O Bolsonarismo nas eleições municipais de 2020


Bolsonaro testa capital político em incursão pelo nordeste/Divulgação

Bolsonarismo não consegue interferir diretamente nas eleições das principais capitais

 

 

 

Dr M.Mattedi*

 

 

 

O Bolsonarismo parece perdido na eleição municipal de 2020. Isto não acontece apenas porque o presidente Bolsonaro não tem partido, mas também pelos limites da Política de Polarização por meio das mídias sociais. Assim, paradoxalmente, na eleição mais virtual que já existiu o Bolsonarismo está com a capacidade de influência reduzida. É que apesar da centralidade das mídias sociais no padrão de atuação do presidente, o Bolsonarismo permanece sem uma referência partidária definida. Portanto, apesar do fortalecimento da imagem do presidente Bolsonaro, o Bolsonarismo não consegue interferir diretamente nas eleições das principais capitais.

 

 

 

 

Isto não significa que o Bolsonarismo não lutará por espaço nas eleições municipais de 2020. Neste sentido, depende da transformação da eleição numa disputa entre quem defende e quem se opõe ao presidente Jair Bolsonaro. Assim, se é certo que o Bolsonarismo é um movimento que veio para ficar, também é certo que está se redefinindo politicamente. Este processo se materializa, simultaneamente, num realinhamento não somente na base eleitoral, mas também no padrão de atuação do Governo Bolsonaro. Portanto, nas eleições municipais de 2020 o Bolsonarismo enfrenta, ao mesmo tempo, limites técnicos e políticos:

 

 

 

 

  1. Fatores Conjunturais: com a crise no PSL e como a Aliança Pelo Brasil não saiu do papel, o Bolsonarismo se encontra distribuído em partidos como, por exemplo, o Republicanos, PRTB, Patriotas e até mesmo o PSL. Associado a este processo encontra-se a saída de Moro do governo e a ruptura com o lavajatismo. E como em política não existe vácuo, o espaço deixado pelo Bolsonarismo vai sendo ocupado por outras agremiações ligadas, principalmente, à direita tradicional. Por isto, com exceção do Rio de Janeiro, em nenhuma outra capital um candidato traduz diretamente Bolsonarismo. 

     

  2. Fatores Estruturais: além desses fatores conjunturais, as dificuldades do Bolsonarismo apontam para os limites da Política de Polarização. Por um lado, não é mais possível manter o padrão de mobilização por meio de contágio nas mídias sociais; por outro, a denúncia da Velha Política promovida pelo Bolsonarismo em 2018 não serve para 2020. Ou seja, correntes de WhatsApp e grupos de Facebook promovendo a agenda nacionalista, os valores cristãos e a anticorrupção não serão suficientes para motivar o eleitor. Indica, portanto, que o eleitor espera serviços e não saneamento moral da política.

 

 

 

 

Assim, por um lado, o Bolsonarismo permanece sem uma referência partidária. O que se verifica, considerando este processo, não é somente que o eleitor bolsonarista está órfão partidariamente, mas também que se dividirá entre vários candidatos. É claro que o contexto eleitoral das candidaturas é ainda de indefinição e pode mudar muito, porém dificilmente a direita tradicional deixará de triunfar na maioria das cidades. Portanto, embora para o presidente Bolsonaro os limites partidários não sejam muito importantes, a falta de uma referência partidária dificulta a atuação do presidente como cabo eleitoral nas eleições de 2020.

 

 

 

 

Enquanto, por outro, o lento deslocamento da agenda política para o centro coloca o Bolsonarismo sob forte pressão. Por isto, talvez o dado mais interessante da eleição de 2020 seja a divisão do eleitorado conservador. A divisão do eleitorado conservador é o reflexo da crise no PSL, mas também da ruptura com o lavajatismo. Isto significa que não basta mais demonstrar ser antipestista, mas é preciso também propor soluções viáveis para os problemas. Por isto, na eleição deste ano o Bolsonarismo vai acabar se diluindo em várias candidaturas.

 

 

 

 

 

Além disso a covid-19 operando como variável independente. Como a covid-19 encontra-se estacionada na agenda sanitária, econômica e política brasileira, acaba chamando a atenção para importância do Estado. Questões como a presença do SUS, a distribuição do Auxílio Emergencial, o apoio a pequenas e médias empresas demonstraram a importância de uma postura proativa do gestor. Este processo desloca a atenção do eleitor das questões locais para as questões mais amplas de âmbito nacional. Portanto, a covid-19 associada ao fim das coligações acentuou ainda mais imprevisibilidade da eleição municipal de 2020.

 

 

 

 

As eleições municipais demarcarão o tamanho do Bolsonarismo. Porém, os analistas se dividem sobre os efeitos deste processo na imagem do Presidente Bolsonaro. Neste sentido, diferenciam-se duas linhas de interpretações principais:  a) Copo Meio Cheio: como não irá se envolver diretamente na eleição o Presidente Bolsonaro só tem a ganhar porque pode escolher os candidatos que irá apoiar; b) Copo Meio Vazio: o movimento nas grandes capitais aponta para o fortalecimento de candidaturas de centro da direita tradicional. Ou seja, as eleições municipais de 2022 podem ser, ao mesmo tempo, tanto um referendo quanto a captura do centro pelo Governo Bolsonaro.

 

 

 

 

Portanto, embora as eleições de 2020 ocorram numa conjunta particular elas são um termômetro para as eleições de 2022. Como as eleições de 2000 assinalaram a vitória do PT em 2002, as eleições de 2016 marcaram a guinada conservadora em 2018. Por isto, a safra de políticos eleitos com base na onda chamada de Nova Política serão testados eleitoralmente em 2020. Neste sentido, as eleições de 2020 assinalam os limites e potencialidades do Bolsonarismo. Afinal, apesar da declaração do presidente de que não irá intervir na eleição municipal de 2020 o que está em jogo é a sua capacidade manter o Bolsonarismo não somente coeso, mas também aquecido.

 

 

 

*Dr M.Mattedi é professor





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