O Artesão


A minha infelicidade começou no auge do inverno, quando o sol não mais se pusera tão tarde

 

*Eduarda Gonçalves

Como todo homem comum que anda sobre a terra eu almejava as coisas mais corriqueiras: a força de um corpo saudável, uma mente equilibrada e estável, o amor dos meus entes mais queridos e, definitivamente, escalar as classes mais altas. Simples pensamentos, mas de difícil execução, ainda mais simultaneamente. Uma pessoa inteligente tem o dever de atingir uma dessas questões com excelência, e eu falhei em todas. Com isso, venho dizer que a minha história não é a de um homem comum que caminha sobre a terra; contudo, inicialmente, pensei que assim o fosse.

 

 

 

 

Já tive uma esposa bondosa e dois belos filhos, um menino ágil e perspicaz e uma menina doce com o coração mais puro (não mencionarei seus nomes porque me foram tirados da memória), mas ainda assim consigo lembrar de seus rostos gentis que tanto me acompanhavam. Vivíamos em uma colina alta com a vista mais privilegiada de toda a região, graças a antigos parentes, que com grande esforço desbravaram o ponto mais alto dessas antigas terras, deixando-me de herança esse rico lar. Podíamos ver rios que circundavam os vales e as casas, cachoeiras que caiam brancas e majestosas no que parecia ser o infinito, densas e imponentes florestas que apresentavam o mais belo verde, trazendo calma e serenidade aos que procuravam. Graças a estrutura bela daquelas árvores eu conseguia trazer aconchego e lazer à minha família. Minha tarefa diária era cortar aquelas árvores e transformá-las nos mais variados objetos: móveis esculpidos, artefatos religiosos ou de decoração, como também casas inteiras com o toque mais delicado do mais forte carvalho. Eu era bom e perfeccionista no que fazia, trazendo-me a digna recompensa de manter e sustentar uma casa com quatro pessoas.

 

 

 

 

Eu trabalhava todos os dias antes do sol nascer até ele se pôr por completo, apanhava as mais fortes árvores e as cortava incessantemente, transformava-as enfim em pequenos tocos, mas em grande número. Colocava o que podia na carroça e as levava para casa, onde eu lapidava e contornava cada pedaço até que adquirisse a forma e o traço perfeito. Assim que meu trabalho terminava, eu os levava para aqueles que podiam pagar. Acabei por conhecer a maior parte da cidade, não havendo uma estranha alma que não conhecesse meu hoje esquecido nome e não avaliasse meu caráter como honesto e confiável, e eu de fato acreditava nisso.

 

 

 

 

A rotina dura me trouxe uma boa postura e um corpo forte para aguentar as intempéries, aliviava a minha mente nas incansáveis machadadas, o que me fez um homem que raramente ficava estressado, podendo avaliar qualquer situação com o total de clareza que essa poderia exigir. Por isso, achava eu que era um sábio, talvez até mais meticuloso que qualquer um que tivesse o dom da enganação. Mais avançado, mais concentrado e consequentemente mais forte. Eu achava que merecia mais do que a simplicidade charmosa da qual eu tinha acesso e que deveria conquistar quando o tempo certo chegasse, mas fui tolo demais para evitar as consequências da minha ganância astuciosa, mas ainda assim ganância.

 

 

 

 

