O Poeta de “La Bodeguita” e o violão de “El angel negro”


Malecon, Havana/Arquivo

Havana poreja arte em cada esquina, em cada parede, em cada viela

 

 

 

Embevecidos ainda, após deixarmos a velha Catedral de San Cristóbal, embrenhamo-nos pelas vielas de Habana Vieja. Ruas sem trânsito de veículos. Ao dobrar uma esquina, num repente, vi meu sobrinho Sérgio Jürgensen rodeado de crianças. Claro que ele logo chama a atenção, com sua altura e suas barbas brancas.  A sorrir, distribuía regalos para a petizada. Foi difícil tirá-lo de lá, a fim de continuarmos nosso roteiro.

 

 

 

Cruzamos um sem fim de ruas estreitas, ladeadas de edificações que remontam à época da colonização espanhola. Prédios de dois pavimentos, em meio a soberbos casarões senhoriais. Alguns completamente restaurados. Outros, em fase de restauração.

 

 

 

Havana poreja arte em cada esquina, em cada parede, em cada viela.

 

 

 

Bodeguita del Medio

Repentinamente, surge, ante os meus olhos, a catedral da boemia, já descrita há tanto por Ernest Hemingway. Na parte velha e tradicional da cidade, a apaixonante “Bodeguita del Medio”.

 

 

 

 

Um pequeno local. Apinhado de gente. A falar todas as línguas conhecidas. E outras mais. Necessário que se espere, pelo lado de fora, até que apareça algum espaço vazio em seu interior. Enquanto isto, um longo papo com um italiano, que conhecia muita coisa do Brasil. Eu, tentando pôr em dia o que aprendera de língua italiana.  Ele, querendo treinar o seu português…

 

 

 

Incrível o que se encontra lá dentro. Foi um mergulhar em tempos de outrora. Pela arquitetura original. Pelas prateleiras de madeira escura envernizada. Com uma variedade imensa de todos os tipos de rum fabricados na exuberante ilha. E entre outras tantas bebidas, as originais cervejas cubanas.

 

 

 

Nela não se desfrutam apenas os tradicionais coquetéis à base do famoso “Ron de Cuba”.  Um maravilhoso som de flautas, violinos, violoncelos e guitarras, acompanhados por canoras vozes que brindam os presentes com as mais variadas músicas. Desde os clássicos boleros de outrora até a contagiante salsa de agora, além das mais conhecidas brasileiras, desde Ari Barroso a Tom Jobim e Chico Buarque.

 

 

 

Um local pequeno, com paredes cobertas de mensagens de ilustres personagens. Entre tantos, Ernest Hemigway, Errol Flynn, Françoise Sagan, Gabriela Mistral, Salvador Allende, Augustin Lara.

 

 

 

Ao lado da porta, do lado de fora, sentado em sua cadeira, em frente a uma clássica e romântica Olivetti portátil, encontrei o encanto do velho poeta Orlando Laguardia, o poeta de “La Bodeguita del Medio”. Lá ele passa os dias, divertindo-se ao fazer versos, poetando em sua pequena e velha máquina de escrever e vivendo da vida as mais belas páginas.

 

 

 

Garboso e elegante, em sua imaculada calça de linho branco, quer saber o meu nome e vai ali, na pequena e velha máquina, batendo letras, palavras e frases que, colocadas no papel formam um poema, num improviso sutil.

 

 

 

 

Assim o poeta escreveu:

 

 

 

 

 

“Adair Dittrich llegó

con un amor brasilero

por esso escribirle espero

de mis versos lo mejor

una señora hecha flor

una persona gentil

y de manera sutil

por amable dulce y bella

Adair es una estrella

que nos envia Brasil.

Obrigado”.

 

 

 

 

 

E o que ele me entrega, transforma-se em um diploma, um certificado de que eu estive lá, em “La Bodeguita del Medio, Habana Vieja, a velha cidade de Havana, de tanta cultura acumulada em séculos de sangue e histórias.

 

 

 

 

Na famosa Bodeguita, apenas um Mojito* suave. A fim de reverenciar a tantos que por lá passaram e deixaram seus nomes impregnados para sempre.

 

 

 

Não muito longe, em um aprazível restaurante, apreciamos deliciosos pratos bem temperados, com deliciosos e soberbos camarões. E uma surpreendente lagosta.

 

 

 

Foi um longo papo, sempre ouvindo músicos solando flautas, solando violoncelos, solando guitarras, enquanto degustávamos aquele almoço ímpar.

 

 

 

Malecón

A tarde esvaía-se. Tinha a impressão de recém haver descido do ônibus que nos deixara no Parque Central de Havana e já nele estávamos de volta rumando pelo Malecón, até o bairro Vedado, onde se situava o nosso tugúrio temporário.

 

 

 

 

Pelas panorâmicas janelas deliciava-me com Havana debruçada ao mar. Em um ponto passa-se ao largo da grande Fortaleza de San Carlos de la Cabaña, construção da época da colonização espanhola. Imponente, chama mesmo a atenção.

 

 

 

São muitos e modernos edifícios que se vislumbram em toda a orla.

