O que eu tenho, Doutor?


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Mas a culpa não é dela, apenas, o seu tempo que passou!

 

 

 

Algo estranho me aconteceu! Fui ao porto e não tinha portão, não me cobraram nenhum tostão. Estranhei… mas continuei até a embarcação…

 

 

Com um aperto de mão, me despedi do professor de filosofia, desejando-lhe sorte e, até algum dia. Aproveitei e fui contemplar um pouco a beleza do Rio Negro… Cheguei em casa suado, dei graças que era feriado, e fui descansar. Atei minha rede na varanda da frente, local mais espaçoso para me embalar.

 

 

Olhei para a rua e vi meu amigo Antônio caminhando sem rumo, olhando para os lados como quem procura uma companhia para suas travessuras, coisas de menino peralta. De repente, me veio uma vontade danada de pescar e tomar banho no igarapé da cidade, mesmo, ele já estando estranha com a tal da peste que veio nos assolar. Chamei Antônio e fiz-lhe uma aposta: quem chegaria primeiro no Educandos, isso, claro, a nado!

 

 

Ganhei a disputa, porém, levei um tempo até me recuperar do cansaço da travessia. Fiquei parado em cima do barranco por alguns instantes, observando um velho canoeiro com alguns poucos peixes, em sua canoa chegar. Ele sorriu e falou para mim:

 

 

– Oi, filho! Pediram-me para lhe buscar!

 

 

Senti uma bondade no velho canoeiro e, sem ao menos questionar, entrei em sua canoa…

 

 

– Doutor, que agonia é essa que me consome?

 

 

– Não pense muito nas coisas, apenas viva! Esse remédio deve resolver por enquanto a sua angústia…

 

 

Era tarde da noite quando cheguei em casa, eu e meu amigo Marcos tínhamos ido conhecer a famosa Verônica, e, por sorte, não fomos descobertos… Após um demorado banho, fui comer meu jaraqui frito com arroz e farinha que, como de costume, minha mãe havia guardado num prato tampado e deixado em cima do fogão para mim. Jantei e, após escovar os dentes, segui para cama e apaguei.

 

 

Encontrava-me em sono profundo, quando ouvir uma voz lá no fundo, chamando meu nome mais de uma vez:

 

 

– Acorda, Rodolfo! Vem tomar café antes que a tua tapioca esfrie, dizia minha mãe, me despertando do apagão.

 

 

Todos estavam à mesa, meu pai lia o seu jornal da manhã sem a menor pressa… enquanto minha irmã, me esperava para irmos à aula. O tempo, parecia não contar.

 

 

Como todas as manhãs, fui andando pela Avenida Getúlio Vargas, por entre as lindas árvores que enfeitam o seu canteiro central, até me deparar com aquele hotel imponente, onde avistei uma linda moça grã-fina entrando com seu nariz empinado, sem ao menos, olhar para trás. Não, não era possível! Aquela moça não podia ser Amanda, minha namorada! Quando tentei me aproximar, vi Eduardo chegando logo em seguida, pegou-a no colo e sumiram para dentro do luxuoso hotel. Não estava acreditando no que meus olhos acabaram de ver…

 

 

Cheguei na escola e todos os alunos estavam impecáveis, sem algazarra ou atraso, esperando somente pelo professor! Os estudantes do IEA, Dom Pedro, Benjamin Constant… conversavam num português impecável… enquanto que, na minha cabeça, a confusão era geral.

 

 

Notei que duas amigas de Amanda cochichavam e olhavam para mim. Estava atônito, meu melhor amigo! Como isso era possível!

 

 

Por algum tempo, viajei nas estrelas… até ser despertado pelos gritos de minha irmã: por que meu Deus?

 

 

– Doutor, por que tudo está tão confuso?

 

 

– Descanse, meu filho! Você está muito enraizado, dê umas voltas nas praças, que isso logo irá passar!

 

 

O mormaço da tarde, acabou me tirando de casa. Então, resolvi seguir a recomendação do Doutor. Fui à praça da Saudade que, como todos os dias, esbanjava felicidade. Como praxe, muitas pessoas estavam esperando ansiosas o trenzinho da alegria passar. Dei uma volta nele para tentar relaxar um pouco. Os brinquedos, atração à parte, reuniam todos que desejavam uma boa dose de diversão.