A minha infelicidade começou no auge do inverno, quando o sol não mais se pusera tão tarde, minhas tarefas aumentaram drasticamente, as casas frias precisavam de lenha e, devido a longa duração do escuro, tochas precisavam ser acesas com mais frequência sem que seus preguiçosos moradores tivessem que caminhar e cortar alguns pedaços de madeira, assim, mais árvores precisavam ser derrubadas. Durante um entardecer, quando ainda havia um resquício de luz para enxergar o caminho, fui adentrando a floresta mais fundo do que geralmente estava acostumado. Lembro do frio cortante e do vento que quase me fazia levantar voo, quem dera eu tivesse desistido naquele momento e voltasse para a casa, mas eu continuei, temia estar ficando velho demais para aguentar a natureza e, por causa desse pensamento, cada passo meu era mais rápido que o anterior. O vento assoviava como um uivo de um lobo à espreita, o caminho ficava cada vez mais escuro no decorrer do trajeto, eu precisava chegar muito mais ao fundo da floresta porque os locais próximos que me eram recorrentes estavam se recuperando de antigos trabalhos. Quando cheguei no que me recordo ser o centro daquela vasta mata, deparo-me com uma vista que jamais esquecerei por toda minha vida. Estava eu, de pé, em frente ao coração pulsante daquela floresta. A maior árvore de todas as árvores estava diante de mim. Suas raízes intercalavam entre a terra e o ar puro, sendo maiores do que o diâmetro do meu corpo, elas emanavam uma luz amarelo claro que aquecia todo ambiente e me fazia suar o rosto. Seu tronco era magnífico, como se eu estivesse diante de um gigante, de um guardião, seus galhos eram tantos que cobriam uma área imensa e vazia, tendo tantos ramos e bifurcações que me faziam lembrar de uma cidade complexa ou do mais lindo dos castelos. Suas folhas lembravam ouro puro e eram milhares, nenhuma estava no chão. De sua presença era possível sentir a energia que era emanada, parecida com um formigamento que vinha da cabeça aos pés me deixando tonto. Quando cheguei o mais perto possível, a uma distância de um braço apenas, toquei-a com a ponta dos meus dedos, a luz saída de suas raízes quase me cegava e um zumbido insuportável socava cada vez mais forte a minha cabeça. Não aguentei por muito tempo, logo, caí no chão inconsciente. Não demorei muito para reaver minha consciência e sair correndo o mais rápido que pude, apavorado, mas inacreditavelmente feliz. Já havia escurecido por completo, mas sabia exatamente por onde ir e em que parte do chão pisar, sentia que meu coração saltaria do peito.

 

 

 

 

Já estava tarde quando pus os pés em casa. Não quis contar nada aos meus filhos, nem sequer a minha esposa, todos já dormiam um sono pesado. Decidi esconder dentro de mim essa lembrança. Pensava na sorte, sentado diante da janela, e em como ela me escolhera de maneira grandiosa, talvez eu fora o único homem a pisar naquele sacro lugar, do contrário teria ouvido histórias daqueles caçadores gananciosos que zanzam a procura de carne por toda parte, mas não, eu tinha a certeza de que ninguém o conhecia e de que o tempo por mim tão esperado havia enfim chegado.

 

 

Passaram-se duas noites com aquela visão esplêndida embriagando meus pensamentos, já não mais tinha paciência para as tarefas cotidianas, pois após passar por tamanha experiência você já não consegue mais olhar a vida ao redor com os mesmos olhos. Ademais, como que para sarar aquela imagem compulsória tive a ideia de descer o vale até a cidade para vender meus artefatos e, como que por destino, avisto no mural de avisos, ao centro das alocações comerciais, um papel dourado demarcado com um emblema do que parecia ser da realeza. Aproximo-me e começo a leitura. O bilhete era uma convocação a todos os cidadãos da região para as festividades tradicionais do verão, daqui a sete meses. Um tanto estranho essa tamanha antecedência, mas continuando a leitura percebo que o texto está mais longo do que antigamente. Havia uma notícia sobre a enfermidade do rei e que, durante as digníssimas festas de verão, cada súdito deverá ofertar um valoroso presente ao rei em um jantar que será oferecido a todos, sem exceções. Já estava quase desistindo da leitura por perceber mais uma das formas de extorsão da coroa, agora com pretexto de leito de morte daquela besta gorda que se diz rei, mas por alguma razão continuei a leitura. Após todas as apresentações dos presentes, o rei escolherá qual for mais de seu agrado e ofertará o cidadão da maneira que a grandeza do presente exigir, o texto termina com a assinatura do magistrado. Meus olhos brilharam sobre aquele papel dourado. Naquele momento, vejo que meu destino fora traçado e não demoraria para um plano estar devidamente formado. No caminho para casa pude avaliar minha situação e perceber que não precisava pensar muito, apenas agir o mais depressa possível. Eu arrancaria aquela árvore que exala poderes inimagináveis e esculpiria a figura daquele rei grotesco, mas que com minha habilidade, seria o mais grandioso e indomável rei da Terra. Já estava tudo arquitetado, faria a tarefa do dia à noite, durante esses sete meses até a chegada do verão, e teria minha recompensa, a qualquer custo.

