O comboio dos pelados

Guerra do Contestado - Sertanejos após a rendição. Canoinhas em janeiro de 1915/Arquivo

Adair Dittrich relembra uma das tantas histórias da Guerra do Contestado

 

Pouco, muito pouco conhecimento temos das coisas que aconteceram em nosso território no decorrer dos terríveis anos que marcaram a guerra que, em criança, eu conhecia como a Guerra dos Fanáticos.

 


 

Meus pais e meus Nonnos viveram algumas passagens e com muitas personagens destes tristes episódios conviveram. Mas não falavam muito sobre aqueles tristes dias. Parecia ser uma história velada. Ou porque muito viram e as marcas em seus âmagos permaneceram. Ou porque o mundo ao redor se calou, as estações do ano continuaram a mudar, outra guerra na Europa enchia de dor os corações. Porque a vida continuava e os dias corriam, mudavam-se as estações do ano.

 

 

Mas alguns episódios, alguma coisa sempre era falada. Sempre era contada. E foi assim que com uns poucos fios trançados aqui e ali alguma coisa no fundo do lago da memória eu consigo trazer para o momento de agora. O momento em que, mesmo que contra os dizeres de muitos, esta nossa esta história deva submergir das profundezas para onde foi relegada por um século.

 

 

Não, não vou narrar acontecimentos fidedignos, com documentação, com assinaturas vistas e revistas e reconhecidas pelos cartórios da vida. Não, apego-me a algumas memórias e junto estes fios para formar alguns retalhos que nem a intenção têm de passar por um tear para transformar-se em forte e resistente tecido.

 

 

O trem era, senão o único, pelo menos o melhor, mais viável e seguro elo de ligação entre as regiões de nosso planalto e o litoral. E por ele seguia a nossa madeira e a nossa erva mate rumo ao porto de São Francisco que não era chamado ainda do Sul.

 

 

Só que nem só a madeira e a erva-mate seguiam rumo ao mar.

 

 

Para o mar seguiram pessoas. Que de lá nunca mais voltaram. Gente que não foi conhecer o mar para do mar se extasiar. Gente que na escuridão da noite ao cais do porto chegou. Gente que na escuridão da noite para a escuridão do mar arremessada foi.

 

 

Foram muitos os presos políticos que em plena madrugada, de dentro de suas celas foram arrancados e de trem levados aos portos com a desculpa que embarcariam em algum navio rumo à corte ou à capital para lá serem julgados.

 

 

Presos políticos que dentro dos comboios foram assassinados e nos penhascos do Pico do Diabo em plena Serra de Mar foram jogados. Assim como foi a história do Barão do Cerro Azul no Paraná.

 

 

Teria sido assim, quase vinte anos depois, o final de alguns dos líderes da Guerra dos Fanáticos? Assassinados em plena Serra Dona Francisca? Estarão os corpos de alguns soterrados sob a Mata Atlântica que então era densa?

 

 

Eram comboios que, vindos de algum perdido lugar mais para o oeste, paravam na estação de trem de nossa vila. Porque ali era um ponto para se almoçar. Era ali o restaurante da estação com a conceituada cozinha italiana de meus Nonnos Pedro e Thereza Gobbi.

 

 

O comboio parado em frente. Apinhado de gente. Que dentro do trem permanecia. Olhos encovados. Olhos esbugalhados. Faces pálidas. Faces de um bronze desbotado. Ferimentos em seus corpos, seus membros, suas faces. Visíveis marcas de negro sangue coagulado. Visíveis marcas de vermelho sangue fresco a escorrer…

 

 

Foi o tempo de minha Nonna Thereza levantar a cabeça para fora do balcão de seu botequim onde servia café e seu famoso pastel e ficar com a boca entreaberta de susto e compaixão.

 

 

Foi o tempo de minha Nonna Thereza ver mulheres seminuas, com seios e ventre à mostra, com braços descobertos, com trapos encardidos tentando cobrir um pouco de seus magros corpos.

 

 

Foi o tempo de ver mulheres desnudas em um tempo em que de mulher nem sequer um tornozelo descoberto poderia ser mostrado…



 

 

Foi então que ela largou tudo o que estava fazendo e correu em busca de lençóis em seu hotel, o Hotel Gobbi. E com a ajuda da filha Nena, minha mãe, túnicas e mais túnicas, às pressas foram costuradas para cobrir as vergonhas daquelas mulheres desnudas que de vergonha nem a boca abriam, nem que fosse para um frágil suspiro de dor. Ou de saudade.

 

 

Os lençóis eram poucos. As mulheres desnudas eram muitas. Pediu ajuda aos demais habitantes da vila. Comprou fiado nas vendas o que havia de simples tecidos e mais túnicas e vestidos foram sendo costurados.

 

 

 

E vestidas com as túnicas que minha Nonna e minha mãe costuraram para elas, assim como de túnicas eram vestidos os mártires, que aquelas mulheres partiram rumo ao desconhecido, rumo ao mar. De onde nunca mais voltaram.

 

 

Aquelas pessoas não podiam deixar o comboio enquanto na estação de minha vila permanecia estacionado. Vigiadas por guardas fortemente armados que as conduziam ao seu destino final, sentadas naqueles incômodos bancos de madeira deveriam permanecer. Quando muito poderiam se levantar para ir aos mictórios que ficavam dentro dos vagões.

 

 

Mas a fila era imensa. A necessidade fisiológica era imensa. Mais premente ainda quando após dias de inanição um reles mingau de farinha engrossado com gordura rançosa lhes era servido.

 

 

Então permitiram que algumas garotas descessem do trem a fim de ir em busca de outras latrinas na vizinhança da estação.

 

 

E foi assim que Ritinha entrou pela porta dos fundos do restaurante de minha Nonna Thereza.

 

 

E foi assim que minha Nonna Thereza escondeu Ritinha dentro de um porão que havia numa sala quase não vista entre sacas de trigo, de arroz e de açúcar. Um tempo que nem deu para contar no relógio foi o tempo que se passou entre o empurrar uma grande e pesada mesa para cima da tampa basculante do porão e a entrada de um gendarme em busca de uma menina que para o comboio não retornara.

 

 

O comboio partiu sem Ritinha, rumo ao mar.

 

 

Do porão ela fez o seu refúgio por muitos dias. Para onde minha Nonna Thereza levou colchão e travesseiro, cobertas e agasalho, água e comida.

 

 

Porque o exército acampado em torno da estação por muito tempo ainda permaneceu.

 

 

A vida na vila continuava e Ritinha lá ficou morando. Trabalhou por alguns anos no restaurante da estação até ser encontrada por um jovem que na serraria do outro lado da linha trabalhava. Um jovem que por ela se apaixonou. Um jovem que ela amou. Criava galinhas e cultivava uma pujante horta. Uma menina a menos na escuridão do mar. Uma família a mais a embelezar nossa vila…

 

 

Havia dias em que ela alongava os olhos para o horizonte longínquo na vã tentativa de amenizar a saudade dos seus, na vã tentativa de que alguma notícia deles tivesse. Mas no horizonte longínquo ela via apenas negras nuvens de fumaça que as locomotivas expeliam… Negras nuvens que se encontravam com outras mais brancas no céu.

 

 

Em vão ela esperou pela volta dos seus… em vão ela esperou para saber algo do que havia se passado com eles. Porque jamais retornaram do fundo da escuridão do mar…




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