O mal do século: burrice e estupidez


Quando se declara uma guerra, mesmo contra um vírus, a primeira vítima é a verdade 

 

 

 

Prof. Dr. Wellington Lima Amorim*

João Libero**

 

 

 

O mal do século não será a solidão, como diria o poeta, nem muito menos as diversas pandemias que podem assolar o século XXI. Mas, talvez seja a burrice e a estupidez que já contamina os corações mais ‘bem intencionados’ de nossa civilização.

 

 

 

 

Aproximadamente 30 anos atrás, a esquerda iniciou nas Universidades e escolas de nosso país e no mundo, se apoiando em Michel Foucault, uma dura crítica aos pressupostos da Ciência Moderna e por consequência da Técnica, argumentando que a mesma obedecia a princípios elitistas e nazifascistas.

 

 

 

 

Mas, o que aconteceu com a esquerda festiva com seu senso crítico diante do modelo instaurado pelo atual Ministério da Saúde no Brasil e no mundo? Mudou de opinião diante desta pandemia do coronavírus? Onde estão os paladinos daqueles que defendem a anti-vacina? Ou a Ciência com consciência? Como sabemos, a Ciência na Modernidade nasce do vazio deixado pela ação de Deus no mundo. Deus este que, no medievo sempre agia ou para nos oportunizar graças (milagres) ou para punir nossos pecados. Todas as pestes, entre elas a lepra, eram vistos como sendo a ação do divino neste mundo. Quando as pandemias medievais desapareceram, todos se perguntaram: onde está Deus? Já que não havia mais graça ou punições a serem infligidas contra o ser humano.

 

 

 

 

Com a morte de Deus a Ciência se arvorou a ocupar seu lugar, como uma filha bastarda da religião. E com seus sacerdotes, começaram a ditar as regras de higienização no mundo moderno, urbanizando e limpando as cidades retirando da convivência social tudo que é considerado imundo, enclausurando os loucos, prostitutas, hereges, homossexuais, diferentes, com seu novo exército formado pelos especialistas, psiquiatras e homens de Ciência, obviamente, respaldados pelos juízes e julgadores da nova moral instaurados pelo novo Direito, agora profano, já que o canônico se tornou obsoleto, a vida precisa ser salva, a qualquer custo. A morte não pode ocupar seu espaço na Modernidade e por isso ela precisa ser deixada fora da cidade.

 

 

 

 

 

A esquerda, com razão, cansou de nos mostrar que este movimento nos levou aos grandes totalitarismos do século XX, seja pelas mãos do fascismo italiano ou do nazismo alemão. Os dois movimentos políticos foram movimentados pela sanha do higienismo e do isolamento social de todos aqueles considerados doentes e inaptos a conviverem em sociedade, ou melhor, todos que não eram considerados saudáveis para os novos padrões morais. Mas, contemporaneamente, aceitam, ensaiando a sua cegueira, os ditos e não ditos da Ciência Moderna. Não conhecem outro modelo, somente este que se apresenta medieval, para combater esta pandemia. Hipocrisia? Má-fé? Medo? Ou simplesmente burrice? O que quero dizer com tudo isso? Não estou defendendo outro modelo de combate ao coronavírus que não seja aquele que já conhecemos: isolamento social. Mas é curioso como a esquerda no Brasil e no mundo muda suas opiniões tão rapidamente. Algum tempo atrás, a Ciência é a precursora de todos os grandes movimentos elitistas, fascistas e nazistas que o mundo já conheceu. Todavia, quando nos deparamos com uma ameaça em escala global, é a primeira a escolher a segurança em vez da liberdade, seja de ir e vir, expressão ou consciência. Irônico? Má-fé? Burrice? A Esquerda é burra, como diria Fernando Henrique Cardoso.

 

 

 

 

Do outro lado, estaremos diante dos estúpidos que nunca acreditaram na Ciência, mas na astrologia, misticismo, neopentecostalismo evangélico e magia do Rasputin de subúrbio Olavo de Carvalho. O governo federal, coerente em suas doutrinas genocidas, segue fielmente a cartilha que a esquerda semeou durante anos: a plena desconfiança com os protocolos científicos. E ainda, usa como instrumento de popularidade o discurso politicamente incorreto como forma de combater o fascismo que impera no projeto de higienização da linguagem que a esquerda vem tentando desenvolver no mundo acadêmico e no controle da conduta social dos indivíduos. Nada pode ser mais fascista ou higiênico do que dizer que a referência a David Hume, cético britânico, ao afirmar que todos os cisnes são brancos, ao menos que surja um cisne negro, uma expressão racista.