 

 

 

Voltei para casa obstinado a por em prática meu plano, sem qualquer aviso a minha esposa ou atenção aos meus filhos, que notaram minha seriedade. Comecei a planejar o objeto que sairia daquela árvore, desenhando em um papel. Uma serra de ferro com dentes tão afiados quanto o gume de uma espada, tendo a altura de mais de quatro homens, mantendo assim certa distância da luz e da sensação que me levaria ao chão. Deve ser feita firme e com grande espessura para que não balance ou se quebre quando eu aplicar o máximo de força. Terminado o projeto, levei para o ferreiro mais respeitado da região, que me devia dinheiro pelo enorme balcão que repousava em seu estabelecimento, logo não fez cara feia nem me cobrou muito pela ferramenta. Disse que em duas semanas estaria em minhas mãos e assim se fez. Depois de duas semanas já estava a caminho daquele local mágico, que eu poderia percorrer de olhos fechados que jamais me perderia. No terceiro dia de verão, quando sol ardia bem no meio do céu ofuscando a luz calorosa daquela árvore, o tronco deixou suas raízes e tombou no chão. O estrondo foi tão grande que levantou milhares de pássaros de seu descanso, enegrecendo o céu, correndo toda vida que estava por perto. As raízes já não mais brilhavam e as folhas tomaram o tom enegrecido e metálico do cinza. Por um momento senti um aperto no peito, mas tinha um objetivo bem claro em mente e não podia hesitar. O dia seguinte seria o dia das festividades, muito trabalho ainda precisava ser feito.

 

 

 

 

Tomei a devida precaução de manter-me de acordo com o calendário das festas, que ocorreria por quatro semanas afinco. Diante do primeiro dia, reuni todos meus cavalos no estábulo e aluguei mais alguns na cidade, totalizando mais de vinte cavalos; peguei todas as cordas e arames engrenhados que pude encontrar, o máximo possível para ter força e tamanho suficiente para levar aquele tronco imenso, e assim foi feito. A manada de cavalos arrastou aquele tronco vale adentro, quebrando árvores e deixando um rastro gigantesco pela relva. O corpo da árvore ainda reluzia um espectro prateado fraco, mas que mesmo assim tornava-a bela e única. Já estava escuro quando a trouxe para casa, não podia deixar escondida dentro de nenhuma construção humana, pois seu tamanho era absurdamente desproporcional, ficou sob as estrelas. Teria que aguentar às perguntas.

 

 

 

 

 

Ao amanhecer, distribuí toda minha força e criatividade em cada pedaço de madeira. Tendo uma escada como auxílio, pude alcançar todos os pontos necessários. Meu trabalho estava pronto antes das quatro semanas, pois podia ouvir o festejo e as fogueira lá embaixo na cidade, mas não sabia por quanto tempo trabalhei, perdi completamente a noção do tempo, não comia, não bebia, apenas esculpia. Estava exausto. Contudo, lá estava o rei na mais poderosa e rara árvore, com seu elmo em sua belíssima cabeça e a espada em mãos. A dimensão e as proporções naquele lindo tom prateado davam um ar divino àquela figura, arrancando glorificação e respeito de qualquer um que a visse, não havia como negar.

 

 

 

Continua…

*Meu nome é Eduarda Gonçalves, moro em Gravataí, região metropolitana de Porto Alegre no estado do Rio Grande do Sul, sul do Brasil.





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