O encantamento de Manuela

Adair Ditrich começa a contar uma história de amor e sofrimento

 

 

 Após meses de intenso serviço Manuela conseguira uns dias de folga. Um colega de uma distante cidade ficaria naqueles feriados em seu lugar. E foi assim, feliz e desligada dos tumultos que a rodeavam em todos os dias, e em quase todas as noites, que ela pode passar horas em um diferente mundo, junto com seus amigos, na boate do velho clube de sua cidade.


 

 

Haviam todos assistido ao último ensaio que o coral fazia antes da grande apresentação, em noite de gala, que seria no dia seguinte.

 

 

Um conterrâneo, vindo há pouco tempo do Rio de Janeiro, trouxera com ele um amigo pianista que ali naquele pequeno e aconchegante ambiente fazia as delícias dos ouvidos mais exigentes.

 

 

Manuela há muito desistira de apegos e de amores. Vivia a sua vida, dizia ela, sem entraves, sem rodeios, sem ninguém que a atormentasse emocionalmente. Já vivera todos os amores que o seu coração poderia suportar. Já vivera os encantos dos infinitos horizontes azuis. Já amargara as mais cruciantes dores infernais. Estava agora voltada apenas para as coisas que faziam seu espírito flanar.

 

 

Sonhava acordada com nuvens que avançavam pelo espaço sideral. Embevecia-se com as canções dos passarinhos do amanhecer. Dormia olhando a lua a despejar seus raios sobre as rosas de seu jardim. Respirava o ar das madrugadas felizes. Rodeada sempre de amigos que com ela cantavam as românticas melodias de uma época sem par.

 

 

E com eles estava ela, ali, naquela noite. Deliciando-se com as melodias que o pianista do Rio jogava pelas teclas de um piano. Alternando conversas sérias sobre livros e filmes do momento com algumas tiradas jocosas ímpares o tempo passava.

 

 

Foi num repente só. Foi um raio. Foi algo que a atraiu e a fez olhar, naquela ínfima fresta que ficava entre as cabeças de seus companheiros de mesa, para o lado extremo do pequeno salão. Um olhar iridescente sorria para ela. Um olhar que a fez estremecer.

 

 

Manuela já conhecia aquele jovem. Conhecia-o desde que ele era um garoto. Tinha sido amiga de sua irmã mais velha. Tinha. No dia em que aquela criatura proferira uma sórdida palavra ofendendo uma das irmãs de Manuela, Manuela com ela nunca mais falou. Desde então um abismo se formara entre elas. E hoje aquele garoto olhava para ela. Fixamente. Sorrindo. Ele ergueu seu copo e acenou com ele como que um brinde para ela. Ela brindou com a taça de vinho que tinha em suas mãos. E sorriu também.

 

 

O pianista boêmio continuava tomando goles de seu uísque e a dedilhar ao piano as mais românticas melodias de todos os tempos.

 

 

Aos poucos os amigos de Manuela foram saindo. O dia seguinte, para a maioria, era, ainda, de trabalho. Espaços vazios na mesa. E o garoto veio sentar-se ali, bem defronte a Manuela. Um começo sutil de apresentações para os amigos remanescentes. Uma conversa que se prolongava. As horas correndo. E na pequena mesa apenas os dois. Apenas Manuela e o garoto. Que começou a falar de seus estudos. Que logo terminaria a faculdade. Que tinha grandes sonhos em muito fazer pela humanidade.

 

 

Manuela com as mãos rodeando a taça quase vazia. Ele com as mãos sobre seu copo meio cheio. E ele a olhava fixamente nos olhos. Repentinamente as mãos não rodeavam mais a taça. Repentinamente as mãos não rodeavam mais o copo. Suas mãos estavam entrelaçadas e ele foi deixando jorrar palavras, que, dizia, estavam dentro dele desde muitos anos. A adoração que tinha por ela. O amor que crescera no decorrer do tempo. A vontade louca de, em todas as férias, ficar rodeando os lugares por onde ela passava. A casa dela. O seu local de trabalho.

 

 

E ela então começou a se lembrar das inúmeras vezes que o vira quando do hospital estava saindo. E ele sempre a dizer que viera visitar um amigo, um parente adoentado…

 

 

O pianista solou os últimos acordes em seu piano. Apenas o arrastar de cadeiras era o som da noite que findava.

