O embrião da UTI do Hospital Santa Cruz de Canoinhas


Inauguração de nova ala do Hospital Santa Cruz de Canoinhas na década de 1950/Arquivo

Olho, hoje, para um passado que me parece tão distante. Um passado que foi ontem e que se foi há tanto

 

 

 

Olho, hoje, para estas aparelhagens que pululam pelos hospitais. A facilidade ao lado. Computadores que nos contam dos batimentos cardíacos, da amplitude e da frequência dos movimentos respiratórios, da quantidade de oxigênio que o paciente recebe e tantas outras minúcias mili e nanométricas que retratam, no instante real, o estado fisiológico do paciente que está sendo cuidado.

 

 

 

Olho, hoje, para um passado que me parece tão distante. Um passado que foi ontem e que se foi há tanto.

 

 

 

Não tínhamos estas facilidades. Hospitais dos grandes centros apresentavam maravilhas da modernidade científica. Que apenas em sonhos poderíamos ter em nosso Santa Cruz, aqui de Canoinhas. Se o Brasil encontrava-se atrasado em décadas, em relação aos países desenvolvidos, igual era a distância entre nós e as casas de saúde das capitais.

 

 

 

 

Nos meses de minhas férias do Centro de Saúde eu ficava, praticamente, internada nos serviços de anestesia e de recuperação –incluindo-se Unidades de Terapia Intensiva – da Santa Casa de Misericórdia de Santos, do Hospital Miguel Couto, no Rio de Janeiro ou do Celso Ramos, em Florianópolis.

 

 

 

Voltava com uma incontável gama de novos conhecimentos e a férrea vontade de ver, implantado, entre nós, serviços iguais. Mas as barreiras eram enormes. A começar pelas dificuldades financeiras.

 

 

 

Nosso hospital não conseguia adquirir o que eu precisava para, da melhor forma possível, atender as necessidades do paciente a ser anestesiado. Restava-me, então, comprar, não somente a aparelhagem de anestesia, como toda a parafernália anexa. E isto incluía não apenas laringoscópios e cânulas de intubação endotraqueal, como, também agulhas para anestesias raquidianas peri e extradural, e até as chamadas butterflys, para punção venosa.

 

 

 

Olho, uma vez mais, para este passado que me parece tão distante. E que foi ontem. Como sobrevivíamos com tão pouco? Como sobreviveram nossos pacientes? O trabalho era intenso. E a angústia que o acompanhava, de tamanho quase incompatível com a nossa capacidade de suportar tal peso.

 

 

 

 

Já falei que, finalmente, um dia, consegui uma atendente de enfermagem para ficar verificando os sinais vitais do paciente recém operado, deitado sobre uma maca, no corredor de nosso exíguo centro cirúrgico. Se e quando algum colega não estivesse utilizando a salinha para pequenos procedimentos, ao lado, era lá que o meu paciente ficava até a sua plena recuperação e em condições de retornar ao seu quarto e ou enfermaria.

 

 

 

Quantas vezes aconteceu de a salinha estar ocupada. De necessitarem da maca para transportar algum paciente. Até as macas, de tão raras, eu chamava de objetos de museu… A que eu usava como “leito” de recuperação de paciente anestesiado vivia viajando pelos corredores do hospital. Era um desespero só!

 

 

 

Mas sempre encontramos pessoas interessadas em melhorias e que, sem ônus para a empresa, sabem dar um jeitinho em tudo. Foi assim que alguém, fuçando pelas salas abandonadas do que chamávamos de porão, encontrou uma velha maca. Tintura descascada em quase sua totalidade. Enferrujada. Articulações e rodízios emperrados. Comprei a tinta – tinha que ser branca – e o que mais se fizesse necessário e a recuperamos. Sentei-me nela e disse a todo mundo que do centro cirúrgico ela não mais sairia. Foi a nossa salvação. Por muito tempo.

 

 

 

Creio que, nos dias de hoje, com tantos filmes e séries a mostrar salas de emergência de hospitais – dos Estados Unidos, naturalmente – não será difícil entender o nosso sufoco para ressuscitarmos um paciente. E não foram poucos os que, em parada cardiorrespiratória recebíamos na porta do hospital. A correria para entubar, fazer a devida ventilação manual e a premente massagem cardíaca. Incrível como as nossas meninas da enfermagem mobilizavam-se, a correr, para nos ajudar a salvar vidas. Já estavam com o protocolo memorizado.

 

 

 

Num glorioso dia estávamos instalados em um novo centro cirúrgico. Nem tenho lembrança como tudo aconteceu. Creio que eu ria e sorria sem parar.

 

 

 

Uma enorme porta de correr separava este novo espaço do restante do hospital. Um pequeno corredor. Quatro portas à frente. Uma primeira, de vai e vem, com entrada para a parte cirúrgica. Bem larga, para a passagem da maca com o paciente e quem a levasse até lá. Depois duas portas menores. Que dão entrada para os vestiários. Uma para o dos meninos. Outra para o das meninas. Mais outra, larga também, com entrada para o Centro Obstétrico.