 

 

 

O dia havia sido intenso. Tenho a impressão de haver sido transportada, diretamente, do ônibus que nos trouxe de volta para nosso recanto à beira mar, para o leito.

 

 

La Chucheria Sport bar

Foi um esplendoroso amanhecer que nos levou, no dia seguinte, até “La Chucheria Sport bar”, a lanchonete onde tomávamos o nosso café, em todas as manhãs em que em Havana permanecemos.

 

 

 

 

Foi ali mesmo que negociamos com o condutor de um monumental cadillac conversível, da década de 50 do século passado, a nossa ida para Habana Vieja. Porque muito ainda lá havia para se ver. Deixou-nos na entrada, ainda com o mar ao nosso lado. Porque para além daquele ponto veículos não podem circular.

 

 

 

Conhecemos então outras relíquias. Havia um local famoso, de onde se poderia ver quase toda a cidade. Por meio de um instrumento de óptica, que já no século XV, havia sido idealizado por Leonardo da Vinci. Trata-se da chamada “Câmara escura”, que se situa em um dos cantos da Praça Vieja, uma praça encantada, cheia de pequenas estátuas que me magnetizavam. Defronte a elas estática eu ficava. Se eu já atrasava as andanças de meus sobrinhos e amigos, com o meu lento e quase claudicante andar, mais distante deles ficava, enquanto admirava tantas obras de arte.

 

 

 

 

Ao chegar ao nosso destino daquela manhã, deparo-me com trinta e cinco metros de escadarias até atingir o topo, onde se situa o objeto de nossos sonhos. Muita gente já ali, aguardando sua vez para se deslumbrar com as imagens que a câmara nos mostraria.

 

 

 

A Câmara Escura fica situada bem no topo do edifício. Foi um presente da Espanha para Cuba e é único em toda a América Latina e Caribe. Funciona à base de lentes e espelhos. E vai girando para mostrar, do alto, instigantes imagens de Havana. Ficamos lá sentados, a desfrutar de uma diferente visão da cidade. O Malecón e o mar, copas de arvoredos e um céu de um azul supremo. Parques e jardins, com seus habitues por eles a passar, cúpulas, telhados, torres e avarandados.

 

 

 

 

Após deslumbrar-me com tantas imagens percorri todo o espaço que contorna o local onde se situa a Câmara Escura. Fotografamos todos os pontos que nossas pequenas objetivas podiam alcançar. Rodeamos, lá do alto 360º. Mas não consegui captar, nem com meus olhos nus e nem em fotos o que dentro havíamos visto.

 

 

 

A manhã já caminhara longamente. E nós a perambular pelas ruas e praças. Seria hora de procuramos um restaurante. Não perdemos tempo em sua procura.

 

 

 

 

Pessoas, nas ruas, a perguntar se queríamos almoçar. Necessitávamos de um local com ar refrigerado. E que tivesse música. Com artistas locais. Um ativo garoto logo nos indica um restaurante ao nosso gosto e ainda por cima, climatizado. Depois de longas horas com horário de almoço vencido, sob um sol radiante, um calor de quarenta graus à sombra e de um estonteante céu azul e intenso, seguimos o menino, rumo ao desconhecido. Levou-nos por vielas e corredores, por verdadeiros labirintos, entremeados de flores em janelas. Já, quase desconfiados e exaustos, a pensar que ele nos conduziria a alguma masmorra, chegamos a um pequeno espaço onde não havia mais que dez mesas, com arranjos florais multicoloridos a nos dar as boas-vindas.

 

 

 

 

Fomos recebidos, com ufanismo, pelas garçonetes e cozinheiras. Acomodamo-nos a saborear as famosas cervejas cubanas, enquanto as pedidas lagostas iam sendo preparadas.  Num canto, abraçado a seu violão, que dedilhava com arte e amor, com maestria e embevecimento, estava um homem de cabelos brancos, que cantava sorrindo.

 

 

 

 

As melodias que ele tocava e cantava eram todas conhecidas. Por mim. Clássicos boleros com mais de meio século de vida. E, lá fui eu, timidamente, a pedir outros mais e mais outros e ele a dedilhá-los ao violão, cantando e encantando.

 

 

 

 

 

Pedi que cantasse “Angelitos Negros”, velha melodia da qual ele, de imediato, não se recordou. Fui, então, tentando entoar, com minha desafinada voz, algumas frases e então brotou a música inteira, que assim termina:

 

 

 

 

“…    … por que nunca te acordaste    

                          de pintar un Angel Negro?”

Depois dos acordes finais, em seu violão, o cantor sorriu para nós e nos disse:

            “Mi nombre es Angel”. 

 

 

 

 

 

E Angel era negro.

 

 

 

 

Emociono-me, ainda, ao lembrar-me dos olhos de Angel, ao violão, marejados de lágrimas e depois o abraço único, abraço irmão, que parecia ser o abraço de reconhecimento de quem não se via há milhares de anos.

 

 

 

E ele, ali, continuou tocando e cantando pelo resto da tarde fazendo com que o mundo dançasse feliz.

 

 

 

 

 

*Coquetel cubano à base de rum, com açúcar, suco de limão, água gaseificada, ramos de hortelã e cubos de gelo.





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