 

 

Ele a acompanhou até o carro que estava ali em frente, logo abaixo da escadaria do clube. Abriu a porta para ela entrar. E quando ela ia dar a partida, num repente abre-se a porta do lado do carona. Ele entra. E mudos rodam pela noite. Defronte à casa dele ela para. Mas ele não desce. Toma as mãos dela. Beija-as com ternura. E alucinadamente pede para que no dia seguinte possam se encontrar com mais tempo.

 

 

No dia seguinte… mil coisas o dia seguinte esperava por ela. Receberia hóspedes em sua casa. Tinha compras a fazer. E as solenidades dos feriados continuavam. Era noite de gala de apresentação do coral.



 

 

Ela nada prometeu. Mas lá estava ele, sentado na primeira fila, para bem de perto ver e ouvir as magníficas vozes que embelezavam o espaço com músicas que agradavam a cidade inteira.

 

 

Ele não tinha carro. Não era uma família pobre. Mas era uma família grande que vivia às custas de uma pequena propriedade rural. Criavam algumas vacas e dos derivados do leite alguma coisa sempre sobrava. Criavam suínos e sempre havia um terreiro cheiro de galinhas. Haviam adquirido, há tempos já, uma casa na cidade, para que os filhos mais novos pudessem estudar enquanto os mais velhos cuidavam das terras e da criação. E era com sacrifício que o mantinham na capital para se formar doutor.

 

 

E foi assim que, na noite seguinte, uma vez mais a pé, ao clube ele se dirigiu. Comprou roupa nova. Passou a tarde na barbearia e um novo e moderno corte de cabelo arrumou. E por ela esperou, com o mais lindo buquê de flores do campo que conseguiu arranjar. Sentado na primeira fila para apreciar a apresentação do coral. Claro que quando ela entrou no salão ele correu buscá-la na porta para que ao lado dele ficasse sentada. E com um beijo em suas mãos, quase genuflexo, diante da multidão lá presente, entrega-lhe o significativo arranjo de flores campestres. Palmas dos amigos de ambos ecoaram pelo imenso salão.

 

 

Precisavam comer alguma coisa após findar o espetáculo. Na boate ao lado tentaram beliscar alguma coisa para acompanhar o vinho. Mas não havia tempo. Embevecidos contavam coisas de si enquanto rodeavam as taças em suas mãos, ouvindo o pianista boêmio a dedilhar no teclado as mais suaves canções de amor.

 

 

E então saíram pela noite. Rodearam de carro, não a cidade, desta vez. Saíram pelos campos, pelas veredas. Encontraram um fim de estrada, já bem longe das luzes da cidade. Continuaram pela capoeira bem além da última porteira avistada. Até o motor do carrinho esporte morrer por falta de aceleração. Ele já a envolvera em seus braços.

 

 

Entre um êxtase e outro um rugido irrompe na madrugada. Um rugido seguido de fortíssima luz, como se fora um imenso dragão com seus olhos de fogo surgindo diante deles. Dar uma repentina ré no carro. Sumir para onde? A fera passa ao lado, bem ao lado, talvez a menos de dois metros da lateral do carro. Era apenas um trem cargueiro seguindo seu destino.

 

 

Gargalhadas para apaziguar e fazer desvanecer o susto.

 

 

—E se fosse uma nave espacial que nos arrebataria para outras galáxias?

 

 

E ela completou:

 

 

—Quem sabe se lá teríamos a mesma idade.

 

 

—Nós sempre teremos a mesma idade aqui. Porque eu vou correr tanto que vou te alcançar. Porque pela eternidade afora estarei junto de ti. — Foi o que ele respondeu.

 

 

A lua, quase no horizonte brilhava ainda, como côncava canoa, quando dos braços dela ele se desvencilhou.

 

 

Nem o sol com seus raios intensos e nem as insistentes batidas na porta de seu quarto, conseguiram acordá-la na manhã que há tempo surgira. Foi um acordar de uma longa noite de trevas para o raiar de um novo amor.

 

 

Ela mal havia aberto os olhos, mal havia conseguido, meio sonhando ainda, sair do banheiro, envolta apenas em uma toalha quando avisam-lhe que alguém a esperava na entrada da casa. Corre arrumar-se. Era ele. Que viera até ela, com outro enorme arranjo de flores do campo, fresquinhas, recém colhidas para lhe falar de toda a saudade acumulada nas horas todas em que deixara de vê-la. Flores fresquinhas para substituir aquelas que amarfanhadas no carro dela haviam ficado no decorrer daquela madrugada de amor.

 

Continua…

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