O ABZ do Ziraldo


Alinhado, algumas vezes, ao realismo, certos contos alfabéticos mostram o lado sombra das letras

 

 

 

A lista de funções desempenhadas por Ziraldo – cartunista, chargista, pintor, escritor, dramaturgo, cartazista, caricaturista, poeta, cronista, desenhista, apresentador, humorista e jornalista brasileiro – já é motivo para reverenciá-lo. E, ao lermos seu ABZ, que é uma compilação de obras publicadas aleatoriamente, cada uma sobre uma das letras do alfabeto, a admiração aumenta.

 

 

 

Ele combina um estilo dialógico, em que contos clássicos, enredos famosos e obras plásticas de renomados artistas, como Van Gogh, Pablo Picasso, Marc Chagal, Joan Miró, Henri Matisse, Paul Klee, Edgar Degas, se imbricam para tecer as narrativas encantatórias sobre as letras.

 

 

 

 

É o que vemos, por exemplo, na história da letra D, que é uma antropófaga, e, para desvendar o mistério do desaparecimento de alguns sinais de pontuação: “A solução foi mandar contratar um detetive. Contratamos Mr. P porque o P se parece com um cachimbo ou uma lupa – uma lupa ou uma lente – os principais acessórios de um Sherlock competente” (ZIRALDO, 2003, p.38).

 

 

 

 

A partir da Letra G, Ziraldo aborda e valoriza grandes gênios da História da Humanidade, como Albert Einstein: “[…] gênio é um velhinho simpático botando a língua pra fora. Por favor, não vão dizer que vocês não estão sabendo quem que é esse velhinho! Meu Deus, esse seu retrato já andou por toda parte virou pôster, camiseta; de tanto que bate, bate, é cara mais conhecida do que o morcego do Batman” (ZIRALDO, 2003, p.76).

 

 

 

 

 

Com a letra N, discorre a lenda do nascimento da noite, a qual não foi esculpida no Gênesis e, logo, se originou da fusão amorosa entre o número oito e a letra em questão: “Aqui, a mágica história desse amor tão decisivo termina em claro luar: e como disse o velho sábio que adora uma moral: Fica provado, meninos, que só o amor é capaz de criar o que o Senhor não criou nos sete dias” (ZIRALDO, 2003, p.152).

 

 

 

 

E, como toda antologia, há um romance, digno de sacrifícios, peripécias, clímax, e desfecho surpreendente. Uma das lindas meninas da família do R se apaixona por uma letra de outra estirpe, o que causa muitas confusões e descaminhos. Vale acrescentar a poética descrição acerca da beleza dos seus traços:

 

 

 

Basta olhar suas formas: a letra R é uma letra dançante. Parece um desenho do Degas, aquele pintor francês que amava pintar bailarinas; ou uma bailarina espanhola que tivesse sido desenhada pelo Miró, o mais lindo pintor da Espanha. E muitas vezes a Letra R, lançada assim de golpe no papel, parece um pôster para um espetáculo de dança. Sua perninha pra frente dá sempre a impressão de que ela está preparada para dar aquele passo que as professoras de balé – mesmo as que não falam francês – chamam de grand éclat (ZIRALDO, 2003, p.188).

 

 

 

 

Alinhado, algumas vezes, ao realismo, certos contos alfabéticos mostram o lado sombra das letras, como é o caso do V, que se deixou dominar pela soberba e pela inveja.

 

 

 

Não obstante a vaidade do W, seu conto é um dos mais interessantes e sublimes, pois há uma verdadeira aula de História da Arte. A protagonista acredita aparecer nas mais famosas telas de pintores renomados, e, assim, somos apresentados a uma verdadeira exibição de quadros estonteantes. O autor aproveita para admoestar ao leitor que:

 

 

 

 

Ninguém aqui quer pregar moral ou mostrar caminhos. A aventura aqui inventada foi somente uma desculpa para mostrar a vocês todos esses lindos quadros – que vimos, atentamente – e falar de seus pintores. Esta é que foi a aventura! E o bom das aventuras é descobrir o que existe além de cada capítulo! O bom de ver cada quadro é descobrir quantos mundos existem em cada canto do quadro que nos encanta; o bom de ler um verso é descobrir o sussurro ou cada grito e zoada das palavras que o fizeram; o bom de ouvir os acordes de uma doce canção é descobrir cada nota diluída nos seus sons; o bom de olhar as montanhas é descobrir cada sombra que o sol desenha nos morros; o bom de olhar as nuvens é descobrir cada nuvem; o bom de olhar a tarde  é descobrir cada dia; o bom de olhar o dia é descobrir… (ZIRALDO, 2003, p.244).

 

 

 

 

 

É perceptível, no excerto acima, que Ziraldo nos adverte sobre a rede de obras que compõe uma única obra artística. Há sempre muito mais tesouros recônditos nos labirintos da escrita ou das telas. Quanto mais se exercita o ato da leitura, mais lemos. E essa afirmação não é ilógica ou redundante, uma vez que, a cada releitura, novas joias se desvelam. Nas demais histórias das letras que não foram aqui citadas, há um sem-número de diamantes esperando a lapidação de você, leitor.

 

 

 

(ZIRALDO. O ABZ do Ziraldo. São Paulo: Melhoramentos, 2003).





Deixe seu comentário: