O que nós como educadores estamos fazendo pela educação


Divulgação / SED

As pesquisas nos indicam que no geral após a terceira vez que um estudante abandona os estudos ele não retorna mais à escola

 

 

Dr. Leandro Rocha*

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De acordo com os dados de 2019, os mais recentes, havia no Brasil no período da coleta de dados 11 milhões de pessoas analfabetas com idade superior a 15 anos. São 11 milhões de pessoas que não conseguem ler uma placa, um documento, ler o nome de um remédio na caixinha. Isso representa uma taxa de 6,6% das pessoas com idade superior a 15 anos. Se formos aos dados do IBGE em busca da quantidade de adultos acima de 25 anos que não possuem o ensino médio completo, esse número sobe para 51,1%, o que equivale a 69,5 milhões de brasileiros. É importante ter presente que a educação não é um favor, não é caridade, é um direito do brasileiro. Além disso, a educação formal impacta na vida de cada aluno e, também, impacta na coletividade.

 

Menciono ainda que as pesquisas indicam que, em geral, após a terceira vez que o aluno abandona a escola, ele não retorna mais para concluir seus estudos. E não estaria a comunidade escolar promovendo durante a pandemia um grau ainda maior de adversidade a impelir uma parcela dos alunos a desistirem dos estudos, talvez pela terceira e última vez? Será que metade dos adultos sem concluir o ensino médio é uma taxa aceitável?

 

Não há escolha, estamos lançados na pandemia. Com a crise sanitária em curso, não apenas as universidades, mas, também as escolas adotaram o modo de ensino a distância, como um modo para não interromper simplesmente a educação formal enquanto a crise durar. Contudo, talvez isso tenha ocorrido sem condições de preparação suficiente dos professores para esse modo de ensino e sem condições de estrutura mínima para os alunos. Assim, professores que não tinham experiência com o ensino a distância se viram desafiados a mudarem de pronto a sua prática, por vezes inquestionável por anos, para que o aluno, agora de um momento para outro cobrado que seja mais autônomo, conseguisse construir o conhecimento sem o professor ao lado, lendo e compreendendo os textos em casa sozinho e assistindo aos vídeos (quando há).

 

No Brasil, o EaD já tem história. Desde os cursos por correspondência, passando pelo apoio aos recursos de rádio e TV, chegando à geração atual de recursos de interações via internet, não vale qualquer coisa sob o rótulo EaD. Com os avanços e a complexidade da sociedade, dos debates em torno da educação e dos recursos disponíveis, talvez não baste um tutorial acompanhado de um vídeo no YouTube como formação suficiente para ingressar como educador nesse complexo modo de ensino.

 

Não estou aqui a defender um retorno irresponsável ao ensino presencial sem que se tenha antes a garantia sanitária suficiente. Estou chamando a atenção para a consideração de que, para a desistência do aluno da escola, além de fatores que independem da atuação direta do professor, como, por exemplo, a necessidade de ingresso precoce no mercado de trabalho ou, ainda, o machismo que faz com que na zona rural a quantidade de mulheres analfabetas seja maior do que a de homens analfabetos, temos fatores que implicam diretamente a escola, a concepção de educação, a metodologia de ensino, e que podem ser pontos decisivos para um aluno que vai engrossar as estatísticas dos adultos que não concluirão o ensino médio e que, com isso, terão ainda mais limitadas as suas opções.
Muito mais do que alterar dados estatísticos, a evasão escolar vem acompanhada com a sensação de fracasso do agora ex aluno, com a precarização das relações de trabalho, entre outras adversidades com as quais o cidadão terá que lidar. O preço da desistência para a vida de cada aluno pode ser incomensurável, bem como para a sociedade.

 

Se o aluno desiste da escola e, quando adulto, retorna para concluir os seus estudos por meio da modalidade de Educação de Jovens e Adultos, para tal retorno enfrenta-se a superação do preconceito por não ter concluído os estudos em idade regular, a dificuldade de harmonização de seu tempo entre trabalho, família e estudos, além de perspectivas como a sensação de inadequação no ambiente escolar que, por vezes aproveitando o mesmo espaço físico do ensino de crianças impele o adulto a constante sensação de que aquele ambiente educacional não é para ele (como, por exemplo, cadeiras e carteiras projetadas para criança que não acomodam o tamanho de um adulto). Com isso aponto que o retorno depois de adulto não é uma opção fácil, confortável, é sujeita a constrangimentos, apresenta dificuldades ainda maiores do que o aluno enfrentaria em idade regular.

 

Não há como sabermos por mais quanto tempo viveremos nesse contexto que nos impelirá a não termos aulas presenciais. Essa configuração, diferentemente do EaD feito antes da pandemia, não foi uma opção por parte dos alunos e nem dos professores, é o que foi possível. Para além disso, em se tratando de educação, esse tempo, que está durando, está impactando a vida dos alunos de modo decisivo, aumentando consideravelmente a evasão escolar, aumentando as desigualdades e, talvez, parte dessa evasão escolar pudesse ter sido evitada no que concerne aos fatores inerentes ao sistema educacional. Mas, também, já se faz o melhor que se pode fazer dadas as condições. Será?! Como educadores, como familiares, como comunidade, o que fazemos durante a pandemia para com os estudantes é o que de melhor podemos fazer?

 

*Dr. Leandro Rocha é professor





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