O primeiro respirador do Hospital Santa Cruz de Canoinhas


Hospital Santa Cruz nos anos 1950, já com a ampliação à direita/Acervo de Fátima Santos

Não se poderia chamar de Centro Cirúrgico o local onde eram realizadas as cirurgias em nosso Hospital Santa Cruz

 

 

 

O ano era o de 1967. O Congresso Brasileiro de Anestesiologia realizava-se em Porto Alegre. Para lá me dirigi em cima de meu possante fusquinha vermelho que contornava, com seus quatro cavalinhos, e mil e duzentas cilindradas, colinas e campinas verdejantes das bandas do sul. Acompanhava-me o meu sobrinho Tico Scholze.

 

 

 

Em todos os congressos há sempre um grande salão onde são expostas as novidades da indústria de medicamentos e materiais. Um grande e especial espaço era destinado, claro, à Narcosul, empresa da capital gaúcha e que tinha por diretor um conhecido nome da anestesiologia, o professor Affonso Fortis.

 

 

 

Meu amigo Hans Baukelmann também lá se encontrava expondo as novidades da Oftec. Apaixonei-me por um carrinho especial por ele fabricado. Era todo em metal, com pintura eletrostática em cor verde clara. Com gavetas deslizantes. Rodinhas bloqueáveis, de liga leve, revestidas com borracha. Tampo em aço inoxidável. Régua com os fluxômetros para Oxigênio, Óxido Nitroso e Ciclopropano (que ainda se usava) e para os vaporizadores dos fluidos anestésicos. Ao lado, o depósito de cal sodada, já formado por dois grandes cilindros de acrílico, transparentes. Acoplado a ele, um negro balão de ventilação manual, feito em borracha especial. No alto do depósito de cal sodada, mangueiras corrugadas com as respectivas conexões e válvula que seria ligada ou à mascara ou ao tubo endotraqueal.

 

 

 

 

 

Era fácil negociar com meu amigo Hans. Aceitou, como entrada, aquele que ele havia construído, especialmente, para mim e o restante, em módicas prestações. Que fui pagando de acordo com o que recebia das anestesias efetuadas aos raros pacientes pagantes de então…

 

 

 

 

Bem no anoitecer do último dia do congresso meu fusquinha apresentou uma avaria. Como o conserto levaria algum tempo, aproveitei para emendar a viagem e engajar-me em uma caravana que seguiu para Buenos Aires a fim de participar do Congresso que logo em seguida, lá seria realizado.

 

 

 

 

Hans transportara, em uma Kombi, vários equipamentos para expor e vender no decorrer do Congresso. Feliz, retornara vazio. A fim de entregar meu novo aparelho de anestesia e pegar o usado aqui em Canoinhas, em nosso Hospital, teve de aumentar seu retorno a São Paulo em mais alguns quilômetros. E, de carona, trouxe o meu sobrinho Tico para casa.

 

 

 

Eu havia programado prestar o concurso para obtenção do Título de Especialista, hoje Superior em Anestesiologia, no decorrer daquele congresso. Já havia realizado as provas prática e oral no Centro de Estudos e Treinamento da Santa Casa de Misericórdia de Santos. Mas não resisti ao convite de meus amigos Regina e Geraldo São Clemente de viajar com eles aos Estados Unidos. Foram muitos os dias de viagem. Em decorrência, não houve tempo suficiente para os necessários e aprofundados estudos e preparar-me para prestar a famigerada prova escrita. Que só fiz no congresso do ano seguinte, em Brasília.

 

 

 

Para fazermos esta prova o professor Danilo Freire Duarte, exímio anestesiologista e excelente pessoa, programou e realizou, em Florianópolis, um curso de revisão e atualização direcionado aos colegas de nosso estado.

 

 

 

 

O Hospital do Servidor da capital tinha sido recém inaugurado. Não havia, ainda, mão de obra especializada, suficiente, para que todos os andares pudessem ser ativados. O que mais faltava eram enfermeiras graduadas em nível superior. O curso todo, aulas teóricas e práticas nele foram realizadas. E nele ficamos alojados também. Como alunos internos. No último andar. De meu apartamento a visão da baia norte. De onde desfrutei de magníficos crepúsculos de inverno. O mês era agosto.

 

 

 

 

Um curso intensivo. Aulas nos três períodos. Intercalando teoria e prática. Lá passamos um mês inteiro. Com um intervalo no meio para podermos rever nossa terra e nossos familiares.