 

 

 

Com sala para o cafezinho. Sala de recuperação. Amplo espaço para esterilização e depósito do material e dos aventais e campos – em tecido – operatórios. Duas salas de cirurgia. Duas salas de parto. Salas para pacientes em pré e pós parto. E mais uma salinha independente para pequenas cirurgias.

 

 

 

 

 

Já no projeto constava a instalação de tubulações por onde passariam o oxigênio e o ar comprimido. Já não mais as correrias com os tubos verdes pelas dependências do hospital. Mas eu sempre queria um deles a meu lado, como garantia… Vai que falte o componente da vida na tubulação…

 

 

 

 

Nesse tempo eu já tinha o meu ressuscitador. Acoplado a meu aparelho de anestesia. Não era portátil. Não poderia levá-lo, na urgência, para outros setores do hospital nos quais a minha presença se fizesse necessária para uma ressuscitação cardiorrespiratória.

 

 

 

 

Para estas ocasiões eu saía, a correr, pelos corredores, levando comigo o meu laringoscópio, cânulas de intubação orotraqueal e o velho Takaokinha.

 

 

 

 

Mas um espaço, mesmo que exíguo, era necessário para que se centralizassem estes atendimentos cardiorrespiratórios.

 

 

 

Uma das salas da então ala nova do hospital foi transformada em Unidade de Terapia Intensiva. Assim nós a chamávamos. Mesmo que fosse apenas um quarto para cuidados intensivos. Era a menina dos olhos de nosso cardiologista Clércio.

 

 

 

Apenas dois leitos. Paredes com pouca coisa. Aspiradores. Fluxômetros para Oxigênio. Medicação de urgência. E mais, claro, o cardioscópio, o eletrocardiógrafo e o desfibrilador.  E o mais importante. Sempre alguém ao lado a vigiar o paciente. Alguém com os olhos sempre abertos. Com todos os sentidos em alerta. A eterna vigilância dos que nasceram para, intensivamente, cuidar de seus semelhantes, o pessoal da enfermagem. Não demorou muito e um Respirador automático foi acrescentado ao patrimônio de nossa Mini UTI.

 

 

 

 

Inúmeras vezes, de dentro do centro cirúrgico, desloquei-me, às pressas, para atender ao chamado do colega Clércio, a fim de entubar um paciente. Lembro-me do nome de alguns, mais conhecidos meus. Lembro-me das horas fatídicas em que lá ficamos à espera que um sinal de vida a mais ocorresse.

 

 

 

Horas fatídicas com pessoas ligadas ao nosso dia a dia. Foi numa triste circunstância assim que assisti o fechar dos olhos, para sempre, de dona Faride, uma querida senhora, nascida no Líbano. Mãe de meu colega e amigo Antoninho Seleme.

 

 

 

 

Foi numa circunstância assim que, tristemente, entubei e ventilei mais uma pessoa amiga. Mãe e esposa de dois colegas. Em nossas mãos dona Ema despedia-se de Dr. Haroldo Ferreira e de seus filhos.

 

 

 

 

Mas há mais alguém que não me sai do pensamento. Isis Maria Baukat, minha amiga e irmã de coração, chegou ao hospital, em parada cardiorrespiratória. Clércio, praticamente, ordenou-me que a intubasse e procedesse aos cuidados ventilatórios enquanto ele fazia a parte que lhe cabia. Após injetar adrenalina intracardíaca e aplicar várias vezes o desfibrilador na parede anterior do tórax, o coração voltou a bater. E assim continuou por mais de um dia. Não tínhamos eletroencefalograma e nada que nos indicasse se a vida cerebral continuava. Até o momento em que o eletrocardiograma desenhou um último salto, da última onda e, após, apenas uma linha reta, horizontal e fria. Nenhuma resposta mais à injeção de adrenalina intracardíaca, nenhuma resposta mais à aplicação do desfibrilador. Nada mais. Pelos dados clínicos tivemos certeza que era o fim de uma vida.

 

 

 

Então, quando chegou a vez da minha mãe eu não tive coragem de fazer o que o amigo cardiologista pedia. Disse a ele que nada havia resolvido para as mães de meus colegas e nem para a minha amiga Isis. Foi então que o vozeirão do meu amigo se fez mais forte. Afirmou-me em alto e bom som que minha mãe viveria. Sua voz autoritária vibrou fundo em minha alma. Cautelosamente e chorando fiz os procedimentos necessários. Minha mãe viveu quase dois anos mais depois desta trágica passagem.

 

 

 

 

Era uma salinha apenas. Com dois leitos e alguns aparelhos. Não passava de uma sala ou de um quarto de cuidados intensivos. Mas era a nossa UTI. Era o seu embrião.





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