domingo, junho 20, 2021

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Mantemos a postura de heróis anônimos…

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Nestes tempos de agora eu queria escrever poemas de amor

 

Nesta Pandemia em que um ser microscópico ainda faz divisões entre as pessoas. Nesta Pandemia que ceifa vidas inexoravelmente. Nesta Pandemia em que disseminam-se crenças no inverossímil. Em que deturpa-se a fala da ciência. Em que abominam-se os conselhos. Em que se critica a eficácia de uma vacina —porque assim o chefe vaticinou…

 

 

 

Nestes tempos em que a agonia de uns passa despercebida por todos aqueles que ainda querem e precisam ver a vida passar a seus pés como um serviçal que deva ser espezinhado.

 

 

 

 

Nestes tempos de agora vemos muitos a dar mais valor às suas festas de luzes e cores do que ao diuturno trabalho das exaustas equipes da área da saúde.

 

 

 

Nestes tempos em que muitos apregoam ser o vil metal mais importante que as notícias fúnebres que lemos e ouvimos em todos os dias.

 

 

 

Nestes tempos de agora eu queria escrever poemas de amor. E nada consigo. Porque a dor é intensa. Porque a desilusão é intensa. Porque a amargura renasce a cada imagem, a cada matéria, a cada nota que dá conta de mais amigos, de mais conhecidos, de mais pessoas de quem nunca ouvi falar… mas que eram a vida e o amor de alguém.

 

 

 

 

Então abri o portal da galeria do passado e encontrei esta carta  que a poetisa e escritora Isis Maria Tack Baukat, escreveu e me enviou em outubro de 1978.

 

 

 

            “Adair,

 

É… mantemos a postura de heróis anônimos só para sermos ignorados.

 

 

 

 

Combatemos no silêncio, nos subterrâneos, para fugirmos às pressões da milícia canina.

 

 

 

Também cremos na Paz.

 

 

 

Também acreditamos no Amor.

 

 

 

Mas sabemos que Paz e Amor são filhos do ódio.

 

 

 

Por isso nossas armas também ferem fundo, também matam.

 

 

 

 

A única diferença entre eles e nós é que eles nos caçam para ferir enquanto nós ferimos para nos defender.

 

 

 

 

Mundo-cão!  Cães dentro de Todos, arreganhando os dentes por trás das máscaras.

 

 

 

 

Nós: queremos beber todos os vinhos, sentir todas as emoções, alimentar os sentidos até que se dissolvam no fogo e se arrebentem e o espírito possa reinar em Paz.

 

 

 

 

 

Eles: querem negar o poder da nossa condição humana, tolher os sentidos, mistificar a carne, como se tudo isso fosse a condição máxima para merecer o reino dos céus.

 

 

 

 

Não! Não será, por certo, com esses atributos que se chega lá!

 

 

 

 

Caçam-nos! Com a chibata da língua, fuzilam-nos, com os dedos em riste, contra o paredão da ignorância.

 

 

 

Arrogantes, os donos da Verdade comandam os destinos dos pecadores confessos.

 

 

Olham-nos de soslaio, com imenso desprezo disfarçando uma certa inveja. Inveja sufocada já ao nascer.

 

 

 

Chamam-nos fracos. E quando nos veem pairando, vez por outra, sobre suas fortalezas, odeiam-nos. Mesmo assim estendemos as mãos para que participem, conosco, das alturas.

 

 

 

Eles nunca aceitam.

 

 

 

E é uma pena, porque as oportunidades se vão, rápidas como os voos que são tão difíceis, tão difíceis, a partir do submundo.

 

 

 

Caçam-nos, quando estamos abaixo. Desdenham-nos quando estamos acima.

 

 

Querem-nos à sua altura… e isso já não é possível. E aposto que, se nos equiparássemos, a caça continuaria. Possivelmente menos feroz, mas mais sistemática.

 

 

 

…e pensar que um dia uniremos nossos corpos para o gozo coletivo, quando a morte envolverá a todos em sua trama sensual…

 

 

 

 

Até lá, nós —os errados — viveremos; sem renegar a herança da carne e com os voos com que for possível voarmos.

 

 

 

 

Até lá, eles —os predestinados— continuarão desfiando seus dias num arremedo de vida —que é tão vida quanto um copo furado— com seus bate-papos enfadonhos em tarde de chuva… com viseiras diante das cores do arco-íris, mas com voz emudecida e olhos atentos ante as fezes de uma vaca…

 

 

 

Até lá, o peso dos nossos pecados, seguramente, estaria a retardar o passo, não fossem as asas maravilhosas da nossa Liberdade.

 

 

 

Até lá, eles irão, Livres de pecados (?) mas atados, uns aos outros, pelas algemas da própria covardia… até lá, serão guiados, forçados, coagidos— uns pelos outros— e acreditando-se, estupidamente, personagens principais do romance Deus.

 

 

 

 

Nós, nós chegaremos abertos —como sempre fomos— conscientes das nossas falhas, humildes, para aceitação da sentença final.

 

 

 

Eles —tenho certeza— chegarão vestidos da velha arrogância que atravessa os séculos, pregando peças de mau gosto aos que a adotam e a levam até o fim. Eles chegarão ufanando-se de suas virtudes, renúncias, práticas, camaradagens e outras coisas mais.

 

 

Irão ao centro da Praça para desfiar seus atributos. Falarão alto, muito alto, para que suas vozes nos alcancem nas sarjetas, na periferia do Grande Mercado.

 

 

 

Farão negócios entre si — “vamos trocar o mérito dessa esmola que dei a fulano por aquele tapinha fraterno que você deu nas costas do João Polegar da Silva? — procurando ainda aumentar seus tesouros.

 

 

 

Coitado do Polegar! Ficou tão feliz com a demonstração de apreço do Dr. Patrão.

 

 

 

Estarão tão entretidos em suas barganhas que, quando o pano descer sobre suas cabeças, ficarão revoltados —eles não poderiam, mesmo, ter ouvido o gongo anunciando o fim da linha— que pensarão em caçar o sujeito que pôs fim à brincadeira.

 

 

 

De repente rasgam-se os véus que cobrem os mistérios.

 

 

Aí, então, estaremos realmente no mesmo barco.

 

 

 

Todos. Sem exceção. No mesmo barco. O derradeiro. Mas…

 

 

 

Até lá. Até lá tudo ainda será possível. Para todos.

 

 

 

Ainda bem!”

 

 

 

Isis Maria, em 01/10/1978

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