o morro estaria vindo abaixo.

 

 

Timidamente o sol começou a dar sinal através da neblina que sumia. Quanto mais alto no morro se subia, maior a luminosidade. A tropa avançando. De frente um denso taquaral. Não encontraram jagunços caídos. Não encontraram homens vencidos. Não encontraram nem mortos e nem feridos.

 

 

Eis que de repente ela surge. Ela, a responsável por todo aquele entrevero. Ela, uma assustada mula zurrando alto e em desespero em meio ao taquaral onde na véspera havia se entrelaçado. E de onde não conseguira sair. Do qual não tinha como se livrar. Um denso taquaral. Com taquaras já secas em sua grande maioria.

 

 

A mula forçando de um lado, forçando de outro, correndo até onde conseguisse, emitia seus relinchos agudos e graves. O intenso ruído do contínuo rachar e quebrar das taquaras, já um tanto estorricadas. O eco deste ribombar todo reproduzindo-se pelo vale e entre os cumes da serra. E a imaginação dos circunstantes fez o resto.

 

 

* “O Jagunço” –  romance de Fernando Oswaldo de Oliveira,  uma edição do Governo do Estado de Santa Catarina, em 1978.      

 

 

 




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