 

 

O senhorzinho de todas as tardes, chegou com o seu carrinho de pipoca e, em pouco tempo, o cheiro se espalhou…. Atraindo, principalmente, os estudantes que faziam a maior agitação. Olhei para o moço do algodão doce e, percebi que além de cor, ele também adoçava os corações…A maçã do amor, atraia muitos olhares, principalmente dos enamorados… Aproveitei e presenteei Carla, junto de uma bela declaração.

 

 

Continuei me sentindo como um estranho fora de seu ninho, e reclamei para Doutor Ribeiro, que insistiu para que eu fosse dar umas voltas, quem sabe ver o pôr do sol na praia da Ponta Negra!

 

 

Me reuni com dois amigos numa mesinha do porto, aquelas que ficam dispostas para quem quiser sentir a brisa do rio vindo sempre nos saudar. O encontro foi muito descontraído, aproveitei a ocasião e, mesmo contra a minha vontade, atendi o pedido do Doutor! Marquei com a turma numa sexta-feira, no Largo São Sebastião, o “point” da cidade!

 

 

No Largo havia diversão para todos os públicos: crente e ateu, roqueiro e pagodeiro (todos os estilos musicais), político e eleitor, aluno e professor! Ele reunia todas as tribos em total harmonia, coisas de calor…

 

 

Cheguei à tarde na praça e, observei um senhor de meia idade, jogando pipoca para os pombos, sentado num banco próximo as caravelas, sob a sombra de uma das frondosas árvores que circundam a praça São Sebastião. Ele fitou as aves por um tempo, até se perder no desenho das pedras portuguesas, imitando o encontro das águas no chão.

 

 

Quando anoiteceu, vi várias pessoas chegando. Todas muito elegantes, passando rumo ao teatro Amazonas. Curioso, perguntei do que se tratava e, alguém respondeu: uma grande Ópera será executada! As senhorinhas, todas numa classe, passavam apressadas para assistir à missa na igreja São Sebastião. Os barzinhos ao redor da praça eram bastantes disputados, mas nenhum se igualava, ao tradicional bar do Armando.

 

 

Aproveitei que cheguei cedo, e fiquei numa mesa com vista para o teatro. Pedi ao garçom um sanduíche de pernil e uma cerveja bem gelada para espantar o calor do mês de agosto…A noite estava muito agitada, hippies, vendedores, gringos, poetas e cantores, todos juntos, desfrutando as belezas até altas horas, do largo e bom som!

 

 

Acordei no sábado com uma baita de uma ressaca, que sumiu ao longo do dia, graças a deliciosa caldeirada de Tambaqui que minha mãe Rosalina havia preparado para o almoço. Para minha sorte, só tinha um compromisso à noite: acompanhar minha namorada até a igreja da Matriz.

 

 

Assim que acabou a missa, peguei em suas mãos e saímos correndo pelas escadarias até o chafariz, lugar preferido de Carla, que adorava ficar olhando os lindos anjinhos barrocos jorrando água sem fim…

 

 

Para muitos, que lá estavam, era apenas uma fonte de desejos, cada moeda lançada, um pedido havia sido feito. Andei até a frente do relógio, cartão postal da Avenida Eduardo Ribeiro e, o que vi, não foram as horas, mas a seguinte frase que não saiu da minha cabeça:

 

 

“Todas ferem, a última mata”.

 

 

Acordei com uma forte dor de cabeça! Fui até à cozinha pedir um remédio para minha mãe… então, uma mulher estranha ao me ver, soltou um grito e caiu no chão. Corri para pedir socorro!

 

 

Cheguei nervoso ao consultório e contei toda a história para o Doutor Eduardo…

 

 

– Doutor, por que tudo está fechado, cadê as pessoas? minha família, meus amigos, todos sumiram… A peste voltou?

 

 

Cabisbaixo, ele pegou no meu ombro e me respondeu:

 

 

– Sim, meu filho! Mas a culpa não é dela, apenas, o seu tempo que passou!

 

 

De repente, acordei num sobressalto, refleti um pouco, e nunca mais senti nada…

 

 

Meu nome é Francy Matos, tenho 40 anos, sou natural de Juruti Velho, Pará, mas fui criada em Manaus, Amazonas, atualmente moro em Belo Horizonte. Sou Formada em Letras Língua Portuguesa.





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