O cubo mágico


Tudo leva a crer que a sobrevivência política do presidente Bolsonaro depende de sua capacidade de controlar a narrativa

 

 

 

Dr M. Mattedi*

 

 

O Governo Bolsonaro está pressionado por todos os lados. A intensificação da covid-19, contração do PIB, Centrão… Então não é difícil supor que um governo que tem estes problemas não precisa de novas confusões.​ Porém, se isso não bastasse, o presidente Jair Bolsonaro conseguiu criar também uma instabilidade nas Forças Armadas. De fato, o que está em jogo são a distribuição dos custos (mortos e desemprego) e benefícios (auxílio emergencial e vacinação) na eleição de 2022. Neste sentido, para entender plenamente as relações de custo-benefício é preciso considerar os principais pontos de instabilidade para consolidação do Bolsonarismo:

 

 

 

 

  • A crise sanitária: A estratégia de gestão da covid-19 fixada pelo Governo Bolsonaro foi associar-se a fatores positivos como, por exemplo, o auxílio emergencial e a vacinação em massa, em detrimento de medidas restritivas como lockdowns. Por isso, o Governo Bolsonaro passou o ano de 2020 sabotando políticas de distanciamento social, disseminando mensagens anticientíficas e promovendo tratamentos ineficazes. A ideia é que enquanto o auxílio e a vacina produzem ganhos, o lockdown traz perdas de popularidade, porém acabou perdendo o timing político da vacinação.

 

 

 

 

  • A crise econômica: promoção de políticas de austeridade fiscal durante a passagem da covid-19 não produzirá emprego no curto prazo. É por isso que a taxa de desemprego chegou a 14,6% no terceiro trimestre de 2020, a maior já registrada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) na série histórica com início em 2012. Associado a este processo destaca-se também a aceleração da inflação. Isso significa que durante o ano de 2021 teremos uma diminuição muito alta da massa salarial e uma redução da poupança da classe média. Portanto, chegaremos em 2022 diante de uma forte redução da capacidade de consumo das famílias.

 

 

 

 

  • A crise política: o fim da crise política de relacionamento com o Congresso teve um preço alto. Os novos sócios já apresentaram a fatura política para manter Bolsonaro no poder. Afinal, Bolsonaro entregou o governo ao Centrão esperando, ao mesmo tempo, uma contração de curto prazo para aprovar alguns projetos, mas também uma ancoragem de uma aliança para a reeleição em 2022. Neste processo acrescente-se o custo do desembarque desencadeado pelo Efeito Lula. Assim, o Centrão vai gerenciar bilhões em emendas do Orçamento para poder atrair novos parlamentares para a coalizão de poder.

 

 

 

 

  • A crise nas forças armadas: o Governo Bolsonaro substituiu os critérios de antiguidade por alinhamento político na condução das forças armadas. Por isso, o Bolsonarismo desencadeou uma crise institucional criada pela tentativa de enquadrar politicamente os militares. A ideia subjacente deste movimento do presidente foi transformar os militares no braço armado do Bolsonarismo. Neste sentido, o alinhamento explícito do setor militar visa, ao mesmo tempo, intimidar as oposições civis e instituir um veto militar a um processo de impeachment.

 

 

 

 

 

Portanto, a intensificação da crise sanitária, econômica, política e agora também militar ameaçam o projeto de verticalização de poder conduzido pelo Bolsonarismo. A crença é que o auxílio emergencial associado a vacinação e o escudo legislativo garantiram a viabilidade política do presidente Bolsonaro para 2022. Porém, segundo a pesquisa XP/Ipespe o governo Jair Bolsonaro é avaliado como “ruim ou péssimo” por 48% dos brasileiros. O índice está três pontos percentuais acima do verificado na pesquisa anterior, divulgada em 12 de março. Além disso, o percentual de quem considera “ótimo ou bom” caiu três pontos, de 30% para 27%, e o índice de “regular” manteve os 24%.

 

 

 

 

Assim, o aumento do número de mortes, diminuição da renda familiar, o fortalecimento da oposição e a instabilidade institucional constitui um passivo político pesado para 2022.  Se é certo que o Bolsonarismo vem progressivamente perdendo força política, trata-se de saber se a popularidade de Bolsonaro também acompanha este movimento. Nesse sentido, a principal questão já não é mais saber com quem será a disputa de segundo turno, mas de determinar a elasticidade dos altos e baixos da popularidade de Bolsonaro até 2022. Portanto, atualmente, o único foco de Bolsonaro é impedir que a crise intensifique a queda.

 

 

 

Isto acontece porque o Governo Bolsonaro não governa para o país, mas apenas para sua base de apoio. Neste sentido, a aposta do Bolsonarismo é que as mortes, desemprego, barganhas ou ameaças se percam em meio a voracidade cacofônica das mídias sociais. Neste sentido, tudo leva a crer que a sobrevivência política do presidente Bolsonaro depende de sua capacidade de controlar a narrativa. Mais precisamente, da capacidade de disseminar suas próprias versões dos fatos por meio de uma infraestrutura de informação muito mais eficiente do que a dos seus opositores. Trata-se, portanto, de saber se a história contada pela retórica do ódio ainda continuará fazendo sentido.

 

 

 

 

 

Afinal, pode-se concluir que a necessidade de promover a polarização para se reproduzir política impede, paradoxalmente, o Governo Bolsonaro de governar. É por isso que o Governo parece preso num cubo mágico que aceita somente duas saídas: a) Para Baixo: perder o controle do poder; b) Para Cima: verticalização do poder. E é por isto também que para o Bolsonarismo não existe mais volta, não existe mais conciliação possível, não existe alternativa… O espaço político se tornou bidimensional numa bipartição de soma zero: a eliminação do adversário. Revela, sobretudo, que o presidente Bolsonaro não está disposto a governar para todos os brasileiros.

 

 

 

*Dr M. Mattedi é professor





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