 

 

 

 

 

É importante lembrar para o leitor que não está familiarizado com a tradição filosófica, de que esta proposição se refere a uma ave raríssima existente (expressão do acaso e da contingência), pois geralmente existem apenas cisnes brancos. Imagine que se tenha que reescrever o ballet “O Lago dos Cisnes” devido à referência a negritude de uma ave? Existe algo mais fascista ou de um policiamento digno da SS tentar higienizar nossa linguagem? Os reacionários de hoje usam e abusam dos pobres argumentos desenvolvidos e deixados na esteira do senso comum pela esquerda durante anos. E age imprudentemente colocando todos em perigo, como é o caso do capitão que comanda esta capitania denominada Brasil. Os reacionários são os novos estúpidos globais, sejam eles: Trump, Bolsonaro etc. Estes não tem como Deus a Ciência, mas a economia. E preferem que existam falecidos em vez de empresários falidos.

 

 

 

 

 

A esquerda reacionária (embora esta expressão me pareça redundante) e a direita xucra usam e abusam de nosso bom senso nos manipulando ao bel prazer de suas conveniências políticas. A esquerda quer sangrar o governo federal com uma economia cada vez mais falida, usando o discurso e o autoritarismo científico para estimular o medo, pânico, diante do desejo de sobrevivência do homem comum. A direita xucra e igualmente reacionária quer o retorno da economia para salvar a sua reeleição em 2022, não se preocupando com as baixas que poderão ser irremediáveis neste processo histórico, afinal, os fins justificam os meios. Quando se declara uma guerra, mesmo contra um vírus, a primeira vítima é a verdade.

 

 

 

 

Como diria João Libero, presidente e membro da Academia Peruibense de Letras em São Paulo, o burro é um animal híbrido, resulta do acasalamento de um jumento com uma égua. Ele é estéril, por isso não é usado para reprodução. Só para serviços de transporte, carregamento, etc, é considerado um animal estúpido. Seu dono, já conhecendo a espécie, era paciente, não chicoteava o animal como muitos o fazem. Tratava-o bem, afinal ele era seu companheiro de trabalho! O homem veio de um país europeu, que forneceu ao mundo mentes brilhantes, grandes pensadores, escritores, poetas, grandes navegadores e desbravadores, pessoas como ele, o leiteiro. Era um homem grande, forte, tinha um imenso bigode e era muito cordial. Ele tinha um pequeno sítio na periferia da cidade, meia dúzia de vacas, um boi e alguns porcos, e todos os dias saía entregando leite de casa em casa, com sua carroça, puxada pelo burro sonolento e turrão, que de tanto fazer o mesmo caminho, fazia-o automaticamente, com a rédea solta, sem que seu dono precisasse instá-lo a andar. Iam e voltavam as turras. Às vezes, enquanto o homem descarregava o leite, o burro dormia em pé, pois afinal um cochilozinho vai bem, né? Assim que o homem sentava na carroça, como se tocasse um despertador imaginário, o burro acordava e saía a andar. Mas, o burro, teimoso como todo burro tem de ser, às vezes, mesmo depois de acordar, insistia em não sair do lugar.

 

 

 

 

 

– Anda burro, estamos atrasados rapaz, temos muitas entregas ainda -, falava o homem, primeiro calmamente e depois exasperado.

 

 

 

 

 

O burro, para demonstrar que ele iria se quisesse, dava um tempo e quando o homem ameaçava descer da carroça, saía andando.

 

 

 

 

– Um dia ainda te dou uma lição seu orelhudo -, dizia o homem.

 

 

 

 

Esse dia não demorou a chegar. Subindo uma ladeira, o burro empacou. E quem disse que o bicho andava? Puxa as rédeas, usou o chicotinho de leve, pois ele gostava de animais e não judiava do seu burro, e nada!  Ele desceu calmamente da carroça, foi na frente do burro, olhou-o bem dentro dos olhos e falou:

 

 

 

 

 

 

– Tu podes ser mais inteligente do que eu, mas, mais forte tu não és! E deu um tremendo murro bem no meio da testa do burro, que desabou desacordado.

 

 

 

 

O homem então pegou uma cesta que levava na carroça, sentou-se na guia da calçada e comeu um lanche que trazia sempre com ele. Depois de um tempo, o burro voltou a si, um pouco atordoado na verdade e zurrou baixinho para seu dono. O homem levantou calmamente, olhou o burro nos olhos e falou:

 

 

 

 

 

– Agora tu sabes quem manda, sabichão? Deu-lhe uma suculenta maçã, subiu na carroça e o burro subiu a ladeira mastigando alegremente a deliciosa fruta.

 

 

 

 

A partir desse dia estaria definido quem manda? Seria o burro o estúpido? Ou a estupidez viria do mando? Continuaram sua jornada diária sem mais incidentes! Só os cochilinhos básicos, afinal nenhum burro é de ferro! Como diria Martin Heidegger somente um Deus irá nos salvar e nos dar uma saída para além da Técnica e da Ciência Moderna.

 

 

 

 

 

 

*Prof. Dr. Wellington Lima Amorim é membro da Academia Peruibense de Letras, SP.

**João Libero é presidente da Academia Peruibense de Letras, SP.





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