O equivalente a dois Planaltos Norte queimando no Pantanal: e tem gente que acha normal?


Incêndio no Pantanal A Delegacia de Meio Ambiente (Dema) apura quem são os possíveis responsáveis pelos focos de incêndio, que deram início a grandes queimadas no Pantanal. As cinco perícias realizadas pelo Centro Integrado Multiagências de Coordenação Operacional (Ciman-MT) apontaram ação humana como causa da origem das queimadas na região/ Mayke Toscano/Secom-MT

Muitos pecuaristas adotam técnicas muito mais modernas de manejo de pasto no Pantanal, que fazem com que o fogo seja desnecessário

 

 

Dois milhões de hectares pegaram fogo em 2020 no Bioma Pantanal e não, nada disso foi natural.

 

 

 

“Mas, Ana, o fogo no Pantanal é normal, faz parte da “cultura” de quem vive lá”, me dizem uns, à direita. “A pecuária está destruindo todos os nossos biomas”, me dizem outros, radicalizando. E eu aqui fico a sofrer, pensando: Como deixamos chegar nesta situação?

 

 

 

Sim. Qualquer pessoa minimamente interessada na área ambiental previa pioras na conservação do Pantanal, do Cerrado ou da Amazônia. Isso, inclusive, é política pública do atual governo e de seu ministro do Meio-Ambiente, que tem uma visão maligna e distorcida do que é progresso (declarada com bastante ênfase em reuniões ministeriais).

 

 

 

Mas, o nível da piora é que não prevíamos. Estive no Pantanal no ano passado pela terceira vez na vida. Conheço relativamente bem a região, até porque muitos colegas meus na área de pecuária atuam lá. Sim, as áreas de pasto e vegetação rasteira são predominantes e o uso do fogo ainda faz parte daquele cenário. Mas, até 2018, isso nunca foi motivo para a queimada descontrolada de dois milhões de hectares, sendo quase 150 mil hectares de áreas de vegetação nativa!

 

 

 

E por que isso não ocorria até 2018? Porque havia regras de uso desta estratégia e, mais importante, havia fiscalização das regras. Havia também serviços preventivos às queimadas, como o trabalho de construção de aceiros e uso de fogo controlado.

 

 

 

 

Com políticas públicas relativamente simples e inteligentes, o fogo era mais uma técnica (atrasada) de manejo do pasto. Não que seja recomendada. Isso é importante destacar. Muitos pecuaristas adotam técnicas muito mais modernas de manejo de pasto no Pantanal, que fazem com que o fogo seja desnecessário. O bom manejo das terras agrícolas, seja de pasto, ou seja, de agricultura, evita o uso do fogo. Seu uso é típico de fazendas ineficientes.

 

 

 

As linhas de ação e o controle bem estruturados, para evitar incêndios criminosos, assim como a prevenção eram fundamentais para que o fogo não fosse catastrófico. Reduzir e até eliminar recursos financeiros e humanos para a fiscalização e prevenção do uso do fogo no Pantanal, bem como fechar órgãos e serviços de controle, foi a causa desse “incêndio” triste e vergonhoso que estamos assistindo. É uma política pública. E precisa ser combatida.

 

 

 

 

Se você talvez ainda não analisou direito o cenário, e ainda acha que seja “normal”, feche os olhos e tente pensar em milhares de focos de incêndio, dia e noite, ocorrendo de Campo Alegre a Porto União, passando por Itaiópolis, Monte Castelo, Bela Vista…tente respirar, tente se proteger, tente dormir tranquilo pensando que o fogo deve chegar até sua casa. E tente pensar que todo esse fogo foi provocado por um grupo de pessoas que ainda pensa que colocar uma cabeça de gado a cada dois ou três alqueires é “progresso” e é um direito deles. E você e todos os outros que se danem.

 

 

 

 

Isso é o Pantanal 2020. E se vc continuar a achar que isso é normal, lembre-se: somos todos Brasil e o fogo que está lá agora, logo, logo pode estar acontecendo aqui.





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