 

 

 

Valeu cada minuto lá passado. O aprendizado foi intenso. E então vi bem de perto os valorosos respiradores mecânicos. A facilidade em deixar nossas mãos livres a fim de que se possa realizar tantos outros atos, tão necessários para que uma anestesia decorra a contento. E desde aqueles dias o sonho de um respirador maior, além do Takaokinha, não saía de minha cabeça.

 

 

 

O Congresso daquele ano foi realizado em Brasília. Para onde fui com minha mãe. Ainda no fusquinha 1966 de 1200 cilindradas.

 

 

 

 

Foi suada a prova escrita para a obtenção do Título Superior em Anestesiologia. Foi realizada na manhã do domingo de instalação do congresso. Nas salas de um dos departamentos da Faculdade de Medicina de Brasília. Foi o primeiro dia de chuva do Brasil Central. Foi debaixo de um aguaceiro que retornamos ao Hotel Nacional, local da instalação do Congresso.

 

 

 

 

Não recordo se foi na mesma noite ou no dia seguinte que recebemos o resultado do concurso. Feliz, agradeci aos deuses que me ajudaram a encontrar as respostas corretas para fechar os pontos necessários para a aprovação.

 

 

 

Jamais esquecerei das palavras de um professor de Fortaleza, ao cumprimentar-me. Palavras cravadas profundamente em meu coração.

 

 

 

 

“Parabéns, colega! Você agora é uma das nossas!”. Como é importante um título de especialista… E eu me encontrava entre os poucos, na época, possuidores deste tão cobiçado certificado.

 

 

 

A cada dia eu me preocupava mais diante da necessidade de termos, em nosso hospital, um respirador para os casos de pacientes que dele dependiam para sobreviver.

 

 

 

A muito custo consegui convencer administrador e diretoria e, enfim em um certo dia foi encomendado um especial que a Narcosul já fabricava. Corriam dias, semanas e meses e nada de eu poder trabalhar com o novo aparelho. O respirador não aparecia.

 

 

 

 

Passa-se o tempo. Mudam-se as pessoas. Mudam os dirigentes. Muda administrador. Um certo dia, alguém, que assumira o almoxarifado – que era sempre ao lado da farmácia –, chama-me para ver uma geringonça que se encontrava encaixotada em um canto empoeirado. Chamou-me porque eu era então Diretora Clínica do Hospital. E… surpresa nada agradável. A chamada geringonça nada mais era senão o respirador Narcosul há tanto encomendado e esperado. Já com as borrachas, tanto do balão sanfonado, como das mangueiras corrugadas bem comprometidas, grudadas, visguentas. Controles oxidados e emperrados. O aparelho não mais funcionava. E o tempo de garantia já morrera, por esgotamento de prazo…

 

 

 

Imaginem a minha decepção. Sonhar tanto… Esperar tanto… E encontrar o sonho, assim, encaixotado, empoeirado e deteriorado anos depois…

 

 

 

 

Na ocasião desta “descoberta” eu já havia adquirido um novo aparelho de anestesia, com respirador automático movido a oxigênio, claro. Não tínhamos ar comprimido canalizado, ainda.

 

 

 

 

Não se poderia chamar de Centro Cirúrgico o local onde eram realizadas as cirurgias em nosso Hospital Santa Cruz. Havia uma sala grande onde se faziam os procedimentos maiores e outra, menor, destinada a curetagens, a pequenas suturas e a colocação de gesso em ossos fraturados. Entre elas, um espaço exíguo onde se localizava o lavado. Com torneiras já providas de alavancas que eram acionadas pelos cotovelos.

 

 

 

 

Um corredor as separavam da sala de esterilização que comportava vários armários, uma estufa e uma pequena autoclave vertical. Havia, ainda, duas pequenas salas que dependiam da energia elétrica para ter claridade. A salinha dos médicos e a dos vestiários e sanitários.

 

 

 

 

 

Não havia sala de recuperação. Só depois que eu me entrosei, como anestesista, consegui, pelo menos, uma atendente a mais para ficar com o paciente recém-operado em cima de uma simples maca, no corredor, ao lado da sala de cirurgia.

 

 

 

 

 

Até o dia em que foi construída uma nova ala onde até hoje está localizado o nosso centro cirúrgico e obstétrico.

 





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